O título Sobrevivência institucional e as táticas para derrotar o extremismo redefinem as fronteiras entre o PSOL e o PT, artigo de Sara York, publicado no Brasil247 nesta quinta-feira (25), tem algumas questões embutidas.
A existência da necessidade de uma “sobrevivência institucional” revela uma crise. Um dos fatores dessa crise é o abandono do socialismo pela “luta contra o extremismo”. Com essa política, o burguês deixa de ser o inimigo da classe trabalhadora, pois, supostamente, é preciso derrotar um inimigo maior: a extrema direita. Um exemplo prático foi o apoio à candidatura de Joe Biden/Kamala Harris em nome de derrotar o “fascista” Donald Trump.
Na mesma linha, na última eleição presidencial, setores da esquerda, incluindo o PSOL, tentaram formar uma frente com João Doria, MBL e Ciro Gomes com a desculpa do combate ao extremista Jair Bolsonaro.
Como bem definiram, essa esquerda virou um puxadinho do Partido Democrata dos Estados Unidos.
Com relação à “sobrevivência institucional”, essa expressão pinta bem o quadro da realidade desses dois partidos: são duas instituições burocratizadas, sem programa, cujo único objetivo é conseguir votos e cargos dentro do sistema.
No Rio de Janeiro, por exemplo, conforme denunciou o jornalista Breno Altman em sua conta no X: “quatro vereadores de esquerda votaram, no Rio de Janeiro, a favor de lei criminalizando o antissionismo: Felipe Pires e Tainá de Paula, do PT; e Rick Azevedo e Thaís Ferreira, do PSOL. Diante de atitude tão repugnante, as direções desses partidos nada têm a dizer ou a fazer?”
Desses quatro nomes, os três últimos desmascaram a propaganda identitária da importância de pessoas negras em “posições de poder”. Toda a falácia da “luta antirracista” também cai por terra quando essa esquerda vota em um projeto de lei para proteger os piores racistas. As “táticas para derrotar o extremismo”, como se vê, comportam até votar-se em leis que protegem os fascistas que estão cometendo um genocídio em Gaza.
Sara York afirma que “a geografia política da esquerda brasileira passa por uma de suas mais profundas reconfigurações desde a redemocratização. O fluxo migratório de quadros históricos e novas lideranças expressivas do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), bem como de siglas do campo progressista tradicional, em direção ao PT (Partido dos Trabalhadores) e à sua base direta de sustentação, aponta para um fenômeno estrutural.”
Como esses partidos são instituições, não têm programa, e o negócio é conseguir votos, nada mais natural que haja o “fluxo migratório”.
É falso afirmar que “longe de ser um movimento meramente individual, a mudança responde a imperativos táticos de sobrevivência institucional e à consolidação da estratégia de “Frente Ampla” liderada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.”
A dança das cadeiras contempla, sim, projetos pessoais. Ou alguém vai acreditar que um Guilherme Boulos foi para o PT por motivos ideológicos? E o que dizer de Jones Manoel e Manuela D’Ávila no PSOL? Esta última, aliás, já está eriçando e provocando protesto da deputada Erika Hilton.
É muito bonito escrever que “para compreender esse cenário, é necessário abdicar de leituras lineares e adotar um viés polissêmico, nossa leitura um tanto semiótica”, mas os fatos são os fatos, e a briga é pelo osso, pelo “fundo partidário e ao tempo de televisão.” Esses partidos apresentam candidatos-celebridades, ou que preencham algum requisito lateral, como a cor da pele ou sexualidade. Um militante qualquer, por mais que trabalhe em nome dessas legendas, tem pouca chance de disputar uma vaga nas eleições.
York tenta disfarçar a realidade, mas só reforça o caráter mercenário dessa gente quando diz que “a permanência em legendas menores impõe tetos estruturais sufocantes para a realização de campanhas majoritárias viáveis.”
Para que construir um partido, batalhar, levar adiante o seu programa, politizar os trabalhadores? É muito “sufocante”, o melhor mesmo é ir para outra legenda.
Ideologia
Adiante, Sara York fala sobre uma certa “diluição das fronteiras ideológicas”, e que “desde que a corrente majoritária do PSOL optou por integrar formalmente a base de apoio ao governo Lula, a diferenciação prática entre as siglas se estreitou.” E aqui vem a confissão: “se a atuação cotidiana consiste em defender a gestão federal no Parlamento, a fusão de horizontes táticos torna-se uma consequência natural.”
O PSOL que se dizia uma alternativa ao PT, mostra bem a que veio. E isso de “diluição de fronteiras ideológicas” não tem nada a ver, o que se apresenta aí é o mais puro oportunismo.
Adiante, York fala que “a análise ganha ainda mais densidade ao observar como esse movimento atinge a vanguarda das candidaturas trans e travestis do país.” Não existe vanguarda nenhuma, o identitarismo é reacionário, como se demonstrou nos votos em favor dos sionistas, e na insistência em tornar opinião crime; além, é claro, da militância pelo aumento de penas.
O texto de Sara York é bastante educativo, pois revela a completa falência de uma esquerda reformista e oportunista que, no fundo, não dá a mínima para a classe trabalhadora, só está interessada no status quo.



