Coletivo Psis

O Coletivo Psis – Comitês de Luta é composto por profissionais e interessados da área PSI que incluem a luta de classes em suas discussões. Colabora com o PCO e sua imprensa e está aberto a qualquer pessoa interessada no tema. Contato por WhatsApp +55 (11) 95208-8335

Coluna

Saúde mental — um conceito burguês

Cedendo à tentação de reificar a mente, muitos autores do campo psi, para justificar suas práticas, postulam explicações sem poder prová-las

O conceito da “saúde mental” pressupõe que a mente seja um órgão como outros do corpo e que a ciência médica se aplicaria.

No entanto, a mente de uma pessoa não é um órgão, mas o conjunto das suas experiências sociais passadas e antecipadas, inclusive as imaginações a respeito delas. Elas acompanham o comportamento da pessoa e o determinam conforme as circunstâncias. Conceber a mente como se fosse um objeto acessível à ciência empírica, é uma coisificação, também chamada reificação. 

Reificar a mente é uma forte tentação à qual nós todos cedemos, mais ou menos, o tempo todo, mesmo com respeito a nós mesmos. Costumamos falar da pessoa como um objeto como qualquer outro, com características bastante invariáveis e com reações previsíveis a determinados estímulos. No entanto, o comportamento da pessoa sempre muda e nós não temos explicações objetivas das causas de muitas destas mudanças no comportamento de uma pessoa. Reificar a mente implica atribuir suas expressões a causas fictícias. Ao mesmo tempo, o comportamento das pessoas não pode ser entendido como independente do seu cérebro. Mas a relação entre os dois é acessível à ciência empírica só com respeito a alguns fatores. 

Entre os fatores físicos conhecidos estão os relativos ao neurodesenvolvimento, devidos, por exemplo, a doenças precoces (a serem prevenidas com cuidados pré-natais e pós-natais como vacinações) ou a variações genéticas. O cérebro também pode mudar por impactos mecânicos (acidentes), químicos (intoxicação) ou vasculares (derrames ou embolias), que são objeto da ciência médica. No entanto, sendo que os comportamentos assim causados fazem parte da mente, é impossível distingui-los inteiramente dos comportamentos induzidos socialmente porque todo comportamento, inclusive aquele causado fisicamente, é mediado pelas experiências sociais da pessoa. Assim, além dos tratamentos medicamentosos e cirúrgicos, a psicoterapia – que é social – pode contribuir em muitos casos. Do outro lado e no sentido inverso, há quem afirme que experiências sociais podem ser traumatizantes, sobretudo na infância e adolescência, embora não se saiba como. Mas a hipótese explicaria a relativa durabilidade dos efeitos de experiências sociais.  

Cedendo à tentação de reificar a mente, muitos autores do campo psi, para justificar suas práticas, postulam explicações sem poder prová-las. Nesse sentido, eles costumam deixar de lado tudo que é econômico nas relações da pessoa com a sociedade. Talvez para evitar de contemplar a complexidade que Marx enfrentou.

 O conceito da reificação foi usado por Marx para criticar o que ele chamou de o fetichismo da mercadoria, no primeiro capítulo do livro O Capital (1867). A mercadoria é fetiche quando o valor dela se atribui a ela mesma ao invés de atribuí-lo à relação entre os produtores. Entender o valor da mercadoria foi alvo da ciência econômica desde a idade média. Em grande parte de seus estudos Marx procurou resolver essa questão. 

 Em Marx, o valor da mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho que na sociedade é necessário em média para produzi-la. No entanto, esta média ninguém pode conhecer, pois o valor de uma mercadoria só aparece na comparação com outras mercadorias, ou seja, geralmente aparece no dinheiro, que faz o preço. O que é conhecido é apenas o preço que a mercadoria consegue arrecadar no mercado, e só depois dela  ser vendida. O preço é apenas a forma do valor.

A explicação de Marx é dialética: o valor não é uma coisa em si, mas uma qualidade da mercadoria. Ele assume diferentes formas conforme as relações nas quais transita na sociedade: a forma mais geral é o dinheiro. Mas não para aqui. O valor realizado no mercado na forma de dinheiro permite ele virar capital, e o preço da mercadoria final inclui também o lucro. Assim o valor aparece na forma do preço nas relações entre os proprietários dos meios de produção, os comerciantes e os banqueiros. O preço da mercadoria muda conforme a concorrência e com fatores extra-econômicos como a propriedade da terra, monopólios e relações de poder em geral. 

Marx explica no terceiro volume do livro O Capital (editado por Engels, 1894) como o valor da mercadoria aparece na forma de preço através destas relações, ou seja, como se formam o lucro médio, os juros e a renda fundiária. Assim é possível entender como a mais-valia se distribui entre as diferentes partes da classe proprietária, e que não é esta classe que a produz, ao contrário do que ela insinua. A ocultação do valor social pelo preço da mercadoria contribui para a humilhação da classe trabalhadora.  

Assim como o valor da mercadoria não pode ser compreendido de forma isolada, a mente humana também não pode ser compreendida sem recorrer à totalidade social. 

Marx pouco se importava com a mente. A chamava de “consciência” e achava que dependia das experiências sociais. A fórmula conhecida dele reza: “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua consciência.” (Para a crítica da economia política, 1859). (Ênfase nossa)

Procurar entender a mente a partir do conceito marxista do valor da mercadoria é mais que uma analogia formal, mais do que a aplicação do conceito da reificação a dois fenômenos diferentes. 

O valor da mercadoria é material e orienta o comportamento da pessoa inescapavelmente. O valor da mercadoria é o que rege a vida social e pela mesma via obriga o indivíduo a produzir certas reações, fazer certos esforços, escapar dos perigos de certas maneiras, etc.

Se o valor da mercadoria é o tempo de trabalho necessário, na sociedade, na média para produzi-la, o produtor tem a tarefa de estimar de antemão o tempo que ele pode despender  no seu produto para ganhar o necessário para viver. Além disso, ele não pode parar de melhorar o seu trabalho e de comprar ferramentas, pois os competidores fazem o mesmo e assim o tempo de trabalho necessário na sociedade para produzir determinada mercadoria não para de diminuir. O produtor precisa procurar compensar constante e prospectivamente este aumento da produtividade dos competidores.

Esta figura não nos lembra o que o ser humano vivencia o tempo todo? Procurar saber se a sua atividade vale não lembra a “angústia” de Freud? Além disso, ser obrigado a constantemente melhorar o seu trabalho pelos seus esforços e arrumar as ferramentas mais modernas não lembra a “neurose obsessiva”?   

A abordagem da ciência burguesa é o positivismo. Diferente da dialética materialista, ele permite focar qualquer fenômeno para estudá-lo, isolando-o da realidade total, medindo somente os efeitos que sob ele exercem quaisquer fatores, uns observáveis e outros supostos.  Assim, isolando o indivíduo humano, a ciência burguesa representa o seu nexo social como constituído por fatores empiricamente observados e quantificados. Assim  se descreve só uma parte da realidade da pessoa. Tudo que é da originalidade da pessoa, sua criatividade, do seu funcionamento mental complexo, escapa ao estudo empírico e fica relegado às fantasias da filosofia, por isso chamada de idealista.

Na vida prática, a mente é reificada assim, e “tratada” pela psiquiatria e pelos tipos de psicoterapia que aderem ao positivismo, sem dar conta de como vive a sociedade inteira e como a pessoa procura viver nela. Aqueles tratamentos que querem ajustar a pessoa ao funcionamento da sociedade nunca a entendem como fonte do mal-estar. Afinal, é a individualização ilusória da pessoa que permite o discurso burguês da “saúde mental”.

A individualização ilusória do bem-estar mental também esconde a opressão no capitalismo. Esta vem da vantagem de quem produz com recursos mais volumosos e avançados em cima de quem não tem tais recursos. Como Marx descreveu no seu livro O Capital, a propriedade de uns cada vez mais deixa os outros sem propriedade. Estes precisam servir aos proprietários para viver. Eles vivem angustiados, pois não sabem o quanto eles vão “valer” para os proprietários que os alugam e se eles vão poder sobreviver. Pior ainda, ninguém parece ter a culpa desta miséria, apenas o trabalhador por falta de esforços, pois tudo parece ser regulado pelo mercado tomado como objetivo. O fetichismo da mercadoria assim mostra a crueldade da cegueira coberta pela reificação das relações sociais.

 A relação de opressão é generalizada.Todos que não tem propriedade suficiente para se sentir seguros, sejam trabalhadores, pequenos proprietários na cidade ou no campo e as classes médias assalariadas, dependem da mesma lei: o “valor” do ser humano. O bem-estar da pessoa e da família, se determina pela sua relação com a propriedade na sociedade. Até entre os membros das classes oprimidas costumam reger comportamentos opressores, por exemplo na família, nas hierarquias no trabalho, na produção cultural, etc.

O que os psis de um partido marxista podem tirar da crítica da “saúde mental”?

Primeiro, para uma pessoa se fortalecer e ganhar maior autonomia na vida não se precisa de explicação objetivadora nenhuma da mente dela. Ela precisa, talvez com um profissional psi, questionar as suas imaginações, ilusões, medos, desejos de superioridade ou de submissão, etc. para se desfazer das pautas idealistas e contraditórias que a cultura burguesa impõe e que as pessoas assimilam pela sua resignação enquanto mercadoria força-de-trabalho. Os psis devem sobretudo se abster de explicações pseudo-objetivas e reificadoras da pessoa. Até a “subjetividade” de uma pessoa costuma ser apenas uma falsa objetivação sem valor terapêutico nem analítico.

Ser paciente da saúde mental se tornou, nesta etapa de nosso tempo, aceito como a média social, normalizando que grande parte dos que procuram seus cuidados dependem de medicação para suportar a dura realidade social. Os profissionais não devem ser os cães de guarda desse sistema, repetindo acriticamente diagnósticos individuais.

Segundo, vale, sim, acolher os sentimentos e as experiências dos clientes que têm a ver com a sua situação na sociedade e o entendimento que têm dela. Esse entendimento não diz respeito tanto à mente da pessoa, mas à sociedade inteira, principalmente às relações de classe. Precisa-se ter em vista que o que precisa ser “tratado” não é a mente da pessoa, mas a opressão que ela sofre na sociedade capitalista.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a deste Diário

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.