Polêmica

Ala direita do PT cada vez mais à direita

Alberto Cantalice, além de imitar o linguajar da direita, também apoia copiar a política de construir presídios que a extrema direita adora

Cadeia

O artigo A ingerência estrangeira e a demagogia do crime, de Alberto Cantalice, dirigente do PT, publicado no Brasil 247 nesta quarta-feira (23), mostra a política da ala direita petista diante da ofensiva da direita tradicional. Para “vencer a direita”, esse setor do partido procura assumir parte de seu programa, principalmente no terreno da segurança pública e do moralismo anticorrupção.

A política não parte do PT como conjunto, mas da ala direita que hoje controla a orientação geral do partido. O problema é que esse terreno já está ocupado pelos partidos tradicionais da burguesia. Em vez de conquistar apoio na classe média, a tendência é afastar o partido dos trabalhadores, sua base social histórica.

Cantalice diz que “as recentes pesquisas fizeram parte da Faria Lima e o núcleo duro do bolsofascismo entrar em parafuso. A cada dia que passa, aumenta a agonia no front do PL e seus aliados. As ligações perigosas entre Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro transformaram-se em um filme cuja promiscuidade e a desfaçatez fazem corar os adeptos das pornochanchadas da Boca do Lixo paulistana. A interlocução entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro pelo financiamento do Dark Horse tem todos os ingredientes de uma grande lavanderia de capitais, travestida de financiamento cultural”.

Por falar em ligações perigosas e Daniel Vorcaro, Jaques Wagner, líder do PT no Senado, foi para as manchetes. Portanto, ainda é cedo para saber de que lado está a agonia.

Quanto ao filme, o banqueiro repassou cerca de R$62 milhões. No entanto, nesse jogo, o nome de Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, aparece ligado a quantias maiores: R$80,2 milhões, já pagos, e outros R$50 milhões que apareceram recentemente e que empresas ligadas ao banqueiro assumiriam.

Moraes e o Supremo Tribunal Federal (STF), como se sabe, aliaram-se ao governo Lula. Por isso, essas denúncias acabam atingindo também a candidatura petista.

Giro à direita

Adiante, Cantalice escreve que “por outro lado, o filho do presidiário bate às portas de Donald Trump buscando fazer com que ele interfira nas eleições brasileiras”.

Até outro dia, eram os bolsonaristas que chamavam Lula de presidiário, e ainda o chamam. Agora, esse mesmo linguajar começa a ser incorporado pela ala direita petista, o que demonstra sua deterioração política.

O curioso é que aqueles que colocaram Lula na cadeia são os mesmos que colocaram Bolsonaro atrás das grades e atuam para enfraquecer tanto a candidatura do PT quanto a do PL.

Enquanto se fala tanto em soberania e se denuncia que Flávio Bolsonaro se rendeu a Trump, Cantalice escreve que “ao invés de construir uma parceria contra o crime organizado, como propôs o presidente Lula, Trump, que não consegue resolver a penetração do tráfico de drogas em suas fronteiras, quer usar os países da América Latina como subterfúgio”.

Quem vai acreditar que os EUA fazem parcerias? Propor uma “parceria contra o crime organizado” é aderir à política do presidente norte-americano, apenas com uma fórmula mais aceitável. É o tipo de adaptação que caracteriza a ala direita do PT.

Política da direita

Quem vive no Brasil sabe que, a cada eleição, a direita promete investir em segurança pública. Como resposta, o dirigente petista diz que “é claro que a segurança pública será uma das prioridades do governo Lula se vencer novamente as eleições. Prioridade que já está posta desde a entrega para a discussão e aprovação pelo Congresso Nacional do PL Antifacção e da PEC da Segurança Pública”.

Para a classe média, acostumada a votar em determinados políticos em nome da segurança pública, qual seria a razão para trocar os partidos tradicionais pelo PT?

Como a ala direita petista não apresenta propostas reais para melhorar a vida dos trabalhadores, o que os afastaria do crime, Cantalice informa que “a instituição do SUSP, Sistema Único de Segurança Pública, permitirá ao governo federal atuar junto aos estados e municípios no combate a todo tipo de crime. Desde o furto de celular nas vias públicas até o lavador de dinheiro dos bairros nobres”.

É claro que todo mundo sabe que os lavadores de dinheiro dos bairros nobres dificilmente serão presos. Quem costuma ir para a cadeia são os pobres que furtam celulares.

O dirigente petista escreve que “a transformação de 150 unidades prisionais estaduais em presídios de segurança máxima fará com que os cabeças das organizações criminosas do tráfico e da milícia sejam separados dos demais apenados, enfraquecendo a cooptação”.

A proposta é apresentada como novidade, mas segue a mesma política repressiva que fracassou durante décadas. Presídios de segurança máxima e endurecimento penal nunca foram capazes de resolver o problema do crime.

Em vez de defender o corte dos juros altíssimos, o fim do pagamento da dívida pública criminosa e o investimento em moradia, emprego e serviços públicos, Cantalice sustenta que “é preciso ainda encaminhar a construção de novas unidades prisionais para que se possa buscar a ressocialização de pequenos infratores e não reincidentes, nem faccionados. Separando-os da massa carcerária”.

A pergunta é simples: depois de “ressocializados”, esses pequenos infratores encontrarão emprego? A questão principal é por que essas pessoas cometem infrações.

Após passar o texto quase inteiro falando em cadeia, Cantalice se lembra dos trabalhadores. No último parágrafo, afirma que “outra política importante é o financiamento para os trabalhadores em aplicativo e taxistas para a aquisição de carros, motos e bicicletas com juros muito abaixo do mercado, que repara uma injustiça, já que o agronegócio e a indústria têm altos subsídios. Coisa que não se observa no mundo do trabalho”.

A indústria tem altos subsídios? Que indústria? O governo deveria investir na reindustrialização do País. Isso, além de desenvolver a economia, tornaria desnecessária a política de construção de presídios, defendida historicamente pela direita e agora incorporada pela ala direita petista.

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