O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, denunciou fraude nas eleições colombianas após a contagem preliminar do segundo turno presidencial dar pequena vantagem ao candidato da extrema direita Abelardo de la Espriella sobre Iván Cepeda, do Pacto Histórico.
Com 99,99% das mesas informadas, De la Espriella apareceu com 49,66% dos votos, contra 48,70% de Cepeda. A diferença é inferior a 1%, cerca de 247 mil votos. O dado, no entanto, não proclama o presidente. O resultado oficial depende do escrutínio feito pelas comissões eleitorais e pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE).
Petro afirmou que o país vive uma situação política grave e denunciou alterações nos formulários E-14, as atas nas quais os jurados registram os votos de cada mesa. Segundo o presidente, ele pediu formalmente ao registrador e ao procurador a recuperação dos mecanismos digitais de segurança usados para impedir mudanças nos documentos depois de inseridos no sistema.
O pedido, disse Petro, não foi atendido. Para o presidente colombiano, a retirada desses mecanismos permitiu a alteração dos dados eleitorais.
“A falta de transparência é o que incendeia a nação”, afirmou.
O formulário E-14 é a ata de cada mesa de votação. Digitalizado, o documento deve receber uma marca eletrônica de verificação e uma estampa de tempo, que registram sua integridade e o momento em que foi incluído no sistema. Sem isso, a fiscalização sobre mudanças posteriores fica comprometida.
Petro também denunciou mudança de endereços IP de servidores da Registraduría Nacional durante o processo eleitoral. Segundo ele, há indícios de participação de “Israel” na operação.
“Adverti que o sistema dos irmãos Bautista era vulnerável, segundo a sentença do Conselho de Estado de 2018, e que deveria ser substituído por um sistema público”, escreveu Petro na rede X. “Solicitei a tempo uma auditoria especializada do sistema dos irmãos Bautista, e o registrador não permitiu”.
O presidente pediu escrutínio de todas as mesas, nova contagem dos votos e verificação das vulnerabilidades do sistema eleitoral. Ao mesmo tempo, chamou seus apoiadores à calma.
“Hoje não há presidente eleito até que as comissões escrutadoras deem seus resultados. Como disse esta manhã, aceitarei o resultado que digam os juízes, porque assim ordena a lei”, afirmou.
Cepeda apresenta 57 mil reclamações
O candidato do Pacto Histórico, Iván Cepeda, também afirmou que só reconhecerá o resultado após a conclusão do escrutínio oficial. Em entrevista coletiva nesta segunda-feira (22), Cepeda informou que sua campanha formalizou 57.189 reclamações diante dos delegados eleitorais.
A campanha havia anunciado inicialmente a impugnação de 33 mil mesas. Agora, as reclamações deverão ser analisadas nas instâncias departamentais e nacionais. Cepeda afirmou que seus fiscais acompanham a passagem do escrutínio municipal para o departamental e a chegada das maletas diplomáticas com os votos do exterior.
“Estamos apelando ao que a lei nos permite, que é esperar tranquilamente o resultado desse momento no qual, verificadas todas as reclamações e esclarecidas todas as dúvidas, procederemos, como ocorre em uma democracia, a anunciar nosso reconhecimento do resultado”, disse Cepeda.
O dirigente também exigiu que a conferência dos votos do exterior seja feita com os documentos físicos em mãos, não apenas com formulários digitais já carregados no sistema.
“Estamos com nossas equipes participando do escrutínio. Ontem à noite terminou o escrutínio municipal e começa o departamental. Pedimos que a conferência desse escrutínio internacional seja feita materialmente”, afirmou.
A audiência pública de escrutínio nacional deve prosseguir nesta terça-feira (23), em Bogotá, nas instalações da Corferias. A Comissão Escrutadora Nacional continuará a verificação e consolidação dos resultados definitivos.
Extrema direita tenta impor fato consumado
Mesmo sem proclamação oficial, De la Espriella se declarou vencedor em ato realizado em Barranquilla. O candidato afirmou que “o povo colombiano” lhe havia confiado “a honra suprema” de servir como próximo presidente da República.
A declaração ocorre antes da conclusão do escrutínio oficial. Pela legislação colombiana, a proclamação do resultado cabe ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e às comissões escrutadoras.
De la Espriella é identificado como candidato da extrema direita e declarou admiração por Donald Trump, Javier Milei e Naib Bukele. Durante a campanha, afirmou que governaria com “mão de ferro” contra o “comunismo” e defendeu medidas repressivas contra a esquerda.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, telefonou para De la Espriella e o felicitou. Javier Milei também comentou o resultado preliminar.
Ameaças contra Petro e Cepeda
Em seu discurso em Barranquilla, De la Espriella ameaçou Petro e Cepeda. Disse que ambos deveriam “arrumar as malas” para deixar o país. Também afirmou que “o tigre morde duro” e que poderia “morder ainda mais forte”.
Cepeda respondeu:
“O senhor De la Espriella pediu ao presidente Petro e a mim que arrumássemos as malas. Daqui nós não vamos sair. Depois disse que o tigre morde forte e que pode morder ainda mais forte. A nós isso não assusta.”
O candidato do Pacto Histórico afirmou que a esquerda representa politicamente metade do país e que não aceitará intimidações.
“Que não venha nos ameaçar. Nós somos um movimento político muito numeroso. Temos uma longa história de resistência e estamos muito calejados. Derrotamos muitos governos autoritários, muitos políticos violentos. Portanto, não, que não venha nos ameaçar. Não nos assustam seus rugidos nem seus gritos”, afirmou Cepeda.
Manifestações nas ruas
Após a autoproclamação de De la Espriella, milhares de pessoas foram às ruas em Bogotá, Cali e outras cidades contra a tentativa da ultradireita de impor sua vitória antes do resultado oficial. Houve bloqueios de ruas, queima de pneus e confrontos com a polícia.
Em Bogotá, manifestantes se concentraram nas proximidades da Universidade Nacional, um dos principais centros da educação pública colombiana. Em algumas manifestações, foram queimadas bandeiras dos EUA, país que apoiou abertamente a campanha da direita.
Petro pediu tranquilidade aos manifestantes, especialmente em Cali, onde foram registrados distúrbios.
“Peço à população de Cali que guarde a calma. Este é o momento da sabedoria”, escreveu o presidente.
Cepeda também chamou seus apoiadores à serenidade.
“Quero fazer um chamado muito cordial à serenidade, à calma. Se houver expressões públicas a favor ou contra tal ou qual circunstância, que sejam feitas estritamente nos marcos da tranquilidade, da mobilização pacífica, se é que se apresentam esse tipo de mobilizações, às quais, quero ser claro, não estamos chamando”, disse.
O resultado oficial dependerá do escrutínio das mesas, da análise das 57.189 reclamações apresentadas pela campanha de Cepeda e da decisão das autoridades eleitorais colombianas.





