Pré-candidato a presidente

Rui Costa Pimenta: Jesus era comunista

Presidente do PCO afirmou que cristianismo primitivo pregava igualdade social e que direita evangélica tenta conciliar religião e capitalismo

Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), afirmou que Jesus era comunista ao comentar sua participação no programa de direita IronTalks, transmitido em 12 de junho. A declaração foi feita durante a Análise Política da Semana de 20 de junho, ao discutir cristianismo, religião e a influência das igrejas evangélicas no campo político da direita.

Segundo Pimenta, esse é um debate que a esquerda precisa enfrentar de outra maneira. Para ele, a política adotada por setores da esquerda contra a religião é completamente errada, pois ataca as convicções religiosas de maneira grosseira e não convence ninguém.

“A esquerda se profissionalizou em atacar da maneira mais baixa possível as convicções religiosas do pessoal: seriam todos corruptos, picaretas, não é uma religião, esse tipo de coisa. O que eu acho que, no que diz respeito a convencer alguém de alguma coisa, é totalmente nulo. É um esforço jogado fora”, afirmou.

No programa de direita, Pimenta disse ao entrevistador que Jesus era comunista. A afirmação causou surpresa no apresentador e no público do programa. “Ele ficou muito surpreendido com a colocação. Debatemos um pouco. Ele tentou explicar que não, mas não conseguiu”, disse o dirigente do PCO.

Pimenta explicou que é muito difícil apresentar Jesus, tal como aparece na Bíblia, como defensor do capitalismo. “Difícil também você apresentar uma figura como Jesus, que aparece na Bíblia como sendo um defensor do capitalismo. Muito difícil. Ele fez um esforço meritório para defender essa tese, mas não conseguiu”, afirmou.

Comunismo é antigo

O presidente do PCO explicou que a surpresa do público de direita diante da afirmação tem origem em uma incompreensão sobre o que é o comunismo. Segundo ele, o comunismo não começa com Marx, mas é uma das ideias políticas mais antigas da história da humanidade.

“Na realidade, uma coisa que muita gente não entende — isso ficava claro nos comentários — é que o comunismo é a doutrina política mais antiga que existe no mundo. Eles não se deram conta disso. O comunismo é, com toda certeza, a primeira doutrina política que apareceu no mundo. A ideia de que os homens devem ser iguais do ponto de vista social, que não deve haver ricos e pobres, não deve haver privilegiados”, disse.

Pimenta explicou que, antes da sociedade de classes, a organização humana era comunista. Os pequenos grupos humanos viviam em condições muito precárias de produção. Em muitos casos, eram nômades e dependiam diretamente do esforço coletivo para sobreviver.

Nessas condições, segundo ele, não era possível formar uma camada privilegiada. A sobrevivência da tribo dependia da união e da divisão igualitária dos recursos disponíveis. O dirigente citou como exemplo os índios do Brasil, que se deslocavam quando os recursos de uma região se esgotavam.

“Não é possível o aparecimento de privilegiados. É necessário um esforço comum para a sobrevivência de todos. A tribo tem que ser muito unida e muito igualitária para poder sobreviver, senão não consegue sobreviver”, afirmou.

A origem da desigualdade

Pimenta explicou que a desigualdade social só se tornou possível quando a humanidade passou por uma grande transformação econômica: o desenvolvimento da agricultura regular e da criação de animais domésticos. Esse processo permitiu o surgimento de excedentes, isto é, uma produção acima do necessário para a sobrevivência imediata.

“É preciso que haja um produto que vá além da sobrevivência para que possa haver privilégio, senão o privilégio é impossível”, disse.

Com o aparecimento do excedente, surgiu também a diferenciação social. Uma parte da sociedade passou a se apropriar de uma parcela maior do produto coletivo. Foi assim que nasceu a sociedade de classes.

No entanto, segundo Pimenta, a lembrança de uma organização social igualitária permaneceu na consciência humana. Por isso, em sociedades já marcadas pela desigualdade, aparecem doutrinas religiosas e políticas que defendem a igualdade social.

“Aquela sociedade anterior fica como uma espécie de época dourada da sociedade humana. Por isso que vai aparecer, em sociedades que já não são igualitárias, a doutrina do comunismo — que no primeiro momento não tem esse nome, mas é isso: a igualdade social. A doutrina vem de uma realidade que o ser humano viveu”, afirmou.

Cristianismo primitivo

Pimenta destacou que a defesa da igualdade aparece também na Bíblia. Segundo ele, no Velho Testamento já se colocava o problema da igualdade social. A desigualdade, naquele período, era uma realidade ainda recente e não podia ser bem recebida pela maioria da população, pois favorecia uma minoria.

O dirigente explicou que diversas religiões apresentaram a igualdade social como uma meta. Isso ocorreu no cristianismo, no islamismo e em outros movimentos religiosos. O cristianismo primitivo, segundo Pimenta, foi um desses movimentos.

“Na Bíblia dos judeus, no Velho Testamento, aparece o problema da igualdade social. Quando a Bíblia foi escrita, já não havia igualdade social, mas as pessoas ainda falam desse problema. Era uma sociedade ainda meio nova do ponto de vista da desigualdade. A desigualdade era uma novidade, e logicamente não era uma novidade muito bem vista pela maioria dos cidadãos, porque beneficiava uma minoria”, afirmou.

Pimenta respondeu também à objeção de que o comunismo defendido por grupos religiosos antigos não seria igual ao comunismo moderno. Para ele, a diferença está no grau de desenvolvimento da doutrina, não em seu princípio fundamental.

“Aí a pessoa fala: ‘mas o comunismo que eles pregavam naquela época não é o comunismo que vocês pregam hoje’. Tudo bem. O nosso é mais sofisticado, mais complexo, ideologicamente mais desenvolvido, mas a doutrina é a mesma: os seres humanos têm que ser socialmente iguais, tem que haver um regime de igualdade. Por isso que se chama comunismo”, disse.

Franciscanos

Pimenta lembrou ainda que, dentro da própria Igreja Católica, vários movimentos defenderam formas de igualdade social. Ele citou os franciscanos, que pregavam o afastamento das riquezas, a vida humilde e a ajuda aos pobres.

Segundo o presidente do PCO, esse tipo de comunismo religioso é diferente do comunismo moderno. O comunismo moderno não é uma doutrina de renúncia ao mundo material, mas de transformação da sociedade para acabar com a desigualdade.

“Na Igreja Católica, por exemplo, temos o movimento dos franciscanos, que pregava o afastamento dos religiosos do mundo material, das riquezas, que se colocava o problema de ajudar o pobre, viver de maneira humilde. O comunismo moderno não é um comunismo de renúncia ao mundo material — pelo contrário, é um comunismo de transformação do mundo material do ponto de vista da igualdade social”, afirmou.

Capitalismo e religião

Para Pimenta, esse debate é decisivo diante da influência dos evangélicos na direita brasileira. O dirigente afirmou que os evangélicos atuais defendem o capitalismo, um regime baseado em enorme desigualdade social.

“Esse argumento é muito importante no debate com os evangélicos, porque os evangélicos atuais defendem todos o capitalismo, que é um regime de brutal desigualdade social. Evidentemente, se Jesus visse o capitalismo, jamais iria aprovar o capitalismo como sistema social. ‘Aprovado por Deus’? Seria uma abominação”, afirmou.

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