O artigo O lugar delas, de Paula Belmonte (deputada distrital pelo PSDB do Distrito Federal), publicado no sítio Poder 360 nesta terça-feira (9), é uma verdadeira fraude. Ainda que não deveria assustar ninguém que algum tucano leve adiante a política identitária.
Chama a atenção no texto, além do identitarismo, o total descolamento da realidade da mulher brasileira, pois a deputada inicia seu texto falando de seu dia a dia: “quinta-feira, 16h30. O gabinete segue movimentado. Entre gravações, reuniões e demandas que surgem a todo instante, o café ao lado da mesa já faz parte da rotina. Ao fundo, o som das teclas acompanha o ritmo acelerado da tarde. Mensagens chegando, prazos apertados, conversas atravessadas pela pressa, saída em poucos minutos. Tudo pede resposta imediata. Tudo parece urgente”.
Para a brasileira trabalhadora, esse horário da tarde não vai ter café. A saída não será em poucos minutos, e o que espera por elas é a condução abarrotada e a certeza de que passarão horas dentro do transporte público.
A pobre deputada diz que “o sol já começava a se despedir quando o telefone de uma das minhas assessoras tocou. Do outro lado da linha, a filha estava triste porque havia ficado sem par para a festa junina da escola”. Enquanto isso, a operária precisa ver se consegue uma creche para as crianças, pois as crianças ou ficaram sozinhas ou estão com os avós.
Paulo Belmonte diz que volta para os filhos “pensando na rotina da mulher contemporânea”, que vive “entre decisões no trabalho e bilhetes escolares, entre ligações inesperadas e culpas silenciosas, entre a necessidade de dar conta de tudo e o cansaço de nunca conseguir estar inteira em 1 só lugar”. É realmente tocante.
Enquanto isso, no STF…
É sintomático que a deputada diga que “a rejeição do advogado-geral da União, Jorge Messias, que pleiteava uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, despertou [nela] a curiosidade sobre a composição histórica das Cortes brasileiras” e que “os números dizem muito sobre o lugar que as mulheres ainda ocupam nos espaços de poder do país”.
Vamos a alguns números: “em 135 anos de história, o STF teve 172 ministros. Só 3 mulheres ocuparam cadeiras na Corte: Ellen Gracie, Cármen Lúcia e Rosa Weber. Nenhuma delas negra. Na prática, as mulheres representam aproximadamente 1,74% de todos os ministros que já passaram pelo principal tribunal do país”. Parece que a direita sequestrou a reivindicação preferida da esquerda pequeno-burguesa.
Adiante, a deputada escreve que “no Superior Tribunal de Justiça, o cenário também revela uma desigualdade histórica. Em 37 anos de existência, o tribunal teve 105 ministros, mas só 10 mulheres integraram a Corte. Nenhuma negra”, mas ela não é do PSOL, ou outro desses partidos que têm fetiche pela mulher negra no Supremo Tribunal Federal, é do PSDB.
Abaixo, Paula Belmonte repete mais três vezes o “nenhuma mulher negra”, passando pelo Tribunal Superior do Trabalho, Tribunal Superior Eleitoral e pelo Superior Tribunal Militar.
A despeito do profundo desalento que a falta da mulher negra nos tribunais causa na deputada, ela conforta as outras mulheres dizendo: “ainda assim, seguimos porque, de alguma forma, no fim do dia, nós conseguimos. Chegamos em casa depois de 1 dia inteiro de trabalho e ainda pensamos no jantar, ajudamos na tarefa das crianças, organizamos o dia seguinte e encontramos espaço para ouvir, acolher e cuidar. Até mesmo da frustração por ficar sem par na festa junina”. É um exemplo, um misto de abnegação e perseverança.
Fetichismo
Essa conversa de pessoas negras em “posições de mando” já vem de longa data. Os identitários, porém, não querem discutir que os Estados Unidos tiveram um presidente negro, uma Condoleeza Rice que foi secretária de Estado no governo de George W. Bush, a embaixadora Linda Thomas-Greenfield na ONU, que só sabe votar a favor do massacre de palestinos.
No Brasil, quando o homem negro no STF, Joaquim Barbosa, fez aquela lambança criminosa chamada Mensalão, o serviço sujo para a burguesia de condenar dirigentes petistas, ninguém gostava muito de tocar no assunto.
Uma das mulheres no STF, Rosa Weber, votou pela prisão de José Dirceu e confessou que não tinha provas contra ele. Onde estão agora os identitários?
Uma mulher negra no STF não muda absolutamente nada, a não ser para o Estado burguês que vai poder fingir melhor que é democrático e inclusivo.
Em vista das “mulheres negras” que indicaram para ocupar uma cadeira no Supremo, a esquerda pequeno-burguesa foi obrigada a mudar sua palavra de ordem para “Por uma mulher negra progressista no STF”, pois não falta lavajatista neste mundo.
O que importa são os interesses de classe. Uma mulher negra no STF vai defender os interesses da burguesia, só uns aloprados na esquerda pequeno-burguesa, que inclusive se dizem revolucionários, é que não entendem essa lei geral da política: a luta de classes.
Paula Belmonte quer “discutir representatividade feminina”, pois, supostamente, isso seria “também reconhecer que [as experiências delas] precisam deixar de existir só nos bastidores da sociedade para ocupar, cada vez mais, os lugares em que o futuro do país é decidido”.
Mas a deputada não está preocupada com a representatividade da mulher trabalhadora, e o futuro do País que ela propõe é o de um Brasil burguês esmagando a classe trabalhadora, onde quem sofre mais são as mulheres.
É interessante ver como o identitarismo casa tão bem com os tucanos, comprovando que o identitarismo, defendido por absolutamente toda a esquerda, é de direita.




