POlêmica

Em decadência, identitarismo vive hoje de truques do mercado editorial

O identitarismo é uma ideologia extremamente oportunista, por isso sempre dá um jeito de tentar moldar a realidade à sua visão torta do mundo

Matrix

Que o identitarismo seja uma ideologia oportunista, não resta dúvida, o que salta aos olhos é certos identitários “abrirem suas lojinhas” na imprensa burguesa. O artigo Patriarcado, machismo e misoginia, de Djamila Ribeiro, publicado na Folha de S. Paulo nesta quinta-feira (11), é utilizado para divulgar um curso da autora.

Segundo escreve Djamila Ribeiro, há alguns meses vem “elaborando um estudo sobre o filme ‘Matrix’, de 1999. Inclusive, desenvolv[eu] um curso online com apostila que tem sido transmitido em escolas públicas e privadas, associações de classe e organizações de bairro [grifo nosso]”. A autora diz que se propõe a “analisar o filme sob a lente feminista, oferecendo uma releitura da metáfora da pílula vermelha”. O identitarismo em decadência virou, definitivamente, um vale-tudo.

Djamila diz que o curso, chamado ‘Pensamento Redpill’, mergulha na metáfora da cena protagonizada por Morpheus, líder da resistência, e Neo, o ‘escolhido’. Conforme já [tinha abordado] há algumas semanas (…) uma leitura deturpada dessa passagem fundamentou teorias de ódio às mulheres em grupos de adolescentes e jovens adultos nas redes sociais, a chamada ‘machosfera’.”

Fica muito claro que esse tipo de “estudo” é só uma maneira de manter o “mercado” identitário aquecido, mesmo porque Matrix não é grande coisa, o filme tem forte inspiração no livro Simulacros e Simulação (1981), de Jean Baudrillard, citado explicitamente (onde Neo esconde os disquetes ilegais).

Baudrillard, no entanto, declarou em entrevistas que o filme deturpava ou simplificava demais sua teoria. Para ele, a ideia central dos simulacros é que não existe mais uma “realidade verdadeira” por trás das aparências. Para ele, viveríamos numa hiper-realidade onde os signos e as representações substituíram completamente o real. Não há um “mundo real” autêntico para se retornar. Ou seja, segundo escreveu, não tem pílula para nada.

Ainda assim, a colunista alega que “tem sido um desafio interessante analisar o filme. Como afirm[a] na apostila que acompanha o curso online, “Matrix” é um filme tradicionalmente observado para analisar sistemas de opressões.”

Se esforçando para que o filme caiba em suas pretensões, Djamila Ribeiro pede para o que leitor imagine “o mundo das máquinas como a realidade devastada das colônias, enquanto simultaneamente a realidade virtual Matrix seria a realidade plástica de países do norte, numa relação em que ambos coexistem —miséria e progresso; guerra e paz.”

É difícil imaginar o que pode sair disso. “No curso, contudo, [Djamila Ribeiro] est[á] interessada em observar o filme a partir de uma proposição feminista. Isso [segundo acredita] abriu um campo muito interessante para análise e facilita, inclusive, a compreensão de conceitos amplamente difundidos, mas que ainda demandam uma abordagem didática sobre o que, de fato, significam.”

Um dos conceitos, para surpresa de ninguém é a “a misoginia, tão alardeada atualmente”. “Em linhas gerais”, continua “podemos entender de antemão que misoginia é o ódio às mulheres.” O que em si não explica muita coisa. Observando o mundo, vemos que não existe o tal “ódio às mulheres”; e, se existe, é algo muito residual.

Vigora na sociedade capitalista a opressão contra a mulher, uma condição que apareceu quando a humanidade começou a produzir mais do que consumia e promoveu a divisão social do trabalho.

Para “explicar” como a misoginia “é articulada”, a autora cita a “cientista política anglo-australiana Kate Manne” que, supostamente, “tem uma resposta para isso. Em seu livro “Down Girl: The Logic of Misogyny”, publicado em 2017, ela distingue o machismo —ideologia que justifica a desigualdade entre homens e mulheres— da misoginia, que, por sua vez, representa o braço armado dessa ideologia.” Ou seja, uma série de conceitos vagos que, ainda assim, estão transformando em crime. Os identitários adoram colocar gente na cadeia.

No parágrafo seguinte é dito que “trazendo para o filme ‘Matrix’, seria entender que o patriarcado é uma estrutura histórica e concreta. É o deserto do real, o mundo das máquinas. A Matrix, em sua realidade simulada, seria em nossa associação o machismo. A partir do mundo virtual, ele organiza um conjunto de histórias, papéis, hábitos que fazem a desigualdade parecer natural.”

Se o patriarcado é histórico e concreto, como pode ser simultaneamente o “deserto do real”? E assim, não se sabe bem como, uma realidade simulada seria o machismo. Talvez comprando o curso e lendo a apostila tudo fique mais claro.

O bom é que o leitor não precisa ficar desesperado, “quem já assistiu ao filme vai compreender com maior facilidade a proposição da metáfora de que é o mundo das máquinas —o patriarcado— que organiza a Matrix —o machismo—, onde os seres humanos vivem sem se dar conta de que estão, na verdade, servindo a um sistema como fonte de energia.”

Essa parte é interessante, pois o machismo, que os seres humanos “vivem sem se dar conta”, é pretexto para a criação de leis contra a “misoginia” e mandar uns desavisados em cana, de preferência pobre; pois, no mundo real, não na Matrix, é o pobre que vai para a cadeia.

O poder da lógica

É possível que nesta altura do jogo o leitor já esteja suando frio e se perguntando “E a misoginia?” Pois bem, “ela entra em prática tanto no mundo devastado, por meio das sentinelas, quanto na Matrix, pela atuação dos agentes. Ela é o poder de polícia do sistema, o braço de punição à mulher que sai do seu lugar. Tanto a sentinela, quanto os agentes têm o objetivo de destruir insurgências e manter tudo ‘em seu lugar’.” Simples!

“Logo”, esclarece Djamila Ribeiro, “a misoginia não é uma mera antipatia pelas mulheres. É diferente de apenas ‘não gostar de mulheres’. Ela é um sistema de ataque do patriarcado desenvolvido para punir mulheres —sobretudo aquelas que não obedecem.” É muito provável que ninguém tenha entendido nada. Então, para os misóginos enrustidos, é preciso esclarecer que “quando uma mulher escreve um texto que sai do lugar esperado —em geral, um lugar de silêncio ou de restrição a temas frívolos e amenidades—, o sistema misógino ataca para corrigi-la e devolvê-la ao ser lugar. Logo, a mulher passa a receber xingamentos em redes sociais, questionamentos sobre sua aparência, deboche de sua inteligência, entre outros artifícios.”

Finalmente, apenas como conselho, se for comprar algum curso pela Internet, certifique-se de que, caso não se satisfaça, consiga o dinheiro de volta.

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