Polêmica

Pequeno-burguês quer catequizar trabalhador evangélico

A esquerda-pequeno burguesa é sectária e elitista, por isso nao consegue conversar com eleitor bolsonarista, que classifica como fascista

Catequeze

Existe na esquerda pequeno-burguesa uma necessidade, herdada do mundo universitário, de se apegar a modismos, ou promover conceitos inventados, como se isso fosse capaz de descrever o mundo e a partir daí se pudesse transformá-lo.

Combater o cristofascismo é uma necessidade civilizatória, de Bepe Damasco, publicado no Brasil247 nesta quarta-feira (10), encaixa-se nessa categoria, mas com um grave defeito: existe uma massa de trabalhadores evangélicos e tratá-los como “cristofascistas” significa dizer que esses são nossos inimigos. Em vez de combater a burguesia, a esquerda passa a combater o próprio operariado. Ironicamente, os fascistas eram especializados em combater a classe trabalhadora, nasceram com essa missão.

Cabe perguntar: o que seria exatamente o “civilizatório”? Quem vai civilizar quem? O mundo “civilizado” tem cometido as piores barbaridades de que se tem notícia. Ora metem na cadeia milhares de pessoas por expressarem suas opiniões, ora financiam genocídios e guerras de agressão. Quem são os civilizados que têm autoridade para saírem por aí catequizando os outros?

Damasco inicia seu texto dizendo que “na década de 70, a teóloga alemã Dorothee Solle criou o conceito cristofascismo para definir a fusão do fundamentalismo cristão com práticas autoritárias e de extrema direita. Falecida em 2003, Dorothee se mostrou visionária em relação ao que aconteceria décadas depois.”

Vinte anos antes, a Escola de Frankfurt tentou estabelecer os critérios sobre a “Personalidade Autoritária” e chegou a lugar nenhum. No Reino Unido, que não é neopentecostal, é proibido ter determinadas opiniões. O mesmo acontece na civilizada Alemanha. Além disso, a censura é espalhada pelo planeta pelos democratas.

Bepe Damasco se preocupa em “fazer uma distinção entre os evangélicos tradicionais, como batistas, luteranos, metodistas e presbiterianos, e os neopetencostais que tomaram conta das favelas e bairros populares das periferias dos grandes centros urbanos brasileiros”

Para o articulista, “as denominações neopentecostais têm sua doutrina baseada no dinheiro, professando a tal ‘teologia da prosperidade’, uma excrescência em si, já que Cristo nasceu e morreu pobre e dedicou sua vida à redenção dos desvalidos.”

Talvez não ocorra a Damasco que as pessoas não queriam viver na miséria, endividadas, e que por isso se apeguem a religiões que prometam uma vida melhor, uma redenção.

O articulista considera que “virou moda nos setores progressistas a disseminação de uma espécie de sentimento de culpa pela relação com os evangélicos. Isso se expressa no discurso segundo o qual a responsabilidade pela forte rejeição da esquerda no segmento evangélico deve-se a preconceitos e erros de abordagem dos próprios militantes e lideranças da esquerda brasileira.”

Isso não deveria ser uma moda, mas uma constatação, pois o preconceito e o sectarismo impedem não apenas que a maioria da esquerda tenha penetração nesse setor da sociedade; impedem que se apoie movimentos que estão em confronto direto com o imperialismo, como o Talibã, o Hamas, o Hesbolá e o governo iraniado, tratados como fundamentalistas.

Adiante, Damasco diz que “pode ser que haja pouca paciência para aturar a visão de mundo retrógrada e reacionária dos evangélicos, além de sua submissão a políticos da mais baixa extração.”

A esquerda pequeno-burguesa subiu em um pedestal moral e fica dali chamando seus adversários políticos de gado, de negacionistas, mas ela mesma nega, não consegue enxergar uma simples constatação biológica e confunde sexo com gênero, e ainda assim se sente superior.

O que o articulista tem a dizer sobre o neopentecostalismo é que “não é solidário ao sofrimento dos pobres e miseráveis; se nega o vergonhoso racismo estrutural; se não se revolta com as injustiças, os preconceitos e as violências sofridas pelas mulheres; se menospreza a luta dos povos originários pela sobrevivência; se nenhuma luta coletiva dos trabalhadores por melhores salários e condições de trabalho lhe diz diz respeito; se desrespeita a liberdade religiosa, atacando as religiões de matriz africana; se é tolerante e conivente com os crimes praticados pela extrema direita; se rejeita a população LGBTQIA+ e se considera que criança estuprada não tem o direito de interromper a gravidez, qual seria o tipo de diálogo possível com quem professa uma crença contrária aos direitos humanos mais elementares?”

Será verdade que os neopentecostais não são solidários com o sofrimento alheio? Quanto ao racismo estrutural, isso nem mesmo existe, ainda que a esquerda pequeno-burguesa repita isso insistentemente. Esse parágrafo de Damasco é um desfile de preconceitos e uma barreira que ele mesmo impõe a qualquer diálogo.

As preocupações de Bepe Damasco são típicas de setores da classe média. Sua atitude é de “olhar para baixo”, diz que “esses brasileiros pobres em sua imensa maioria precisam dos programas sociais, de saúde e educação de qualidade, além de políticas de geração de emprego e renda, para que tenham uma vida digna. É gente trabalhadora e que cuida da família.”

Em seguida, o articulista sentencia que “não pode haver condescendência no que se refere às causas que defendem, que merecem ser combatidas com vigor em nome das conquistas civilizatórias da humanidade.” E quais seriam essas conquistas?

A esquerda pequeno-burguesa, na verdade, não quer contato com a classe trabalhadora, eis a realidade.

Damasco, do alto de sua sabedoria, fecha dizendo que “de resto, só um longo processo educacional de qualidade, e ao alcance de todos, que desperte o senso crítico em um número maior de pessoas, será capaz de reverter o quadro atual em que dezenas de milhões de brasileiros são levados por questões de fé religiosa a assumirem posições políticas que só pioram suas vidas.”

Essa ideia já foi refutada há mais de 180 anos por Marx nas Teses de Feuerbach, onde explica que “A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, [de que] seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado. Ela acaba, por isso, necessariamente, por separar a sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade.”

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