Universidade Marxista

A batalha na ONU contra a nacionalização iraniana

Mossadeq levou à ONU os números da pilhagem britânica sobre o petróleo iraniano e derrotou a tentativa do Reino Unido de condenar a nacionalização

A resposta britânica à nacionalização do petróleo iraniano, em 1951, começou logo após a decisão do Majlis. A Anglo-Iranian Oil Company enviou negociadores ao Irã, mas não conseguiu fazer o governo de Mohamed Mossadeq recuar. Em seguida, o Reino Unido retirou seus funcionários da refinaria de Abadã, então a maior do mundo, impôs sanções econômicas contra produtos destinados ao Irã, levou o caso à Corte Internacional de Justiça, em Haia, e depois ao Conselho de Segurança da ONU.

Mossadeq viajou pessoalmente a Nova Iorque para defender a nacionalização diante das potências imperialistas. Ali, enfrentou o embaixador britânico na ONU, Sir Gladwyn Jebb, e expôs a divisão real dos lucros do petróleo iraniano: a empresa inglesa ficava com a maior parte, o governo britânico arrecadava mais que o próprio Irã e o povo iraniano permanecia submetido a uma exploração colonial.

A Universidade Marxista realizará, entre os dias 27 de junho e 5 de julho, o curso A história do Irã e da República Islâmica, parte da Universidade de Férias de Inverno da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR). A ofensiva britânica contra a nacionalização do petróleo iraniano e a disputa diplomática que se seguiu serão expostas em aula por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República.

A retirada de Abadã

O primeiro movimento do Reino Unido foi retirar os funcionários ingleses da refinaria de Abadã. Esses técnicos viviam em instalações privilegiadas, enquanto os trabalhadores iranianos moravam nas imediações da refinaria em condições muito inferiores.

A medida tinha dois objetivos. O primeiro era reduzir a capacidade de operação da indústria petrolífera iraniana e, com isso, pressionar economicamente o governo Mossadeq. O segundo era sustentar a propaganda de que o Irã não tinha condições de dirigir sozinho a sua principal indústria.

Tratava-se de uma chantagem colonial. A empresa explorava o petróleo iraniano havia décadas e, quando o país decidiu assumir o controle de suas próprias riquezas, o Reino Unido tentou paralisar a produção para provar que a nacionalização era inviável.

As sanções econômicas

Depois da retirada dos técnicos, vieram as sanções. O Reino Unido impôs restrições contra produtos destinados ao Irã e passou a pressionar compradores internacionais para que não adquirissem petróleo iraniano.

Naquele período, o império colonial britânico ainda tinha grande extensão, e os produtos ligados ao Reino Unido circulavam em boa parte do comércio mundial. As sanções buscavam cortar as receitas do governo nacionalista e obrigá-lo a devolver à Anglo-Iranian Oil Company o controle sobre o petróleo.

A própria empresa inglesa participou diretamente da operação. “Colocamos anúncios na maioria dos jornais do mundo dizendo que quem comprava petróleo persa comprava uma ação judicial”, afirmou Joe Addison, advogado da Anglo-Iranian, no documentário End of Empire, exibido pela televisão britânica em 1985.

A ameaça era clara. Quem comprasse petróleo iraniano seria arrastado para uma disputa judicial internacional. O governo britânico e a Anglo-Iranian queriam impedir que a nacionalização tivesse qualquer viabilidade econômica.

A derrota em Haia

Ao mesmo tempo, o Reino Unido levou o caso à Corte Internacional de Justiça, em Haia. O argumento britânico era que a nacionalização violava a concessão original assinada em 1901. A manobra buscava dar cobertura jurídica ao bloqueio econômico e preparar o terreno para novas medidas contra o Irã.

A tentativa fracassou. A Corte Internacional de Justiça declarou que não tinha competência para julgar o caso. Para o tribunal, a disputa era entre o governo iraniano e uma empresa privada, e não entre dois Estados.

Foi uma derrota importante para o imperialismo britânico. Sem uma decisão favorável em Haia, o Reino Unido transferiu a pressão para o Conselho de Segurança da ONU.

O Conselho de Segurança

No Conselho de Segurança, o Reino Unido esperava obter uma condenação contra o Irã. O órgão era o local em que as grandes potências podiam usar seu peso político contra os países atrasados que buscavam controlar suas próprias riquezas.

Mossadeq decidiu comparecer pessoalmente. A viagem do primeiro-ministro iraniano a Nova Iorque transformou a disputa em um confronto político aberto entre um país oprimido e uma das maiores potências imperialistas do mundo.

Sir Gladwyn Jebb, embaixador do Reino Unido na ONU, abriu a discussão tentando apresentar o governo britânico como vítima de uma quebra unilateral de contrato.

“Por meio de suas ações, o governo de Sua Majestade [George VI] demonstrou que, apesar do grande dano infligido não apenas a ele, mas ao mundo livre como um todo pelas ações do governo iraniano, não deseja fazer nada que possa ser descrito como contrário aos seus deveres como um membro bom e leal das Nações Unidas. Não é preciso dizer que ele está muito ansioso para que as negociações sejam retomadas, mas acha que, se forem retomadas, devem ser à luz de algum pronunciamento do Conselho de Segurança que indique, em termos gerais, em primeiro lugar, que esse assunto não é de interesse exclusivo do governo iraniano, e, em segundo lugar, que ele deve ser resolvido, não por meio de ultimatos, mas por meio de negociações livres e de acordo com os princípios aceitos do direito internacional”, disse Jebb.

O discurso britânico procurava inverter os fatos. O Reino Unido, que havia explorado o petróleo iraniano por meio de uma concessão colonial, aparecia como defensor do direito internacional. O Irã, que havia nacionalizado seu petróleo por decisão unânime do parlamento, era apresentado como ameaça ao chamado “mundo livre”.

Os números do saque

Mossadeq respondeu com os dados da própria Anglo-Iranian. O primeiro-ministro iraniano mostrou que a empresa inglesa lucrava muito mais que o país dono do petróleo.

“Embora o Irã produza uma proporção considerável do suprimento mundial de petróleo e tenha produzido um total de 315 milhões de toneladas, todo o seu lucro (de acordo com as contas da antiga empresa) foi de 110 milhões de libras esterlinas. Para dar uma ideia dos lucros do Irã com esse enorme setor, posso dizer que, em 1948, de acordo com as contas da antiga Anglo-Iranian [Oil] Company, a receita líquida da empresa foi de 61 milhões de libras esterlinas, mas o Irã recebeu, desses lucros, apenas nove milhões de libras, enquanto 28 milhões de libras entraram no tesouro do Reino Unido apenas como imposto sobre lucros”, declarou Mossadeq.

Os dados mostravam a natureza da concessão. Em 1948, a Anglo-Iranian teve 61 milhões de libras esterlinas de lucro líquido com o petróleo iraniano. O Irã recebeu nove milhões. O governo britânico arrecadou 28 milhões apenas em impostos sobre os lucros da empresa.

Ou seja, o Estado britânico recebeu mais que o triplo do que recebeu o Irã. O Reino Unido não possuía as reservas, não tinha o direito soberano sobre o petróleo e, mesmo assim, retirava da riqueza iraniana mais dinheiro que o próprio país explorado.

A falsa negociação britânica

Jebb falou em “negociações livres”. Mossadeq respondeu que o Irã venderia petróleo pelo preço internacional e que estava disposto a contratar técnicos britânicos para ajudar na operação da indústria. O governo iraniano não propunha expulsar trabalhadores ingleses nem interromper artificialmente o fornecimento mundial.

O problema era outro. Para o Reino Unido, negociar significava fazer o Irã recuar da nacionalização. Os britânicos não aceitavam uma divisão mais justa dos lucros. Queriam retomar o controle da Anglo-Iranian sobre o petróleo iraniano.

Mossadeq deixou claro que a nacionalização não seria anulada. O petróleo era uma riqueza iraniana e a decisão havia sido tomada por um parlamento soberano.

A derrota britânica na ONU

O Reino Unido também não conseguiu a condenação que buscava no Conselho de Segurança. Depois da derrota em Haia, a nova derrota na ONU mostrou que as vias jurídicas e diplomáticas não bastavam para recuperar o controle sobre o petróleo iraniano.

Mossadeq voltou a Teerã tendo enfrentado diretamente o representante britânico e tornado públicos os números do saque colonial. Para o imperialismo britânico, a situação era inaceitável. O governo iraniano não recuava diante das sanções, não devolvia a Anglo-Iranian ao comando da indústria e havia derrotado o Reino Unido nos principais organismos internacionais.

A partir daí, a política britânica caminhou para outra saída: derrubar Mossadeq pela força. O golpe de 1953 começou a ser preparado sobre essa derrota política do Reino Unido.

O curso A história do Irã e da República Islâmica será ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO. As inscrições podem ser feitas pelo sítio unimarxista.org.br ou pelo telefone (11) 99741-0436.

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