O identitarismo, por ser uma ideologia moralista, quer que todos entendam a história do Brasil como se faz no Velho Testamento: desde o Gênesis, onde o pecado original e a expulsão do Paraíso determinam todo o restante.
No artigo A sexualidade como dimensão material, de Eduardo J. Ferreira Santos, publicado no sítio A Terra é Redonda no dia 6 de maio deste ano, encontramos a mesma abordagem.
Logo no primeiro parágrafo se lê que “a sociedade brasileira – nascida a partir de um projeto colonial – sempre se organizou em torno da espoliação e do roubo da riqueza produzida. A exploração colonial impôs formas específicas de organização social no território que viria a ser chamado de Brasil, sustentadas por formas de explicar o mundo destinadas a legitimar o projeto político do colonizador.”
O período das Grandes Navegações é conhecido pela expansão colonial europeia. É óbvio que houve exploração e os colonizadores impuseram seus “projetos políticos”. Isso serve para o Brasil, para uma enormidade de países e para continentes inteiros, como no caso da América.
Embora nesses mais de 520 anos o capitalismo tenha passado por transformações que desaguaram no imperialismo (que vive uma crise aguda), o autor insiste no tema de que “desde a chegada dos primeiros invasores, a exploração do trabalho esteve articulada a critérios socialmente construídos que hierarquizam pessoas e grupos, definindo quem pode ocupar determinados lugares, quem é reconhecido como legítimo e quem pode ser tratado como excedente (seres descartáveis) ou ameaça a um projeto político-econômico específico.”
Isso está perfeitamente contemplado na formulação de Karl Marx que diz que “a história da humanidade, até os nossos dias, tem sido a história da luta de classes”. Portanto, é inútil ficar falando em “dinâmicas estruturais” que “ecoam em práticas políticas concretas do presente, modos de organização e relações cotidianas” e blá-blá-blá. É preciso agir na política atual, não sobre uma suposta sombra de mais de cinco séculos.
É igualmente inútil ficar falando que os colonizadores eram invasores, pois não existia Brasil quando os portugueses chegaram. Os inimigos da classe trabalhadora são os burgueses, o imperialismo. É contra isso que se tem que lutar.
Academicismo
Talvez os identitários não percebam, mas eles não dialogam com a classe trabalhadora. O modo como escrevem é excludente e tem todo o trejeito do mundo acadêmico pequeno-burguês universitário. É o caso do trecho: “escreve-se aqui desde uma posição situada no campo da esquerda, no interior do debate sobre suas potencialidades de se afirmar como força transformadora.”
Ferreira Santos diz que “a posição que sustenta [seu] texto se ancora em experiências vividas e testemunhadas dentro desse campo, nas quais práticas reiteradas de discriminação, violências diversas e silenciamento atingiram não apenas quem escreve, mas também dezenas de outros militantes e ativistas.” E qual é a necessidade dessa explicação, dizer que tem “lugar de fala”? Esse é o cotidiano dos trabalhadores.
O identitarismo não tem nada a oferecer para a luta da classe trabalhadora, por isso não para de falar do passado e tenta justificar que “longe de serem apenas resíduos do passado, os mecanismos coloniais continuam operando no presente, organizando vínculos, pertencimentos e conflitos concretos na vida cotidiana, impactando diariamente a concretude das relações sociais, as acomodações e disputas das forças políticas, em diversos níveis e locais, e criando as condições reais sobre as quais diferentes projetos passam a disputar organização, adesão e hegemonia”
O que os identitários sugerem para combater os “conflitos concretos na vida cotidiana”? Se juntam ao Estado burguês para criar leis, colocar pessoas na cadeia e aumentar as penas.
Em vez de procurar entender a polarização política por meio da luta de classes e pela crise do imperialismo, o autor diz que “a extrema direita não nega a concretude do processo de formação do povo brasileiro e suas contradições, as heranças da colonização e as tecnologias sociais de dominação historicamente constituídas. Ao contrário, a extrema direita assume tudo isso como parte constitutiva de seus projetos políticos, reconhecendo o papel fundamental dos supremacismos na organização da vida social e seus enraizamentos contraditórios no povo brasileiro.”
Ferreira Santos não compreende que a extrema direita é fruto do esgotamento do neoliberalismo que tem levado setores da classe média, e até da burguesia, entrarem em choque com os interesses do grande capital financeiro e procurarem uma saída contra o sistema.
Não há nada de relevante de supremacismo no Brasil. Aliás a supremacia só é utilizada de maneira muito lateral pelo fascismo, cujo maior objetivos é destruir as conquistas e os organismos da classe trabalhadora.
Existe, sim, uma tentativa de estabelecer um clima de medo para justificar a “luta contra o fascismo”. Essa “luta” consiste em coloboração de classes: a esquerda unida com setores do “campo democrático” da burguesia para combater esse suposto inimigo comum.
A questão é que, hoje, é a democracia liberal que está impondo verdadeiras ditaduras pelo mundo. São elas que apoiam a censura, o massacre na Faixa de Gaza, a guerra na Ucrânia, o avanço sobre Taiuã, a agressão contra o Irã. Sendo o principal obstáculo para a emancipação da classe trabalhadora.
Voltando ao início, o olho do artigo alega que “a recusa em integrar as dissidências sexuais e a racialização como eixos estruturais da luta de classes fragiliza o enraizamento popular e cede espaço para a coesão política das direitas.”
As lutas das minorias sexuais e contra o racismo, feminismo, etc., são importantes, mas o “eixo estrutural”, o fundamental, é a luta de morte da classe trabalhadora contra a burguesia.
Não existe “recusa” em integrar lutas. O que está acontecendo é que o identitarismo se infiltrou na esquerda e tenta impor questões como as de gênero, que são anticientíficas e que acabam avançando sobre os direitos das mulheres. Existe uma pressão para que mulheres trans – homens que se identifiquem como mulheres – passem a utilizar os banheiros femininos, ou que disputem em modalidades esportivas femininas. Isso, não sem razão, tem servido como munição para a extrema direita
No quesito racial, além de reivindicações inúteis, como a exigência de uma mulher negra no STF, os identitários querem resolver o problema com cadeia, o que é uma política extremamente direitista e reacionária. A prova disso é que essas leis repressivas são rapidamente aprovadas pelo Congresso e quase que unanimimente.
Contiuna…





