Guerra no Oriente Próximo

Líbano: imprensa fala em trégua, mas ‘Israel’ continua massacres

Mesmo após o anúncio de um cessar-fogo mediado pelos EUA, Catar e Irã, ataques israelenses atingiram Nabatieh e outras regiões do sul libanês

A imprensa internacional passou a falar, nesta sexta-feira (19), em um cessar-fogo entre “Israel” e o Hesbolá, mas os bombardeios israelenses contra o Líbano continuaram no momento em que a trégua deveria entrar em vigor. Segundo a Reuters, um alto funcionário norte-americano afirmou que as duas partes aceitaram interromper as hostilidades a partir das 16 horas, horário local, após negociações mediadas pelos Estados Unidos e pelo Catar, com apoio do Irã.

“Entendemos que, depois da troca de fogo mais cedo, ‘Israel’ e Hesbolá estão agora em um cessar-fogo”, disse o funcionário à agência, sob anonimato. A versão foi repetida por outros órgãos da imprensa burguesa.

No terreno, no entanto, a situação foi outra. Correspondentes da Al Mayadeen no sul do Líbano informaram que a aviação israelense atacou Nabatié justamente quando o cessar-fogo passava a valer. Segundo a imprensa libanesa, ao menos 11 cidades e vilarejos foram atingidos por ataques aéreos israelenses depois das 16 horas.

Um funcionário israelense ouvido pelo Canal 13 afirmou que “Israel” estava “em estado de cessar-fogo”, mas acrescentou que as forças israelenses permanecem no sul do Líbano e que o regime manteria “liberdade de operação” contra supostas ameaças.

Bombardeio após derrota militar

A nova onda de ataques ocorreu depois de uma operação do Hesbolá contra tropas israelenses em Kfar Tebnit, no sul do Líbano, muito antes do cessar-fogo. A resistência libanesa atingiu um tanque Merkava, eliminando quatro militares israelenses, entre eles o tenente-coronel Dor Gedalia Ben Simhon, comandante do 52º Batalhão da 401ª Brigada Blindada.

O exército israelense confirmou a morte dos quatro ocupantes do tanque. Outros cinco militares ficaram feridos em uma segunda ação da resistência. O jornal israelense Maariv classificou o episódio como um desastre para as tropas que ocupam o sul libanês.

O Hesbolá afirmou que, após a primeira emboscada, uma segunda força israelense tentou avançar para retirar mortos e feridos, sob cobertura de fogo pesado. Segundo a resistência, essa força também foi atacada com foguetes e morteiros.

Foi após esse revés que “Israel” ampliou os bombardeios contra o Líbano. A aviação israelense atacou Harouf, al-Sharqieh, Jibchit, Kfar Joz, Nabatié, Kfar Sir, Toul, al-Jabbour, Jbaa, Habboush, Doueir, Deir al-Zahrani, Blat, Jabal al-Rafi, Sojod e Kfar Hounah. Também ocorreram ataques contra regiões do Vale do Becá, Balbeque e áreas próximas ao rio Litani.

Drones israelenses atingiram ainda uma motocicleta na estrada de Deir al-Zahrani e a região de Tal al-Abyad, na entrada norte de Balbeque. A artilharia atacou os arredores de Nabatieh, Zibdine, Bani Hayyan, Srifa, Qlaileh, Majdal Zoun e Jibchit.

O Centro de Operações de Emergência do Ministério da Saúde do Líbano informou que equipes de resgate ficaram impedidas de chegar às vítimas durante horas por causa da continuidade dos ataques. O saldo inicial divulgado pela manhã apontava ao menos 18 mortos e 33 feridos, mas levantamentos posteriores indicaram números mais altos.

Segundo os dados divulgados pela imprensa libanesa, ao menos 47 pessoas foram mortas desde a noite de quinta-feira (18), e quase 100 ficaram feridas. Desde 2 de março, os ataques israelenses contra o Líbano mataram 3.980 pessoas e feriram 12.011, segundo o Ministério da Saúde libanês.

O ataque mais grave desta sexta-feira atingiu Harouf, onde sete pessoas foram assassinadas e 10 ficaram feridas, entre elas três crianças pequenas e duas jovens. Em al-Sharqieh, três pessoas foram mortas, incluindo duas mulheres e uma criança. Em Doueir, três pessoas morreram após o bombardeio contra um prédio residencial no bairro da Escola de Educação.

Também foram registradas mortes em al-Abbasiyah, al-Qatrani, Jibchit e na estrada de Deir al-Zahrani. A Defesa Civil libanesa confirmou que um de seus socorristas, ligado ao centro de Doueir, foi morto junto com sua família no ataque contra al-Sharqieh.

Irã denuncia violação do acordo

O Ministério das Relações Exteriores do Irã condenou os novos ataques israelenses e responsabilizou diretamente os Estados Unidos pela situação. O porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baghaei, afirmou que o primeiro ponto do memorando de entendimento assinado entre Irã e Estados Unidos estabelece que o fim das agressões israelenses contra o Líbano é parte inseparável do acordo.

“A República Islâmica do Irã tomará todas as medidas necessárias para salvaguardar seus interesses, sua segurança e seus direitos, bem como os de seus aliados”, disse Baghaei.

A violação israelense também levou ao adiamento das negociações técnicas entre Irã e Estados Unidos, que estavam marcadas para esta sexta-feira, em Genebra, na Suíça. O governo iraniano já tinha advertido que novas agressões israelenses contra o Líbano receberiam resposta dura.

O primeiro-ministro Benjamin Netaniahu declarou que “Israel” não toleraria ataques contra seus soldados e que cobraria um “preço muito alto” do Hesbolá. O ministro da Guerra, Israel Katz, foi ainda mais explícito. Em entrevista à televisão israelense, vangloriou-se da destruição de vilarejos libaneses:

“Nós arrasamos toda a primeira linha de vilarejos no sul do Líbano, todas as casas foram destruídas. Os moradores nunca mais as verão de pé”, disse Katz.

Hesbolá: ocupação será derrotada

Em discurso no Conselho Central da Ashura, em Beirute, o secretário-geral do Hesbolá, Naim Qassem, afirmou que “Israel” fracassou em derrotar a resistência libanesa e será expulso do território do Líbano.

“O inimigo não derrotou nossas convicções, nossa firmeza, nossa perseverança ou nossa presença contínua no campo, e nós suportamos todas as dificuldades e sanções”, disse Qassem.

O dirigente do Hesbolá afirmou ainda que a resistência permanecerá armada diante da ocupação israelense. “Quando o inimigo nos enfrenta com armas, nós o enfrentamos com armas”, declarou.

Segundo Qassem, a tentativa de eliminar a resistência fracassou. Ele afirmou que o Líbano atravessa uma fase muito perigosa, pois o objetivo de “Israel” é destruir a resistência, expulsar sua população e impedir a reconstrução das regiões atacadas.

“Mesmo perdas enormes são preferíveis à rendição e à derrota”, afirmou o secretário-geral.

Crise em ‘Israel’

Os ataques israelenses no momento em que a trégua era anunciada expressam a crise interna do regime sionista. Há uma disputa aberta dentro de “Israel” entre um setor que atua de maneira desesperada, disposto a prolongar a guerra contra o Irã, o Líbano e o conjunto da resistência, e outro setor que considera necessário recuar para reorganizar o regime político e as forças armadas.

A tendência dominante é a de recuo, pois a situação concreta mostra a inferioridade de “Israel” diante do Irã e a posição do imperialismo norte-americano de encerrar a guerra neste momento. Os ataques contra o Líbano, portanto, aparecem como uma tentativa de “Israel” apresentar-se como se ainda controlasse a situação.

Ao bombardear o Líbano no momento do cessar-fogo, o regime sionista tenta passar a mensagem de que pode romper qualquer acordo quando quiser. Quer afirmar que a trégua decorre de sua vontade e não de uma derrota política e militar. Essa manobra, no entanto, já não convence.

A diferença em relação ao período anterior é que “Israel” já não consegue agir com a mesma impunidade. Novas violações contra o Líbano podem provocar novas respostas do Irã e da resistência. Cada ataque bem-sucedido contra “Israel” produz prejuízo militar, econômico e político, reduzindo ainda mais a autoridade do governo de Netaniahu diante da própria população israelense.

Quanto mais a guerra se prolonga, mais aumenta o desgaste interno de “Israel”. A população israelense vê que a guerra não trouxe segurança, não eliminou o Hesbolá e não derrotou o Irã. Ao contrário, a ocupação do sul do Líbano segue custando caro ao regime, enquanto a resistência demonstra capacidade de atingir as tropas israelenses e impor derrotas no campo de batalha.

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