Polêmica

É a direita, e não a esquerda, quem defende a ‘democracia’

Se é isso que a esquerda tem a oferecer, o voto e uma promessa de futuro, a única coisa que se pode esperar é o crescimento da extrema direita

Comuna de Paris

O artigo A direita está a desaparecer: a opção é entre esquerda e extrema direita de Boaventura de Sousa Santos, publicado no Brasil 247 nesta sexta-feira (5), procura fazer uma análise histórica para explicar a atual conjuntura. No entanto, após 33 mil caracteres, não tem nada a oferecer.

Segundo o autor, quem deseja preservar a “democracia” deve apoiar os partidos e candidatos de esquerda, porque considera que a extrema-direita utiliza as instituições democráticas para chegar ao poder, mas irá enfraquecê-las. Para ele, o principal desafio do futuro será criar uma forma de “democracia” capaz de resistir ao avanço do autoritarismo sem repetir os problemas que levaram à crise da democracia liberal contemporânea.

Essa “forma de democracia” já mostrou que não é suficiente e que não é capaz de propor mudanças reais para a classe trabalhadora. É o caso do Brasil, que após 20 anos de PT no poder, não viu nenhum avanço significativo. Para piorar, o Partido dos Trabalhadores é identificado como o próprio sistema, pois tem se aliado a um Congresso antipopular e a um Judiciário mais nocivo ainda.

Reproduzimos abaixo integralmente o primeiro parágrafo do texto:

“Escrevo este texto a pensar nas Américas e na Europa, mas os fenômenos que analiso aplicam-se, com modificações, a outras regiões do mundo. Estamos à beira de uma nova guerra mundial, enfrentamos o iminente colapso ecológico, assistimos ao fim do direito internacional e ao fim da distinção entre democracia e autocracia. O paradigma político da modernidade eurocêntrica globalizou-se na medida em que transformou a democracia (a democracia liberal) no único regime político legítimo. Com base em exemplos concretos, é tempo de verificar que esse processo histórico está esgotado e produz efeitos perversos: a democracia liberal existe hoje sobretudo para criar e legitimar ditaduras, as instituições democráticas estão a cometer suicídio como forma normal de operar. Há resistência, mas ela só será eficaz se quem resiste tiver a lucidez de reconhecer a gravidade do que está a acontecer e a importância do que está em causa.”

Pegando o parágrafo pelo final, o autor diz, acertadamente, que “a democracia liberal existe hoje sobretudo para criar e legitimar ditaduras”, no entanto, as esquerdas ditas revolucionárias, em sua maioria, estão propondo que as classes trabalhadoras passem para o campo das democracias liberais em nome de se combater a extrema-direita.

O autor recua no tempo para dizer que “a incompatibilidade entre capitalismo e democracia está a atingir um nível que torna a direita tradicional e o centrismo obsoletos. A contradição entre capitalismo e democracia é o fundamento de todas as opções políticas da época moderna, isto é, pós-Revolução Francesa.”

A democracia nada mais é que uma forma de governo que a burguesia utiliza para governar. Sendo assim, quando Boaventura de Sousa Santos diz que “a contradição fundamental entre democracia e capitalismo é esta: enquanto a democracia assenta nas ideias de soberania popular e de cidadania nacional como formas de compatibilizar as tensões entre os três conceitos normativos, o capitalismo tem por objetivo a acumulação infinita tornada possível pela incessante ampliação do mercado”, está deixando de lado o fundamental: o que importa é o conteúdo de classe.

Quem está em contradição são os interesses burgueses e os da classe trabalhadora, e a burguesia vai governar “democraticamente”, ou por meio do fascismo, de acordo com as necessidades de cada momento.

Logo após a II Guerra Mundial, o imperialismo “democrático” espalhou uma série de golpes pelo mundo para impedir revoluções e controlar os mercados e recursos mundiais. Na América Latina, no Oriente Médio, na Ásia, foram levadas ao poder ditaduras militares, monarquias sanguinárias, todas a serviço do grande capital.

Foi o saque das riquezas promovido nos países atrasados que propiciou o estado de bem-estar social e a “democracia” na Europa e nos Estados Unidos.

Agora, que a crise se aprofundou, o imperialismo é obrigado a abandonar sua face democrática e mostrar impor restrições cada vez maiores, como a censura e a prisão política.

A crise

Segundo o autor, “o colapso é sempre o ponto final de uma crise que decorre ao longo do tempo. A crise da social-democracia tornou-se evidente a partir do chamado Consenso de Washington, em meados da década de 1980, que decretou a insustentabilidade do modelo do capitalismo social-democrata e proclamou como único modelo global do capitalismo uma versão até então minoritária dentro da teoria económica e que só tinha sido posta inteiramente em prática em condições de ditadura: a ditadura de Pinochet que se seguiu ao golpe de Estado de 1973 contra o presidente Salvador Allende do Chile, orquestrado pela CIA e por Henri Kissinger.”

Olhando o problema mais de perto, foi a derrota no Vietnã que colocou em xeque a dominação imperialista e levou à crise do petróleo em 1973. Pinochet e seu golpe são ainda parte da doutrina iniciada em 1946.

Na década de 1980, o neoliberalismo conseguiu desestabilizar a União Soviética, deu um certo fôlego e marcou uma ofensiva do capital sobre o trabalho, especialmente com o deslocamento de setores produtivos inteiros para os chamados Tigres Asiáticos e depois para a China.

O avanço neoliberal, sem que o grande capital fosse capaz de adivinhar, corroeu as economias dos países avançados.

A crise tem aumentado a polarização e a esquerda não tem conseguido apontar um caminho. Está cada vez mais claro que as mudanças sociais não virão do voto. Mesmo assim, Boaventura diz que “no atual contexto americano e europeu, não resta aos democratas outra opção do que votar no partido ou no candidato presidencial de esquerda”

Se é isso que a esquerda tem a oferecer, o voto e uma promessa de futuro, a única coisa que se pode esperar é o crescimento da extrema direita, que é quem tem um discurso antissistema.

Apesar da longa análise que o autor busca fazer, ela não tem efeito prático, cai no vazio. A única solução possível virá das massas quando essas entrarem em cena, pois a classe trabalhadora ainda se encontra em refluxo. Isso, no entanto, não deverá durar muito, dado que o imperialismo, em sua urgência, afunda o mundo em um conflito de grandes proporções.

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