A inteligência artificial continua sendo desculpa para a esquerda apoiar as medidas repressivas do Estado sobre as eleições. Um exemplo disso é o artigo “Lawfare tecnológico”: a nova frente de batalha das eleições presidenciais de 2026, de Larissa Ramina, publicado no Brasil 247 nesta segunda-feira (8).
O texto inicia fazendo um alerta, comum na maioria da esquerda, de que “a análise do lawfare nas eleições presidenciais de 2026 exige compreender uma transformação profunda: o fenômeno deixou de envolver apenas o sistema de justiça e a mídia. Hoje, ele envolve também o âmbito tecnológico, algorítmico e informacional”.
Para a autora, “observa-se que a disputa eleitoral tende menos a um debate programático clássico, centrado em propostas de governo, desenvolvimento econômico ou políticas públicas, e mais a uma intensa guerra narrativa baseada na polarização ideológica, na mobilização emocional e na construção permanente de inimigos políticos”.
Propostas e debates, na verdade, não passam de mito. No Brasil, a cada nova eleição, o tempo de campanha é reduzido, apenas alguns partidos têm acesso à imprensa, de modo que o tal debate simplesmente não existe. A alegação esconde que as eleições sempre foram antidemocráticas no País, decidida pelos poderosos que, uma vez ou outra, são suficientemente pressionados pela mobilização do povo e capitulam.
Quando Ramina diz que “o antipetismo, impulsionado por campanhas digitais agressivas, discursos de ódio e estratégias de desinformação, converteu-se novamente em elemento central da extrema direita brasileira, aprofundando o ambiente de ‘pós-verdade’ e de radicalização que marca o cenário eleitoral contemporâneo”, se esquece que, em 2005, o “escândalo” do Mensalão começou a ser gestado e culminou no julgamento em 2012, em um grande esquema orquestrado envolvendo toda a grande imprensa, a Polícia Federal e o “democrático” Supremo Tribunal Federal (STF). Não foi necessária nenhuma campanha digital, o que mostra que é infundado o terror que tantos demonstram diante das novas tecnologias.
Segundo a autora, “as eleições presidenciais desse ano serão atravessadas por aquilo que poderíamos eventualmente chamar de ‘lawfare eleitoral de viés tecnológico’, a depender de uma investigação acadêmica mais profunda. Trata-se da utilização estratégica do sistema de justiça, da mídia tradicional, das plataformas digitais, da inteligência artificial e da desinformação como instrumentos de disputa política, capazes de influenciar candidaturas, moldar narrativas públicas e afetar a própria percepção social sobre a legitimidade democrática”. Exatamente aquilo que já vem sendo feito há décadas.
Durante o julgamento-farsa do Mensalão, houve uma exposição tão brutal de dirigentes petistas e manipulação de informação que a extrema direita, pode-se afirmar, foi parida ali.
O papel da ‘Justiça’
Ramina afirma que “as discussões do TSE sobre IA, deepfakes e integridade da informação são exemplos de como as esferas jurídica e tecnológica se tornaram parte central da arena eleitoral”. Ocorre que esse tribunal é dono das eleições, sempre inventa regras novas cujo intuito é favorecer determinados partidos da burguesia e prejudicar outros, principalmente os da esquerda.
É inacreditável a ingenuidade que afeta a maioria da esquerda brasileira. Jamais se poderia afirmar que “o posicionamento das instituições judiciais, especialmente o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal Superior Eleitoral e o Ministério Público, que sustentam que o endurecimento regulatório contra fake news, discursos antidemocráticos e abusos digitais constitui defesa legítima da democracia”. O único intuito dessas instituições é utilizar essas desculpas para engessar ainda mais o processo eleitoral e torná-lo o mais antidemocrático possível.
Basta acompanhar a imprensa burguesa para se verificar que não existe nenhum combate a notícias falsas. Quem vai acreditar que “para esses órgãos, o combate à desinformação é indispensável para preservar a integridade eleitoral diante da explosão de conteúdos manipulados por inteligência artificial”? Quem foi que retirou Lula ilegalmente da eleição que elegeu Jair Bolsonaro?
Segundo a articulista, “existe a narrativa da oposição conservadora e da extrema direita, que utiliza o conceito de lawfare para denunciar suposta perseguição política contra lideranças conservadoras. Investigações, decisões judiciais e restrições eleitorais são frequentemente interpretadas por esses setores como tentativas de exclusão política e controle narrativo do processo eleitoral”.
Não se trata de “narrativa”, é fato. Da mesma maneira que a burguesia sacou Lula das eleições de 2018, impediu Jair Bolsonaro. O julgamento da “trama golpista” foi mais uma farsa jurídica, o que no País não constitui novidade.
O medo do ‘novo’
Ramina escreve que “há um elemento novo e decisivo: a transformação tecnológica do ambiente político. O centro do conflito eleitoral deslocou-se para as plataformas digitais, para os algoritmos e para a manipulação massiva da percepção pública”. E o que foram o Petrolão, Mensalão e Lava Jato? Lembrando que não havia inteligência artificial.
A esquerda, medrosa, se prende a jargões da moda, como “narrativa”, “tecnofascismo”, “pós-verdade”, diz que isso “tornou-se um dos principais elementos estruturantes da política contemporânea” e que “nesse ambiente, fatos objetivos perdem espaço para emoções, crenças ideológicas e identidades políticas”. Ou que “não importa apenas o que é verdadeiro, mas aquilo que produz impacto emocional, medo, indignação ou pertencimento”.
Isso sempre foi assim e tem piorado conforme a burguesia precisa aumentar seu controle sobre a política.
Em vez de ficar reclamando que “as redes sociais potencializam esse fenômeno ao criar bolhas informacionais, onde o indivíduo passa a consumir apenas conteúdos compatíveis com suas convicções prévias” e que “a consequência é devastadora para a democracia”, a esquerda deveria utilizar as novas tecnologias, pois são elas que tornam mais democrático o processo eleitoral.
As tentativas de regular as redes e o uso de IAs pelas instituições do Estado visam impedir que os partidos pequenos e a esquerda diminuam a desvantagem em relação aos grandes e tenham maior penetração pública.
O medo fez com que a esquerda caísse no conto do vigário de que “o Tribunal Superior Eleitoral aprovou resoluções importantes para proibir deepfakes”. Aqueles que sempre foram vítimas da censura não apenas aplaudem, como ainda pedem mais.





