O Ministério das Relações Exteriores do Irã confirmou nesta sexta-feira (19) o adiamento da reunião que estava marcada para ocorrer com os Estados Unidos na Suíça. O encontro, previsto para o complexo turístico de Bürgenstock, tinha como um de seus objetivos a assinatura formal do memorando de entendimento de Islamabade, acordo que encerra a guerra de agressão dos EUA e de “Israel” contra a República Islâmica e estabelece um período de 60 dias para novas negociações.
Segundo o porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baghaei, a reunião deixou de ter caráter urgente porque o memorando já foi assinado digitalmente na madrugada de quinta-feira (18). O documento, composto de 14 artigos, entrou em vigor no momento da assinatura.
“Uma das principais finalidades da reunião da Suíça nesta sexta-feira era a assinatura do texto do memorando sobre o fim da guerra imposta”, afirmou Baghaei. “Como a assinatura do memorando de entendimento foi realizada digitalmente nas primeiras horas de 18 de junho, a realização da reunião na Suíça não é urgente”.
O porta-voz afirmou, no entanto, que o governo iraniano trabalha para realizar uma nova reunião “nos próximos dias”. Ele acrescentou que consultas estão em andamento por meio de intermediários para preparar a próxima etapa das conversações.
“Consultas necessárias estão sendo conduzidas por mediadores para esse fim. Se as condições exigidas para o início das negociações forem cumpridas, será feito um anúncio”, disse.
Ataques no Líbano
A suspensão da viagem da delegação iraniana também ocorreu após novos ataques de “Israel” contra o sul e o leste do Líbano. Segundo uma fonte informada citada pela Al Mayadeen, a delegação iraniana já estava a caminho da Suíça quando decidiu interromper a viagem em razão da continuidade das agressões israelenses.
O memorando prevê o fim imediato das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano. Apesar disso, “Israel”, excluído das negociações entre Irã e Estados Unidos, continuou atacando áreas residenciais libanesas.
Na sexta-feira (19), ataques israelenses atingiram diversas regiões do sul e do leste do Líbano, assassinando mais de 30 pessoas, entre elas mulheres e crianças. As forças do Hesbolá responderam aos ataques contra tropas israelenses invasoras no sul do país, matando quatro soldados e ferindo mais de uma dezena.
A continuação das agressões expôs a fragilidade do acordo diante da ação de “Israel”, que procura sabotar qualquer acerto que imponha limites à ofensiva imperialista no Oriente Próximo.
Irã condiciona negociações ao cumprimento do memorando
Baghaei afirmou que o início das negociações para um acordo final depende da aplicação efetiva de artigos específicos do memorando. Segundo ele, o texto estabelece que as conversações finais só podem começar após a implementação dos artigos 1, 4, 5, 10 e 11, além da continuidade dessas medidas.
O acordo assinado entre Irã e Estados Unidos prevê o fim permanente das hostilidades em todas as frentes, a retirada progressiva de sanções norte-americanas, o fim do bloqueio naval contra o Irã em até 30 dias e a normalização do tráfego comercial pelo Estreito de Ormuz.
O documento também inclui um plano de reconstrução e desenvolvimento econômico para o Irã no valor mínimo de US$300 bilhões, autorizações para exportações de petróleo, liberação de ativos iranianos congelados e a reafirmação de que a República Islâmica não buscará armas nucleares, enquanto prosseguem as negociações sobre o estoque de urânio enriquecido.
Estreito de Ormuz segue aberto
O porta-voz iraniano também negou notícias de que o Estreito de Ormuz tenha sido fechado. Baghaei afirmou que a passagem segue aberta ao transporte comercial e que as Forças Armadas da República Islâmica adotaram as medidas necessárias para garantir o trânsito seguro dos navios mercantes.
A Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico anunciou um novo sistema obrigatório de autorização pela internet para embarcações que pretendem atravessar a região. O procedimento entra em vigor imediatamente e prevê que os operadores enviem seus pedidos exclusivamente pelo sítio PGSA.ir ou por endereço eletrônico indicado pelo órgão.
As embarcações devem apresentar o pedido com 48 horas de antecedência. Durante os primeiros 60 dias, as tarifas relativas a segurança, proteção ambiental e seguros iranianos não serão cobradas dos proprietários dos navios. Esses custos serão assumidos pelo governo da República Islâmica.
O órgão iraniano informou que a coordenação prévia da rota e do horário de passagem é obrigatória, em razão da presença de áreas afetadas por minas e da necessidade de evitar colisões na entrada e na saída do Estreito.
Questão nuclear
Baghaei também negou que o Irã tenha convidado a Agência Internacional de Energia Atômica para inspecionar novas instalações nucleares. Segundo ele, o assunto será tratado dentro do prazo de 60 dias previsto no artigo 8 do memorando, condicionado ao cumprimento das etapas preliminares definidas no artigo 13.
Até lá, a situação atual do programa nuclear iraniano será mantida. As inspeções seguem apenas nas instalações que já estavam sob monitoramento regular, como a usina nuclear de Bushehr.
O porta-voz acrescentou que as instalações que ficaram inacessíveis à Agência em razão da agressão dos EUA e de “Israel” só serão tratadas conforme o andamento e os resultados das próximas negociações.
Conselho de Segurança alerta os EUA
O Secretariado do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã emitiu mensagem nesta sexta-feira (19) afirmando que existe uma medida recíproca previamente definida caso os Estados Unidos violem o memorando.
A declaração foi publicada dois dias após o presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, e o presidente norte-americano, Donald Trump, assinarem remotamente o acordo. O Líder da Revolução Islâmica, aiatolá Saied Mojtaba Khamenei, saudou os esforços das autoridades iranianas para alcançar o memorando, ao mesmo tempo em que destacou que Trump utilizou diferentes formas de pressão por desespero.
O Conselho afirmou que atuará com “completa desconfiança do inimigo traiçoeiro e violador de acordos” e que acompanha de perto tanto o processo de negociações quanto a implementação do memorando.
“Caso ocorra qualquer violação ou quebra por parte norte-americana, uma medida recíproca será adotada de acordo com o plano predeterminado”, afirmou o Secretariado.
Acordo expressa derrota no campo de batalha
O adiamento das negociações mostra que a correlação de forças permanece favorável ao Irã. Em outro momento, a continuação das provocações israelenses poderia ser interpretada como uma tentativa de forçar a República Islâmica a abandonar o cessar-fogo e, com isso, dar ao imperialismo um pretexto para retomar a guerra em escala maior. No entanto, a situação atual indica o contrário.
A guerra foi extremamente prejudicial ao imperialismo. O acordo de cessar-fogo não surgiu de uma concessão voluntária dos Estados Unidos, mas da situação determinada no campo de batalha. O Irã resistiu aos ataques, manteve sua capacidade militar e obrigou os norte-americanos a aceitar um memorando que prevê o fim das hostilidades, a retirada do bloqueio naval, a normalização do Estreito de Ormuz e uma série de concessões econômicas.
Por isso, a tentativa de “Israel” de prolongar os ataques contra o Líbano coloca os Estados Unidos em uma posição cada vez mais difícil. Quanto mais “Israel” viola os termos do acordo, mais o Irã ganha margem para adiar as negociações ou responder militarmente. Nos dois casos, o resultado é desfavorável ao imperialismo.
Se o Irã adia a próxima etapa das negociações, demonstra que os Estados Unidos não conseguem fazer cumprir o acordo que assinaram. A autoridade norte-americana fica desmoralizada, pois o ritmo do cessar-fogo passa a ser condicionado pela posição iraniana e pelas ações da Resistência. Se, por outro lado, o Irã responde aos ataques israelenses, o imperialismo se vê diante da possibilidade de uma nova etapa da guerra, justamente em um momento em que não tem condições políticas e militares de sustentá-la.
As opções abertas a “Israel” são, portanto, inviáveis. O regime sionista tenta sabotar o memorando, mas sua ação aumenta a crise dos próprios Estados Unidos. “Israel” não tem força para impor uma política contrária aos interesses gerais do imperialismo norte-americano. Caso as provocações sigam colocando em risco o acordo, os próprios Estados Unidos serão obrigados a conter “Israel”, não por compromisso com a paz, mas para evitar uma nova derrota diante do Irã e da Frente de Resistência.





