O Diário Causa Operária realizou uma entrevista exclusiva com o cientista político norte-americano Norman Finkelstein, uma das pessoas que mais denunciam os crimes do Estado de “Israel” e a manipulação da memória do Holocausto pelo movimento sionista. Na conversa, o autor aborda temas centrais de sua obra A Indústria do Holocausto e analisa a situação política atual na Palestina. A entrevista será publicada no canal da Causa Operária TV (COTV) na próxima quarta-feira, 17 de junho, em horário ainda a ser divulgado.
O centro da entrevista é o livro A Indústria do Holocausto, publicado originalmente em inglês em 2000 pela Verso Books, com o título The Holocaust Industry: Reflections on the Exploitation of Jewish Suffering. A obra é a mais conhecida e mais polêmica de Finkelstein. Curta, direta e fartamente documentada, tornou-se uma referência internacional na denúncia da utilização política da memória do Holocausto.
Norman Gary Finkelstein nasceu em 8 de dezembro de 1953, no Brooklyn, em Nova Iorque. Filho de sobreviventes do Holocausto, Finkelstein desenvolveu sua trajetória intelectual combatendo a falsificação histórica usada para justificar os crimes do Estado de “Israel”. Sua mãe sobreviveu ao Gueto de Varsóvia e ao campo de Majdanek. Seu pai sobreviveu ao campo de Auschwitz.
Essa origem tem papel decisivo em sua obra. Finkelstein nunca negou o extermínio dos judeus pelos nazistas. Ao contrário, sua crítica parte justamente da defesa da verdade histórica contra sua exploração por setores ligados ao sionismo e ao imperialismo.
A tese central de A Indústria do Holocausto é que o lobby sionista norte-americano explora a memória do Holocausto para obter ganhos políticos e financeiros e para favorecer os interesses do Estado de “Israel”. Finkelstein distingue o Holocausto como acontecimento histórico real — o assassinato em massa de judeus, comunistas e outros perseguidos pelo nazismo — de “O Holocausto” como representação ideológica desenvolvida principalmente nos Estados Unidos.
Segundo Finkelstein, essa representação ganhou sua forma atual sobretudo depois da guerra árabe-israelense de 1967. A vitória militar de “Israel” naquele ano fez com que o regime sionista se tornasse um ativo estratégico dos Estados Unidos no Oriente Médio. A partir daí, setores dirigentes da comunidade judaica norte-americana passaram a transformar a memória do Holocausto em instrumento de propaganda política, usado para blindar “Israel” de críticas.
Para Finkelstein, essa ideologia se apoia em dois dogmas: a ideia de que o Holocausto é um acontecimento absolutamente único na história e a ideia de que seria o ponto culminante de um antissemitismo eterno. O autor sustenta que essas teses não correspondem à historiografia séria e servem a uma finalidade política: apresentar “Israel” como vítima permanente e, ao mesmo tempo, justificar a opressão contra os palestinos.
A obra é dividida em três capítulos. O primeiro, “Capitalizando o Holocausto”, examina como a memória do extermínio nazista se tornou um instrumento de ideologia e propaganda, especialmente nos Estados Unidos. O segundo, “Vigaristas, charlatães e história”, trata de autores de memórias premiadas sobre o Holocausto que se apresentaram como sobreviventes e acabaram expostos como fraudes, além de criticar obras usadas pela propaganda sionista.
O terceiro capítulo é o mais factual. Nele, Finkelstein analisa os acordos de reparação dos anos 1990, quando bancos suíços foram pressionados por contas dormentes da era nazista. O autor argumenta que a maior parte do dinheiro não chegou aos sobreviventes reais do Holocausto, mas a instituições e dirigentes comunitários. Para Finkelstein, o processo se transformou em uma “dupla extorsão”: contra países europeus e contra os próprios reclamantes judeus legítimos.
A publicação provocou uma reação violenta. Finkelstein foi atacado por setores sionistas e denunciado falsamente como negador do Holocausto, acusação que sempre rejeitou. Sua posição é oposta: o perigo à memória das vítimas do nazismo não está apenas nos negadores declarados, mas também nos que se apresentam como guardiões dessa memória para utilizá-la em defesa de “Israel”.
Finkelstein graduou-se na Universidade de Binghamton e obteve doutorado em ciência política pela Universidade de Princeton. Pesquisa a questão palestina desde 1982. Sua tese de doutorado já demonstrava o sentido de sua obra posterior: nela, provou que o livro From Time Immemorial, de Joan Peters, então muito elogiado nos Estados Unidos, era uma fraude acadêmica que falsificava dados demográficos para sustentar a mentira de que a Palestina era praticamente vazia antes da imigração sionista.
Ao longo de sua carreira, publicou obras de grande repercussão, como Image and Reality of the Israel-Palestine Conflict, Beyond Chutzpah e Gaza: An Inquest into Its Martyrdom. Em Beyond Chutzpah, desmontou as falsificações do jurista sionista Alan Dershowitz, defensor ativo de “Israel” nos Estados Unidos. Após a polêmica, em 2007, depois de uma intensa campanha contra ele, Finkelstein teve negada a estabilidade docente na Universidade DePaul, em Chicago, e acabou afastado da instituição.
Em 2008, foi proibido de entrar em “Israel” e barrado por 10 anos. A partir da ofensiva israelense contra Gaza em 2023, Finkelstein voltou ao centro do debate público. Em fevereiro de 2025, na Universidade de Michigan, denunciou o governo de Joe Biden por sustentar o genocídio em Gaza “com bombas, dinheiro e apoio político e diplomático”.
A perseguição contra Finkelstein continuou. Partidos alemães, entre eles o Die Linke e os Verdes, cancelaram aparições suas. Em fevereiro de 2026, uma palestra anual em Princeton também foi cancelada, oficialmente em nome de uma “nova política universitária”. Mais uma tentativa de silenciar uma das principais figuras que expõem os crimes do sionismo.
Nos últimos anos, Finkelstein lançou obras como I Accuse! e I’ll Burn That Bridge When I Get To It, esta última sobre a chamada cultura do cancelamento e a repressão nas universidades. Seu livro mais recente é Gaza’s Gravediggers: An Inquiry into Corruption in High Places, publicado pela OR Books.
A entrevista do DCO com Finkelstein é uma oportunidade para o público brasileiro conhecer melhor a discussão apresentada em A Indústria do Holocausto. No momento em que “Israel” utiliza a memória do sofrimento dos judeus para tentar justificar o genocídio contra o povo palestino, a obra de Finkelstein ganha ainda mais importância, principalmente em meio à perseguição desatada pelo lobby sionista no Brasil.
A entrevista será publicada na próxima quarta-feira, 17 de junho, no canal da COTV. O horário será divulgado em breve.





