Universidade Marxista

Mossadeq no Egito e a decisão pelo golpe contra o Irã

Premiê iraniano foi ovacionado como “líder do anti-imperialismo” no Cairo em 1951

Quando Mohamed Mossadeq retornou de Nova Iorque, em outubro de 1951, depois de enfrentar a diplomacia britânica no Conselho de Segurança da ONU, fez uma escala política no Egito. Sua passagem pelo Cairo foi recebida com uma grande manifestação pública. Milhares de egípcios saíram às ruas para saudar o primeiro-ministro iraniano.

As palavras de ordem gritadas durante as manifestações indicavam o alcance da nacionalização do petróleo iraniano: “vida longa ao líder do anti-imperialismo”. A cena alarmou os serviços de inteligência das potências imperialistas e pesou na decisão de derrubar Mossadeq.

A Universidade Marxista realizará, entre os dias 27 de junho e 5 de julho, o curso A história do Irã e da República Islâmica, parte da Universidade de Férias de inverno da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR). A repercussão internacional da nacionalização iraniana e o processo que levou à decisão imperialista pelo golpe serão apresentados em aula por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência.

A preocupação com o alcance internacional de Mossadeq estava registrada nos relatórios da própria CIA antes mesmo da nacionalização. Em julho de 1951, a agência produziu uma análise sobre os efeitos regionais que o fechamento da indústria petrolífera iraniana teria. “Inspirado pelo nacionalismo iraniano, também é de se esperar que o Egito intensifique seus esforços atuais para expulsar as tropas britânicas da Zona do Canal de Suez e para acabar com a administração britânica no Sudão”, dizia o documento.

O exemplo iraniano

A análise da CIA indicava o efeito político em cadeia que a nacionalização iraniana ameaçava produzir. O Reino Unido mantinha posições estratégicas em todo o Oriente Médio e no Norte da África. O Canal de Suez, sob controle britânico, era uma das principais rotas marítimas do mundo. O Sudão estava sob domínio colonial inglês. As monarquias do Golfo operavam sob tutela britânica, com seus recursos petrolíferos explorados por empresas anglo-americanas em condições semelhantes às que existiam no Irã antes da nacionalização.

Uma vitória iraniana colocava em risco todo esse sistema. Os egípcios podiam nacionalizar Suez. Os sudaneses podiam exigir independência. As populações do Golfo podiam reivindicar o controle sobre seu próprio petróleo. A ovação a Mossadeq no Cairo era, para o imperialismo, um aviso de que o exemplo iraniano já atuava politicamente em toda a região.

Os conservadores voltam ao poder

A pressão internacional sobre o governo Mossadeq aumentou quando os conservadores britânicos retornaram ao poder, em outubro de 1951, sob a liderança de Winston Churchill. O novo primeiro-ministro britânico havia sido eleito com um discurso abertamente chauvinista e tratava a questão iraniana como um teste decisivo para a capacidade do Reino Unido de manter seu império em decadência.

Para Churchill, qualquer concessão a Mossadeq era inaceitável. Uma vitória iraniana sobre o imperialismo britânico serviria de exemplo para movimentos semelhantes em todos os territórios sob dominação inglesa. O governo conservador encontrou em andamento o sistema de sanções econômicas montado pelos trabalhistas, mas decidiu avançar na ofensiva. A linha política do Reino Unido passou a ser a remoção de Mossadeq pela força.

A crise eleitoral de 1952

A pressão econômica das sanções e a intervenção velada do imperialismo começaram a desorganizar a base política do governo Mossadeq em 1952. As eleições parlamentares daquele ano mostraram o tamanho da crise. Diante do risco de perder maioria por causa da deterioração da situação econômica e da ingerência estrangeira, Mossadeq adotou uma medida excepcional.

O primeiro-ministro interrompeu a votação quando o número mínimo de 79 deputados havia sido eleito e denunciou a interferência estrangeira nas eleições. Seu partido havia conquistado 30 dos 79 assentos do 17º Majlis, que iniciou suas atividades em abril de 1952.

A interrupção do processo eleitoral foi uma manobra defensiva. As denúncias de ingerência estrangeira eram verdadeiras, como os documentos posteriormente liberados pela própria CIA confirmaram. Ao mesmo tempo, do ponto de vista da estabilidade do governo, a medida criou uma brecha que seria explorada pelos opositores de Mossadeq.

O conflito com o Xá

Em 16 de julho de 1952, Mossadeq reuniu-se com o Xá Mohamed Reza Pahlavi para pedir mais poderes executivos a fim de enfrentar as atividades ilegais de forças internas e externas contra seu governo. O primeiro-ministro baseava-se na Constituição iraniana para defender a legalidade de sua indicação de um novo ministro da Defesa, colocando sob sua responsabilidade um setor estratégico das Forças Armadas.

O Xá rejeitou a proposta. Mossadeq, então, renunciou ao cargo e apelou diretamente ao apoio popular. O Xá indicou um novo primeiro-ministro, Qavam Saltaneh, que assumiu com uma posição de confronto aberto contra o movimento nacionalista.

Antecipando greves e mobilizações populares, Saltaneh emitiu um comunicado à nação: “os dias de rebeldia chegaram ao fim e chegou a hora de obedecer à vontade do governo”. A declaração produziu o resultado oposto ao pretendido.

A revolta de Tir

A resposta popular foi imediata. Dezenas de milhares de manifestantes foram às ruas de Teerã em apoio ao primeiro-ministro derrubado. Militantes da Frente Nacional gritavam a palavra de ordem “dê-me a morte ou dê-me Mossadeq”. A mobilização contou também com militantes do partido comunista Tudeh e com xiitas nacionalistas dirigidos pelo aiatolá Kashani. As principais forças políticas iranianas não alinhadas ao imperialismo estavam representadas no protesto.

A polícia reprimiu o ato com extrema violência e abriu fogo contra os manifestantes. O resultado foi de 67 mortos. O breve mandato de Saltaneh durou apenas seis dias. O primeiro-ministro renunciou e o Xá foi obrigado a nomear Mossadeq novamente para o cargo.

A mobilização popular havia derrotado a primeira tentativa formal de remover o líder nacionalista. O episódio ficou conhecido na história iraniana como a revolta de 30 de Tir, em referência à data no calendário persa.

A opção pelo golpe

O fracasso da remoção de Mossadeq por vias políticas levou o governo britânico a uma conclusão definitiva: o primeiro-ministro só seria removido pela força. Para isso, os britânicos precisavam do apoio dos norte-americanos. O governo de Harry Truman, então no fim de seu mandato, ainda não estava convencido de que um golpe de Estado melhoraria a situação do ponto de vista da influência soviética no Irã.

A análise estratégica que convenceu os EUA aparece nos documentos internos da CIA, posteriormente liberados. “Se os britânicos tivessem enviado os paraquedistas e os navios de guerra, como fariam alguns anos depois contra os egípcios em Suez, era quase certo que a União Soviética ocuparia a parte norte do Irã invocando o Tratado de Amizade Soviético-Iraniano de 1921. Também era bastante provável que o exército soviético se deslocasse para o sul para expulsar as forças britânicas em nome de seus ‘aliados’ iranianos. Assim, não apenas o petróleo do Irã teria sido irremediavelmente perdido para o Ocidente, mas a cadeia de defesa em torno da União Soviética, que fazia parte da política externa dos EUA, teria sido rompida”.

A adesão dos EUA

A formulação revela o cálculo que levou os EUA a aderir ao golpe. Uma intervenção militar britânica direta provocaria uma resposta soviética, com base no Tratado de Amizade Russo-Persa de 1921. Uma guerra no Irã podia se transformar em um conflito mundial. Era necessário, portanto, substituir Mossadeq sem provocar uma reação aberta da União Soviética. Esse era o tipo de operação que a CIA vinha desenvolvendo com a operação TP-BEDAMN.

Churchill propôs oficialmente o golpe em dezembro de 1952. Antes disso, já havia se encontrado com o presidente eleito Dwight D. Eisenhower e com o futuro secretário de Estado, John Foster Dulles, irmão do vice-diretor da CIA, Allen Dulles. A pressão diplomática britânica e a chegada de um novo governo republicano nos EUA abriram o caminho para a aprovação final da operação.

Mossadeq ainda tentou obter apoio do recém-empossado Eisenhower, pedindo ajuda para romper o embargo britânico sobre o petróleo iraniano. O presidente norte-americano afirmou que proveria auxílio econômico caso houvesse um acordo com a Anglo-Iranian Oil Company. Nos bastidores, no entanto, a operação já estava em andamento. O golpe seria executado em agosto de 1953.

O curso A história do Irã e da República Islâmica será ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO e pré-candidato à Presidência. As inscrições podem ser feitas pelo sítio unimarxista.org.br ou pelo telefone (11) 99741-0436.

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