Pré-candidato à Presidência

Rui Pimenta: esquerda adotou política repressiva da direita

Em entrevista a Leandro Fortes, presidente nacional do PCO criticou campanha contra o “crime organizado”, STF, G7 e ofensiva do imperialismo na América Latina

Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), participou, nessa terça-feira (26 de maio), do programa de Leandro Fortes no Canal do Galo Preto, no YouTube. Na entrevista, Pimenta comentou a situação política nacional e internacional, criticando a política repressiva adotada pela esquerda institucional, a participação de Lula no G7, a ofensiva contra a juventude, a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) e a ofensiva do imperialismo na América Latina.

Logo no início da entrevista, Leandro Fortes perguntou sobre a política de “combate ao crime organizado”, que vem sendo apresentada pelo PT e por setores da esquerda como um dos temas centrais da campanha de Lula. Para Pimenta, a adoção desse discurso representa uma adaptação à política da extrema direita.

“Eu acho que tudo isso é um retrocesso ideológico da esquerda. Veja, tem um problema de filosofia mesmo, de visão de mundo, não é um problema político pontual. Todo mundo na esquerda, herdeira do iluminismo, das conquistas da democracia política do século XVIII e XIX, sempre considerou que o crime não podia mais ser visto como era visto anteriormente, na Idade Média principalmente, como sendo um problema moral. O crime é um problema social, porque nós vivemos numa sociedade que sujeita os seres humanos a condições muito opressivas. Portanto, a solução para o crime é uma solução social. Isso foi abandonado completamente”, afirmou.

Segundo o presidente do PCO, setores da ala direita do PT já preparavam essa orientação há algum tempo. Ao perceber que a extrema direita obtém apoio com uma política de repressão, a esquerda institucional passou a aderir a essa linha, ainda que sob uma apresentação mais “moderna” ou “democrática”.

“Não é política da esquerda fazer do combate ao crime uma prioridade. É um retrocesso ideológico. Primeiro você perde a sua personalidade, a sua identidade, seu perfil ideológico e político. Depois você se perde completamente. Eu vejo com muitos maus olhos essa situação. Acho muito negativo”, disse.

Pimenta afirmou que o resultado prático dessa política é o aumento da repressão contra os pobres. Segundo ele, não se pode esperar que o sistema policial e o Judiciário brasileiros distingam corretamente culpados e inocentes quando se trata da população trabalhadora.

“Quando aumenta a repressão, em nome do combate ao crime, o povo pobre vai pagar. Porque nós precisaríamos ter uma mentalidade muito peculiar para achar que o sistema policial e judiciário vai distinguir entre culpados e inocentes. Já não é assim no Brasil. Tem muita gente que vai para a cadeia sem ter nada a ver com a história. Tem muita gente que morre também sem ter nada a ver com a história. A maior parte da população carcerária no Brasil é de gente pobre. Mais precisamente, são trabalhadores que, por algum motivo, na sua trajetória pessoal, foram parar no crime”, declarou.

O dirigente também relacionou a campanha contra o “crime organizado” à política do imperialismo. Para ele, a classificação de organizações criminosas como terroristas, defendida por Donald Trump, segue o mesmo caminho da guerra às drogas e da guerra ao terror.

“Esse negócio de combate ao crime organizado é uma política do imperialismo. O imperialismo faz dessa questão um centro da sua política porque ela permite impulsionar um intervencionismo nos países atrasados. O governo Lula não pode ser inocente, ele sabe disso. Não é à toa que o Trump caracterizou o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas. É um abuso. Mas por que ele faz isso? É uma forma, assim como a guerra às drogas, a guerra ao terror, todas essas campanhas do imperialismo, elas têm um nítido e fundamental caráter de intervenção política nos outros países”, explicou.

Pesquisas eleitorais

Sobre as pesquisas eleitorais, Pimenta afirmou que os levantamentos devem ser avaliados como instrumentos de luta política. Ele destacou que a burguesia procura abrir espaço para uma chamada “terceira via”, diante das dificuldades enfrentadas pela candidatura de Flávio Bolsonaro.

“Eu sempre acho que nós temos que olhar para as pesquisas com um sentido muito crítico, porque a pesquisa é um instrumento de luta política. O que mais me chama a atenção é que nessas últimas pesquisas perguntaram sobre o problema da chamada terceira via, se a pessoa favoreceria um candidato que não fosse nem Lula nem Bolsonaro. Eu acho que a burguesia está trabalhando essa hipótese”, disse.

Para Pimenta, nomes como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos não demonstram força para deslocar o eleitorado bolsonarista. “Quem tem prestígio é o Bolsonaro”, afirmou.

Venezuela e América Latina

Questionado sobre a Venezuela e operações conjuntas com os Estados Unidos na fronteira com o Brasil, Pimenta avaliou a política como um erro grave, mas disse que não é possível concluir que houve uma mudança de regime no país.

“É muito ruim tudo o que a gente vê. Por exemplo, essa operação conjunta, eu acho uma verdadeira loucura do governo da Venezuela. Agora, a grande questão é: existiu uma mudança de regime na Venezuela? Eu não iria tão longe. Esses governos nacionalistas têm oscilações políticas bastante acentuadas. Eles estão numa política de recuo, não tenho dúvida nenhuma. Agora, se nós estivéssemos vendo uma mudança de regime, isso não poderia acontecer sem uma crise”, afirmou.

Pimenta também comentou a situação da Bolívia, onde trabalhadores, indígenas e mineradores mantêm bloqueios de estradas contra o governo. Para ele, a mobilização boliviana é um exemplo para toda a América Latina.

“A luta do povo boliviano é uma coisa impressionante, espetacular. É um exemplo para toda a América Latina. Eles estão enfrentando, nas ruas, nas estradas, com bloqueios, com os métodos tradicionais de luta das massas, um governo altamente destrutivo para o país, um governo ultra neoliberal, entreguista e muito destrutivo. Estão enfrentando, e até agora nada parece ter arrefecido o ânimo do pessoal”, afirmou.

Ao tratar da Colômbia e do Peru, Pimenta criticou a moderação da esquerda latino-americana diante da ofensiva da direita. Segundo ele, confiar apenas no processo eleitoral desarma a população diante das manobras da burguesia.

“Essa esquerda latino-americana é bastante moderada. Não é nenhuma esquerda minimamente radical. Ela não enfrenta a extrema direita. Vai para a eleição, chama o povo a confiar na eleição. E depois, quando o circo está armado, não sabe o que fazer”, afirmou.

Para o dirigente do PCO, a resposta deve ser a mobilização popular: “Para derrotar essa investida do imperialismo, essa investida neoliberal, vai ser necessário, em todos os lugares, levar o povo à rua, como está acontecendo na Bolívia, inclusive no Brasil”.

Censura contra a juventude

A entrevista também tratou da redução da maioridade penal para 16 anos e das medidas de censura contra jovens nas redes sociais. Para Pimenta, as duas iniciativas fazem parte de uma ofensiva repressiva.

“É uma proposta desumana, uma proposta de aumento extremo da repressão. É uma coisa impressionante. Um dia você acorda e o pessoal proíbe os jovens até os 16 anos de utilizar as redes sociais. Isso tudo seria para proteger a criança e o adolescente. No outro dia aprovam a redução da maioridade penal para 16 anos. O que vai levar, obviamente, a uma repressão muito grande sobre a juventude”, disse.

Sobre a proibição do acesso de jovens às redes sociais no Reino Unido, Pimenta afirmou que a medida não protege ninguém. O objetivo real, segundo ele, é impedir o acesso da juventude à informação política.

“Eu acho que é fácil deduzir que o objetivo disso é impedir o acesso do jovem à informação política. A internet é uma coisa muito politizada. Nós tivemos um exemplo esmagador com a questão de Gaza. Anos de propaganda do sionismo no mundo todo foram destruídos pela internet. Acho que é censura política, pura e simples”, afirmou.

G7, Irã e “Israel”

Ao comentar a participação de Lula no G7, Pimenta disse que a ida ao encontro não traz benefícios políticos ao Brasil. Para ele, os países imperialistas estão desmoralizados.

“Esses países estão muito desmoralizados. O imperialismo está em baixa, está muito desmoralizado. Participar desse G7 é meio que emprestar prestígio a um pessoal que está muito por baixo. Todos os governos ali são governos de baixíssima popularidade”, disse.

Pimenta também criticou a proximidade de Lula com Emmanuel Macron, a quem classificou como chefe de um governo direitista, neoliberal e rejeitado na própria França.

Sobre o conflito entre Irã e Estados Unidos, Pimenta afirmou que o Irã saiu vitorioso, apesar dos bombardeios sofridos. Segundo ele, a resposta iraniana mudou a relação de forças no Oriente Médio.

“Obviamente que os bombardeios afetaram o Irã, não há dúvida nenhuma. Mas eu vi muita gente exagerando, como se o país estivesse vindo abaixo. Não. Eles retaliaram os ataques. Essa retaliação foi dura para os Estados Unidos. Atingiram várias bases, atingiram ‘Israel’. Mudaram a relação de forças naquela região”, afirmou.

Pimenta destacou que “Israel” deixou de cumprir o papel de cão de guarda do imperialismo na região, obrigando os próprios Estados Unidos a intervir diretamente contra o Irã.

“Até recentemente, ‘Israel’ era o cão de guarda do imperialismo em toda a região. Isso acabou. O imperialismo pôs ‘Israel’ lá para defender seus interesses. Aí teve que socorrer ‘Israel’. Os Estados Unidos tiveram que agredir o Irã diretamente. Não tinha sentido mandar ‘Israel’ se enfrentar sozinho contra o Irã, porque não ia dar jogo”, disse.

STF e Judiciário

No final da entrevista, Fortes perguntou sobre a condenação de Eduardo Bolsonaro pelo STF por coação no processo da trama golpista. Pimenta respondeu criticando a atuação do Judiciário e afirmou que o STF se tornou uma instituição fora de controle.

“Eu acho que o Judiciário é uma coisa fora de controle. Te dou um exemplo: o Ministério Público entrou com um processo contra mim, por coisas que eu falei sobre a Palestina e os sionistas, pedindo R$240 milhões. Eu nunca nem vi R$240 milhões. É um deboche, uma vacalhação. Eu não levo a sério. Acho que seria preciso uma reforma política. E essa questão do STF teria que ser muito bem discutida. Eu, pessoalmente, acho que não deveria existir uma corte com o poder que tem o STF”, afirmou.

Para Pimenta, a concentração de poderes em uma corte constitucional como o STF representa um perigo político. Ele defendeu que a questão seja discutida dentro de uma reforma política mais ampla.

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