O editorial do Estadão publicado nesta sexta-feira (26), intitulado O Brasil na lanterna da competitividade, demonstra o quanto a burguesia brasileira e seus porta-vozes são covardes e cínicos.
Segundo o jornal, “o Brasil conseguiu a proeza de cair sete posições no Ranking Mundial de Competitividade, elaborado pelo International Institute for Management Development (IMD) em parceria com a Fundação Dom Cabral. O que já era ruim ficou ainda pior. Na edição de 2026, o País aparece num desalentador 65.º lugar, em um rol de 70 economias, à frente apenas de Botsuana, Mongólia, Nigéria, Namíbia e Venezuela.”
O órgão canalha apenas não explica que, historicamente, apoia todos os governos entreguistas e defende políticas que vão empurrando o País para o buraco. O Estadão apoiou a ditadura militar, Sarney, Collor, Itamar Franco, FHC, Michel Temer, e ainda vem dizer que é desalentador um 65.º lugar. O que esse jornal esperava após décadas de destruição?
Após listar vizinhos latino-americanos à frente do Brasil, o editorial diz que “apesar de desempenho razoável em indicadores como ‘atração de investimento estrangeiro’ e ‘geração de energia renovável’, o País segue falhando em áreas fundamentais para a competitividade. No quesito “eficiência governamental”, ficou na penúltima colocação: 69.ª entre 70 países, superando apenas a Venezuela. Por si só, esse resultado é bastante revelador.”
Esse setor de “energia renovável” conta com pesados incentivos governamentais e o retorno financeiro é atrativo para o capital estrangeiro, que ganha muito fazendo pouco. Quanto à eficiência governamental, os bancos parasitam mais da metade do orçamento público.
No País, a atração de capitais se concentra principalmente na aquisição de fintechs, e-commerce e empresas de energia de capital privado. Além de ter uma alta concentração em privatizações, ou leilões de infraestrutura (saneamento, rodovias e aeroportos).
O Estadão defende a “independência” do Banco Central. Mas, quando o BC, que na verdade é controlado pelos bancos, mantém as taxas de juros reais mais altas do planeta e eleva a dívida pública à estratosfera, paralisando os investimentos sociais, o jornal simplesmente diz que o governo é ineficiente.
Para quem o governo é ineficiente? Os bancos acabam de ter o maior lucro da história.
“A ineficiência do Estado está na raiz de muitos dos problemas crônicos do Brasil, a começar pela educação básica de baixa qualidade”, segue o editorial. “Da primeira infância à capacitação profissional, o País falha sistematicamente na qualificação de seus cidadãos. Não por acaso, a produtividade medida pelas horas efetivamente trabalhadas recuou 0,5% no primeiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre).”
Dizer que o Estado é ineficiente na educação significa dizer que deveriam privatizar esse setor. No entanto, o ensino privado tem avançado no País e a eficiência do setor não melhora, só piora. Além disso, é preciso voltar à questão do BC controlado pelos banqueiros, que o Estadão defende: não sobra dinheiro para a educação.
Seria excelente melhorar a capacitação profissional, mas não existe mercado para absorver essa mão de obra. Inúmeros engenheiros e matemáticos formados nas universidades públicas (que são as melhores) vão parar no mercado financeiro.
O governo FHC, que o Estadão tanto defendeu, tratou de dizimar a indústria brasileira. Então, o jornal não tem do que reclamar, foi isso que pediram.
É possível dar ainda outro exemplo. A Petrobrás, no governo Lula, começou a investir na indústria naval. Porém, com o golpe de 2016, apoiado pelo Estadão, e os governos subsequentes, Michel Temer e Jair Bolsonaro, essa indústria foi destruída, e com ela os postos para engenheiros.
A Operação Lava Jato, também apoiada pelo Estadão, tratou de destruir as grandes construtoras, o que acaba com postos para engenheiros, arquitetos, etc. As construtoras, aliás, já vinham sendo assediadas desde que se decidiu que haveria Copa do Mundo no Brasil. Naquele período, a Rede Globo e outros lacaios diziam que se deveria permitir a presença de construtoras empreiteiras estrangeiras para a construção de estádios.
Comparações
Adiante, o jornal afirma que “o contraste com economias asiáticas é constrangedor. China e Coreia do Sul, outrora mais pobres do que o Brasil, investiram décadas em educação, infraestrutura e tecnologia. Hoje, superam o País, e muito, em PIB per capita, indicadores educacionais e produtividade do trabalho.”
É muito fácil, hoje, se comparar o Brasil com China e Coreia do Sul. O que esse jornal venal não diz é que defendeu o fim da reserva de informática ocorrida durante o governo de Fernando Collor de Mello no início dos anos 1990.
O Brasil já possuía um laboratório na Poli-USP, o LME (Laboratório de Microeletrônica), que em 1971 produziu o primeiro microchip da América Latina.
Em 1984, durante o governo militar de João Batista Figueiredo, apoiado pelo Estadão, a Lei de Informática asfixiou os laboratórios acadêmicos. Impediu ou dificultou a importação de insumos químicos de alta pureza e novos equipamentos de litografia, o que começou a tornar os laboratórios obsoletos.
Alguém pode contestar que existe uma diferença entre uma produção de laboratório, de pesquisa, e a produção em escala industrial. Ocorre que, em 1980, a produção industrial era maior que a da China e da Coreia do Sul juntas. O País possuía o 8º maior parque industrial do mundo e exportava aviões, carros e até tanques de guerra. O PIB per capita brasileiro era mais do que o dobro do sul-coreano e o Brasil era quatro vezes mais rico que a China.
Enquanto a Coreia do Sul apostou em uma política protecionista e de aquisição de tecnologia, a burguesia lambe-botas brasileira entregou tudo para o grande capital estrangeiro. Como é covarde, não vai assumir.
O resultado está aí, o País está sendo todo privatizado e entregue para o capital privado, que não investe, quer lucro fácil, e empurra a economia para o abismo. O Estadão tem uma parte nisso, pois sempre atual contra Brasil.



