Daniel Vorcaro apresentou uma segunda proposta de delação que, segundo a própria imprensa burguesa, tende a ser rejeitada pela Polícia Federal. Assim como a primeira, ela não traz nenhum fato significativo novo. O banqueiro do Banco Master fez duas tentativas de acordo e, em nenhuma delas, incriminou quem o aparato judicial quer ver atingido.
Vorcaro acredita que tem proteção no alto escalão do regime. Ele aposta que uma ala do Supremo Tribunal Federal (STF), ligada a Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, aceitará uma delação sem maiores consequências, reduzirá drasticamente sua pena e impedirá que figuras de peso sejam atingidas. De outro lado, a Polícia Federal, com Nunes Marques e com o apoio visível do grande capital, pressiona por fatos novos, o que só pode significar o avanço sobre o próprio Moraes.
Um dado torna o caso ainda mais grave. Depois da liquidação do Banco Master, ainda restavam R$50 milhões a serem pagos ao escritório ligado à mulher do ministro Alexandre de Moraes. Em seguida, apareceu outra empresa de Vorcaro disposta a fechar contrato com o mesmo escritório, pelo mesmo valor. Mais um indício do tipo de relação existente entre o banqueiro e uma ala do tribunal.
O que se vê é uma disputa dentro do próprio STF. De um lado, uma fração que pretende usar a delação para atingir Moraes. De outro, o ministro e seus aliados, que atuam para impedir que o caso avance. A Procuradoria-Geral da República e o relator André Mendonça, também vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e relator dos casos Master e das fraudes do INSS, aparecem como peças decisivas no rumo do processo.
Como em todos os grandes escândalos de corrupção no Brasil, não existe aqui nenhum setor moralizador. O que existe é uma luta política nas altas esferas do poder, envolvendo o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. A diferença, desta vez, é que os falsos justiceiros estão discretos. A campanha contra Vorcaro é limitada porque o caso pode atingir setores que o próprio regime deseja preservar.
É preciso registrar também o método utilizado pelo aparato judicial. O pai de Vorcaro está preso. A prisão de familiares como forma de pressão sobre delatores foi consagrada por Sérgio Moro na Lava Jato e tornou-se uma prática cada vez mais comum no Judiciário brasileiro. Trata-se da legalização da tortura como método de investigação. O fato de isso ocorrer sem maior escândalo por parte da imprensa burguesa mostra que sua indignação depende sempre do interesse político em jogo.
O desfecho continua em aberto. Se a delação atingir figuras do STF, do Congresso ou do governo, a crise política se aprofundará. E tudo indica que é justamente esse aprofundamento que setores importantes do grande capital procuram. Não há, nessa disputa, nenhum lado a defender entre os de cima. Há apenas a confirmação de que o regime brasileiro apodrece pelo topo.





