Há setores da esquerda que têm um medo quase irracional do bolsonarismo. O artigo O bolsonarismo prepara uma metástase nas eleições de 2026 de Oliveiros Marques, publicado no Brasil247 nesta sexta-feira (12), caminha no mesmo sentido.
Marques inicia texto alardeando que “o bolsonarismo quer tomar de assalto os locais de votação nas eleições deste ano.”. E não apenas isso, faz uma comparação esdrúxula dizendo que “como uma célula política cancerígena com o DNA alterado – prestes a perder o controle sobre sua própria multiplicação antes de sucumbir –, o bolsonarismo patrocina neste momento um movimento em que células malignas se desprendem do tumor principal e invadem tecidos até então saudáveis.”
Esse tipo de comentário apenas impede o debate político. Como se pode tentar trazer para as posições de esquerda alguém a quem se considera uma doença? É o mesmo erro quando se trata os bolsonaristas como gado, negacionistas e outros adjetivos.
Embora a maioria da esquerda tenha posições extremamente reacionárias, como apoiar instituições do Estado burguês, ser contra a liberdade de expressão e se negar a admitir o óbvio sobre a natureza sexual do feminino e do masculino, trata seus adversários como “negacionistas” e retrógrados.
Duvidar é democrático
Segundo Oliveiros Marques, “faz há anos, o bolsonarismo aposta em semear, junto à sua base social, a desconfiança em relação ao processo eleitoral brasileiro.”, e não há nada de errado nisso. Tolo é quem acredita que a burguesia não vá manipular as eleições. A esquerda deveria estar cansada de saber disso, pois já foi fraudada milhões de vezes.
O exagero é a tônica desse texto. Diz, por exemplo, que “cabe um elogio involuntário: eles são craques na ação sobre a realpolitik. Canalhas, é verdade. Mas não se pode negar que operam com uma eficiência e uma desfaçatez que nenhum outro movimento político alcança na atualidade – e é difícil encontrar paralelo semelhante em toda a história do País.”
Em vez de procurar ser independente, o que a maioria da esquerda faz? Ofende, pede censura, elogia a atuação de um Alexandre de Moraes que votou pela prisão de Lula; ou seja, ajudou a manipular as eleições e promoveu a desconfiança, correta, de setores da direita.
No Brasil, certos esquerdistas acreditam na santidade e inviolabilidade das urnas eletrônicas. A coisa virou um dogma que não perde nem para a virgindade de Maria.
“Desta vez”, contiuna o articulista, “convocam como porta-voz a ex-primeira-dama e pré-candidata ao Senado, Michelle Bolsonaro. Ela se utiliza – e notem a petulância – dos horários da propaganda partidária do PL no rádio e na televisão para disseminar a ideia de que há necessidade de maior fiscalização sobre o processo eleitoral, insinuando, portanto, a existência de fraudes.”
“Petulância”, é inacreditável que se use essa expressão. É óbvio que é necessário maior fiscalização sobre o processo eleitoral, essa é uma exigência básica da luta política. E qual é o problema de se dizer isso em horários de propaganda? Marques age como o Tribunal Superior Eleitoral – TSE, que pretende que nenhum político se mexa sem sua autorização. Um partido político tem que ter o direito de dizer o que quiser no seu horário. É ridículo afirmar que a pré-candidata “instrumentaliza um espaço concebido para defender a democracia” Aliás, qual democracia, se só se pode falar o que é permitido?
Fascismo
Adiante, o articulista atesta que “assim como fizeram desde o início de sua construção política – o que é traço característico de todo movimento de natureza fascista –, o bolsonarismo aposta em plantar, junto a uma parcela da população, o descrédito nas instituições. A estratégia não é nova: é o manual.”
Fica demonstrado o porquê de os trabalhadores enxergarem a esquerda como sendo o sistema. Além das quase duas décadas de governos petistas, há aqueles que ficam defendendo o STF, a Polícia Federal, que agiram decisivamente para o golpe de 2016 e, inclusive, para a eleição de Jair Bolsonaro. Se este é fascista, quem o colocou no poder seria o quê?
Medrosamente, Marques escreve que “é aqui que reside o perigo mais concreto do movimento que realizam sob a chancela do PL. O partido lançou um chamamento explícito à sua militância para que se inscrevam junto à Justiça Eleitoral como mesários.” Então, por que a esquerda não faz o mesmo e participa ativamente das eleições?
Em vez de ir para a luta política, mais fácil é ficar dizendo que “o sinal foi claro e objetivo: levar células cancerígenas – pela própria corrente sanguínea da Justiça Eleitoral – a todos os órgãos do sistema eleitoral, tomando de assalto cada ponto de votação do País.” Ninguém está tomando nada de assalto, é preciso ter a medida correta das coisas para evitar esse tipo de exagero.
Aprofundando o clima de medo que o texto expressa, Oliveiros Marques escreve que “numa tática ‘entrista’ às avessas, o objetivo é construir bases infiltradas para implodir o processo nas eleições de 2026. Não esqueçamos, afinal, de quem é a responsabilidade de abrir e fechar as seções de votação e de encaminhar os relatórios ao TSE: são os mesários. Controlar esse elo é controlar o sistema nervoso central do processo.”
Ninguém pode ser ingênuo a ponto de acreditar que são os mesários que controlam o processo eleitoral.
Finalmente, pedindo socorro para as instituições do Estado, o autor diz que “a Justiça Eleitoral, de um lado, e os demais partidos políticos, de outro, precisam se manter alertas e adotar medidas objetivas e urgentes para que esse projeto não se concretize. O risco é concreto.”
Esse tipo de texto é um exemplo claro de como a maioria da esquerda tem abandonado o debate público, o embate político e, em vez de se apoiar nas massas trabalhadoras, recorre ao Estado, e cada vez mais se confunde com ele. O resultado não pode ser outro: os trabalhadores vão para a direita em busca de alternativas.





