A notícia de que a Polícia Federal não estaria disposta a aceitar a delação de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, foi apresentada pela imprensa burguesa como se o problema fosse simplesmente o fato de a delação ser “incipiente”, isto é, não trazer fatos novos. Essa explicação, no entanto, não esclarece o essencial. O que está em curso é uma queda de braço entre setores poderosos do regime.
De um lado, aparecem a Polícia Federal, o grande capital e setores interessados em levar a investigação até ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e figuras centrais da política nacional. De outro, aparecem setores do próprio Supremo, da burguesia brasileira e da política tradicional, que têm todo interesse em impedir que a delação avance.
A delação premiada uma das grandes armas da Operação Lava Jato. Foi por meio desse mecanismo que se compraram depoimentos, se montaram processos políticos e se abriu caminho para o golpe de 2016. A esquerda, vítima direta da Lava Jato, cometeu um erro brutal ao aceitar esse método como se ele fosse legítimo apenas porque, em determinados momentos, poderia atingir a direita.
A delação premiada é, em essência, uma forma de compra de depoimento. O Estado promete benefícios ao acusado para que ele incrimine outra pessoa. No caso atual, essa negociação assume proporções explosivas, pois pode envolver ministros do Supremo Tribunal Federal e os principais grupos econômicos do País.
O caso Vorcaro expõe uma luta interna. A Polícia Federal, segundo o noticiário, quer uma delação mais robusta. O ponto decisivo é saber contra quem. Tudo indica que a pressão é para que Vorcaro entregue figuras como Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e outros setores próximos ao centro do poder judicial brasileiro.
Vorcaro, por sua vez, parece apostar que será salvo por uma das alas do próprio regime. A expectativa do banqueiro seria a de que setores do Supremo e da política nacional consigam protegê-lo, impedindo que a investigação alcance seus aliados mais importantes.
Se a delação avançar, poderá atingir o coração do regime político criado pela Constituição de 1988. Se for bloqueada, ficará evidente que o STF e os grandes interesses econômicos formam uma casta acima de qualquer investigação.
A atuação da Polícia Federal nesse caso também não pode ser vista de maneira ingênua. A corporação sempre esteve na linha de frente das operações de interesse do grande capital e do imperialismo. Foi assim na Lava Jato, dirigida contra Lula, contra a Petrobrás e contra a economia nacional. Agora, aparece novamente como instrumento de uma operação que expressa uma disputa entre setores da própria burguesia.
O escândalo dos bancos assustou os banqueiros brasileiros. O tamanho do poder acumulado por determinados grupos financeiros e sua ligação com setores do Judiciário passou a ser visto como uma ameaça por outros setores do grande capital. Por isso, a operação não deve ser abandonada facilmente.
O caso também coloca em evidência a blindagem do Supremo Tribunal Federal. Nenhuma instituição normal permitiria que ministros envolvidos direta ou indiretamente em assuntos dessa gravidade continuassem atuando sem investigação real.
No caso de Dias Toffoli, por exemplo, a simples saída da relatoria do caso Master só ocorreu depois de uma crise política. Não foi resultado de um mecanismo institucional normal de controle. Foi resultado da pressão provocada pelo tamanho do escândalo.
O mesmo vale para as denúncias envolvendo o patrimônio de ministros do STF e contratos milionários associados a familiares de magistrados.
A ausência de uma investigação institucional séria não significa que nada esteja acontecendo. Significa apenas que as instituições estão comprometidas demais para investigar a si próprias. O povo, no entanto, vê o que está acontecendo. A população percebe que há uma casta de banqueiros, ministros, políticos e empresários que atua acima da lei.
O caso Banco Master pode ser, provavelmente, o maior escândalo do regime criado em 1988. Maior não apenas pelo volume de dinheiro envolvido, mas pelo fato de expor, em um único processo, a podridão do Judiciário, dos bancos, da Polícia Federal, do Congresso e da política nacional.





