Delegações do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) e de outras forças palestinas avançaram nas negociações realizadas no Cairo, no Egito, para tentar reativar a aplicação do acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza. As reuniões contam com a mediação de Egito, Catar e Turquia e tratam da execução da segunda fase do plano apresentado pelos mediadores, originalmente estruturado sob a direção dos Estados Unidos.
Segundo informações divulgadas pela agência chinesa Xinhua o Hamas afirmou que houve progresso nas conversas com as organizações palestinas e com os mediadores internacionais. Taher al-Nunu, assessor de imprensa do chefe do birô político do movimento, declarou que a delegação do Hamas e as forças nacionais palestinas prepararam uma resposta conjunta, “nacional e responsável”, ao roteiro apresentado pelos mediadores para completar a aplicação do plano do presidente norte-americano Donald Trump.
A delegação do Hamas é liderada por Khalil al-Hayya, dirigente do movimento em Gaza, e chegou ao Cairo na sexta-feira (5) para uma rodada de vários dias de conversas. A reunião bilateral com Egito, Catar e Turquia antecede uma plenária com todas as organizações palestinas, na qual deve ser discutida a aplicação política e administrativa da nova etapa do acordo.
As negociações acontecem em meio ao fracasso prático do cessar-fogo anunciado em 10 de outubro de 2025. No papel, a primeira etapa previa troca de prisioneiros, entrada de ajuda humanitária, interrupção das hostilidades e retirada das tropas israelenses de algumas áreas da Faixa de Gaza. Na prática, a população palestina continuou submetida a bombardeios, incursões militares, tiros contra civis, bloqueios e restrições à entrada de alimentos, remédios e material básico.
Segundo o governo de Gaza, as forças israelenses cometeram 3.005 violações do acordo de cessar-fogo desde sua entrada em vigor, ao longo de 227 dias. Entre as violações estão bombardeios, ataques diretos contra civis, disparos e incursões repetidas em áreas residenciais. O Ministério da Saúde de Gaza denunciou ainda que os ataques israelenses mataram 970 civis palestinos desde a declaração do cessar-fogo.
A segunda fase do acordo prevê pontos decisivos: retirada completa das forças israelenses, ampliação da ajuda humanitária, início das operações de reconstrução e criação de uma estrutura administrativa para a Faixa de Gaza.
Segundo as informações divulgadas, uma das propostas é que um comitê nacional palestino assuma a administração civil de Gaza. Ao mesmo tempo, o plano prevê supervisão direta de um conselho liderado por Trump.
A exigência de desarmamento do Hamas, também incluída na discussão da segunda fase, segue a mesma linha. Enquanto “Israel” mantém um dos maiores aparelhos militares do mundo, armado, financiado e protegido pelos Estados Unidos, exige-se que a resistência palestina entregue suas armas. Ou seja, o imperialismo quer transformar o cessar-fogo em rendição política.
Taher al-Nunu afirmou que as conversas continuam em torno de questões não resolvidas da primeira etapa do cessar-fogo. Entre os pontos discutidos estão a consolidação dos direitos políticos palestinos, a aceleração da criação do Comitê Nacional para a Administração de Gaza e a intensificação da entrega de ajuda humanitária.
Segundo o dirigente, as negociações também tratam do início das operações de socorro e reconstrução e da retirada completa de “Israel” da Faixa de Gaza, de modo a garantir a segurança do povo palestino. Ele afirmou que as partes demonstraram “alto grau de positividade e responsabilidade” para chegar a um acordo aceitável.
A ajuda humanitária é um dos pontos mais urgentes. Mesmo após a entrada em vigor do acordo, fontes palestinas e internacionais denunciaram que a restrição ao fluxo de ajuda e a limitação dos deslocamentos civis continuaram agravando a crise no território. A fome, a destruição de hospitais, a falta de moradia e o colapso da infraestrutura básica seguem sendo usados como armas contra a população de Gaza.
O caso de Gaza mostra o funcionamento da política imperialista no Oriente Médio. Os Estados Unidos apresentam um plano de paz, mas continuam sustentando politicamente “Israel”, o mesmo Estado que viola o cessar-fogo milhares de vezes. O resultado é que a ocupação mantém a iniciativa militar, enquanto a resistência palestina é pressionada a aceitar condições impostas de fora.
A primeira fase do acordo não foi cumprida integralmente. A segunda fase, por sua vez, só terá algum sentido real se significar o fim da agressão militar, a entrada livre de ajuda humanitária, a reconstrução de Gaza e a retirada completa das tropas israelenses. Sem isso, qualquer plano será apenas uma forma de administrar a ocupação.
O fato de o Hamas estar no Cairo discutindo os termos do acordo com mediadores internacionais mostra que a resistência palestina não foi derrotada. Apesar da destruição, dos assassinatos em massa, do cerco e da campanha mundial contra o povo palestino, “Israel” foi obrigado a negociar.
A ocupação sionista tentou esmagar Gaza pela força. No entanto, depois de meses de guerra, bloqueio e massacres, ainda precisa lidar com as organizações palestinas como força política real.





