Copa do Mundo

Ataque à CazéTV avança sob pressão da Globo e dos bancos

Canal alterou publicidade de bets após ação do Conar e investigação do Ministério da Justiça; ofensiva favorece monopólio da Globo

A ofensiva contra a CazéTV ganhou novo capítulo no sábado (27), quando o canal afirmou que as mudanças adotadas na publicidade de bets durante as transmissões da Copa do Mundo atendem aos pontos levantados pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, o Conar.

A declaração foi feita após o Conar emitir uma liminar contra propagandas de casas de apostas exibidas durante os jogos da Copa. A medida, assinada por Luiz Celso de Piratininga Jr., ainda será analisada pelo Conselho de Ética do órgão. Segundo a imprensa burguesa, o conselheiro afirmou que a combinação de odds e apostas em lances iminentes pode levar o público ao erro sobre a oferta, inclusive gerando confusão sobre a probabilidade e a possibilidade de ganho.

A CazéTV respondeu em nota que recebeu a manifestação “com tranquilidade” e que responderá ao Conar dentro do prazo estabelecido. O canal disse ainda que as mudanças feitas nos últimos dias “já vão ao encontro dos pontos destacados pelo Conar” e que a publicidade veiculada observa a legislação brasileira, as diretrizes do órgão e é feita apenas com operadoras licenciadas e autorizadas pelo Ministério da Fazenda.

No dia anterior, sexta-feira (26), a CazéTV já havia anunciado que adotaria um formato “mais tradicional e conservador” para ativações de marcas de apostas. Na prática, a empresa recuou diante da campanha organizada contra suas transmissões.

A mudança ocorreu depois de o Ministério da Justiça abrir, na quarta-feira (24), uma investigação contra a CazéTV por suposta “publicidade abusiva” de bets durante a Copa do Mundo. A apuração é conduzida pela Secretaria Nacional do Consumidor, a Senacon.

O órgão afirma analisar se as ações publicitárias respeitaram normas de publicidade responsável, com informações claras sobre os riscos envolvidos nas apostas. Segundo o despacho da secretaria, a legislação proíbe mensagens que incentivem apostas impulsivas, sugiram ganhos fáceis ou minimizem os riscos da atividade.

Entre os trechos citados pela Senacon está uma propaganda da Betnacional durante Inglaterra x Gana, apresentada por Galvão Bueno em uma parada para hidratação, com a expressão “colocar a paixão em jogo”. Também foi mencionada a partida Argentina x Áustria, na qual foram divulgadas odds “turbinadas” de 3.0 para 4.0. Outro caso citado foi Uruguai x Cabo Verde, com publicidade da KTO associando a paixão pelo futebol à prática de apostas.

A deputada federal Erika Hilton, do PSOL de São Paulo, também enviou ofício ao Ministério Público Federal solicitando a abertura de inquérito civil sobre possíveis violações à lei que regulamenta as bets no Brasil durante transmissões da CazéTV no YouTube.

Apesar de casas de apostas patrocinarem diversos eventos esportivos e manterem acordos com vários veículos que transmitem jogos da Copa, o debate foi concentrado contra a CazéTV.

A campanha contra as bets repete o roteiro já utilizado nas campanhas contra o cigarro e contra o álcool. O problema social é deslocado para o comportamento individual, enquanto o verdadeiro mecanismo de empobrecimento da população fica protegido: os bancos.

A ofensiva não é dirigida contra o endividamento das famílias, os juros abusivos, o cartão de crédito ou o saque financeiro contra os trabalhadores. Ela se volta contra as apostas como se fossem a causa principal da miséria popular.

Não por acaso, um dos porta-vozes da ofensiva é Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e homem do capital financeiro. Ao seu lado aparecem globais como Caetano Veloso e Paula Lavigne.

A Copa é um dos produtos mais importantes da televisão brasileira. Ao transmitir todos os jogos gratuitamente pela Internet, a CazéTV atinge um dos principais negócios da Globo.

O caso mostra também o motivo da ofensiva pela censura à Internet. Toda medida de controle da rede é apresentada como combate a abusos, defesa de crianças, proteção do consumidor ou repressão a fraudes. Na prática, o resultado é o aumento do poder do Estado e dos monopólios sobre a circulação de conteúdo.

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