Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Coluna

Nem de esquerda nem de direita, muito pelo contrário

Requentando discurso de 20 anos atrás, Lula continua desmerecendo a (verdadeira) esquerda brasileira

Lula, em confraternização com o pessoal do G7, disse que nunca foi “de esquerda” – e reforçou a afirmação com uma adaptação livre de uma frase atribuída a Winston Churchill e repetida à exaustão (“Quem não é de esquerda aos 20 anos não tem coração; quem não é de direita aos 40 não tem cérebro”). Na versão de Lula, “Se você conhecer uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque está com problema. Se você conhecer uma pessoa muito nova de direita, é porque também está com problema”. E concluiu o raciocínio dizendo, mais ou menos, que a maturidade ensina a trilhar o caminho do meio.

Curiosamente, Lula disse exatamente as mesmas coisas, nos mesmos termos (ipsis litteris),  há 20 anos, após ser reeleito presidente da República, conforme reportagem da Folha de S. Paulo de 11 de dezembro de 2006, que se inicia assim: “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) arrancou, na noite desta segunda-feira, risos e aplausos de uma plateia formada por empresários e intelectuais ao, de certa forma, desmerecer a esquerda brasileira. Segundo ele, trata-se de uma ideologia típica da juventude”.

No intervalo de vinte anos, a única diferença entre as afirmações com que busca granjear a simpatia da burguesia é o “nunca fui de esquerda”, que torna as coisas um pouco piores, estando ele com 80 anos de idade e sendo o expoente do maior partido de esquerda da América Latina. A base que o elegeu três vezes, por certo, pensava que ele fosse, sim, de esquerda. Ainda que se dê um desconto para o jeito Lula de fazer média com o andar de cima, a afirmação não ajuda em nada. Ao que tudo indica, ele quer o apoio da burguesia para vencer as eleições, confiando em que um eleitorado fiel vá continuar votando nele, independentemente de qualquer coisa que ele diga ou faça.

A frase e, sobretudo, as atitudes do presidente fazem parecer que uma agenda oculta de Jair Bolsonaro, finalmente, vicejou: Lula está colaborando para que a esquerda brasileira se transforme no Partido Democrata dos Estados Unidos. Bolsonaro surgiu fazendo ataques gratuitos a negros (disse a uma pateia do clube A Hebraica que o quilombola era preguiçoso e tinha peso medido em arrobas), a homossexuais (disse que preferia que seu filho morresse a que fosse gay) e a mulheres (disse que a própria filha nasceu menina por uma “fraquejada”, disse que a deputada Maria do Rosário, que o chamou de estuprador, era tão feia que não “merecia” ser estuprada etc. etc. etc.). Curiosamente os ataques verbais se dirigiam frequente e especificamente aos grupos defendidos pela política identitária. Enquanto Bolsonaro vociferava de um lado, os identitários cresciam na oposição – e a discussão política passou a girar em torno das questões identitárias, assunto onipresente na imprensa e nas redes sociais nos últimos anos. Enquanto isso, a burguesia administra o que interessa, pouco se importando se o governante de turno é “da esquerda identitária” ou “da direita bolsonarista”. Os grupos se estapeiam, fazendo uma política rebaixada, sem programa, e a burguesia passa a boiada, usando o poder econômico e o STF.

Ora, se vamos chamar identitarismo de “esquerda”, replicando o modelo norte-americano, então Lula é, sim, “de esquerda” – infelizmente, no pior sentido. Sendo assim, quando diz que “nunca foi” de esquerda, deve estar sendo sincero, afinal com grande facilidade ele aderiu ao identitarismo. Vamos lembrar que, ao equacionar as causas das chamadas minorias com base em “identidade”, a política identitária encobre a luta de classes, que é a questão central da esquerda de fato, aquela que Lula hoje repudia – mais ou menos como fez FHC quando se sentou na cadeira presidencial e pediu que esquecessem o que ele havia escrito como sociólogo. Então, afinal, Lula é ou não “de esquerda”? Ele só se tornou um líder por ser de esquerda e capitanear as greves na década de 1980. Não foi o “caminho do meio” que fez dele o que ele é.

Embora Lula ache que os cabelos brancos devem levar o esquerdista para a direita (ou para  o “centro”, que é a direita polida), a impressão que passa a frase requentada vinte anos depois é a de que, aos 80 anos, Lula ficou deslumbrado com suas viagens internacionais ao lado da deslumbradíssima senhora Janja e que só quer aproveitar o que puder na fase final da vida. Certamente o Palácio de Versailles é belíssimo, mas o “estadista” que a turma da esquerda pequeno-burguesa diz que ele é deveria estar mais atento ao que ocorre no mundo e, de preferência, falar menos besteiras.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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