O Esquerda Diário (MRT – Movimento Revolucionário de Trabalhadores), no artigo A despedida de Marjane Satrapi e o legado de Persépolis, assinado por Nancy Mendéz, publicado nesta quinta-feira (4), aproveita a morte da autora iraniana para atacar a Revolução Islâmica, um movimento popular que pôs fim ao reinado do xá Reza Pahlavi, fantoche do imperialismo e responsável pela miséria no Irã, apesar de o país ser riquíssimo em petróleo e gás natural.
No primeiro parágrafo, o texto diz que “aos 56 anos, naquela Paris que adotou como trincheira e exílio, a tinta de Marjane Satrapi ficou sem fôlego. A imprensa francesa confirmou a triste notícia através de um comunicado familiar, a autora de Persepólis, a autora que havia sobrevivido aos bombardeios de Teerã e aos fundamentalismos de dois mundos, faleceu hoje. Faz mais de um ano que havia sofrido a perda de seu companheiro de vida Mattias Ripa, o ator e produtor que se foi muito jovem em abril de 2025”.
O bombardeio que o Irã sofreu foi fruto de uma guerra na qual o Iraque foi atirado contra o país na tentativa de destruir a Revolução de 1979. O conflito durou 8 anos com o saldo de pelo menos 1,5 milhão de mortos.
Na sequência, o Iraque de Saddam Huesseim, utilizado pelo imperialismo contra o país vizinho, foi ele mesmo atacado e destruído pelos seus antigos “aliados”, que mataram mais de um milhão de pessoas, a maioria civis.
Revolução “capturada”
Sobre Persépolis, uma história em quadrinhos autobiográfica, o artigo diz que “o relato autobiográfico de Satrapi começa ao calor da revolução de 1979, é um dos exemplos de como um movimento de massas com profundas aspirações democráticas e sociais pode ser cooptado por forças reacionárias. A falta de uma alternativa política independente as forças burguesas e a colaboração de classe por parte da esquerda iraniana foram fatores determinantes no desenvolvimento da revolução. Apesar das promessas iniciais de justiça social e equidade, o regime islâmico mostrou seu caráter repressivo: implementou um restrito código islâmico que transformou a sociedade, consolidou seu poder de forma interna através do impacto devastador da guerra contra o Iraque (1980-1988) e começou uma perseguição sistemática contra os opositores políticos, homossexuais, minorias étnicas, e de forma implacável, contra as mulheres.”
É falsa a afirmação de que a revolução teria sido cooptada por “forças reacionárias”. A revolução é fruto direto de clérigos que se engajaram na luta contra a ditadura Pahlavi. O aiatolá Khamenei relata em seu livro, Cela nº 14, a importância da mesquita Karamat.
A Mesquita Karamat não era uma mesquita especialmente famosa na história do Irã antes dos anos 1970. O que a tornou importante foi o papel que desempenhou como centro de articulação social e política da oposição islâmica ao xá, sob a liderança de Khamenei. Segundo o próprio relato, após atuar na pequena Mesquita Imam Hasan, ele transferiu suas atividades para a Mesquita Karamat, em Mashhad. A localização era estratégica: ficava próxima ao santuário do imã Reza, aos seminários religiosos (hawza), à universidade e ao bazar da cidade. Isso permitia que grupos sociais normalmente separados passassem a se encontrar no mesmo espaço.
Os frequentadores incluíam:estudantes dos seminários religiosos, universitários; comerciantes do bazar; jovens militantes islâmicos e intelectuais religiosos.
Segundo Khamenei, a importância da mesquita estava justamente em unir esses setores. Um dos desafios da oposição iraniana era aproximar o clero tradicional da juventude universitária politizada. A Karamat tornou-se um dos lugares onde essa aproximação ocorreu.
Além das orações, eram realizadas palestras religiosas, discussões políticas, atividades educativas, encontros de planejamento, formação ideológica de jovens simpatizantes da oposição.
O crescimento dessas atividades chamou a atenção das autoridades. Khamenei relata que o governo acabou proibindo sua atuação como líder das orações na mesquita porque ela havia se transformado em um polo de mobilização social e política. Ou seja, a ideia de que a revolução foi “capturada” é completamente falsa.
A visão de Marjane
O livro Persépolis precisa ser entendido como uma das facetas da revolução que, como qualquer movimento desse tipo, impacta a vida das pessoas de diversas maneiras.
Setores de classe média, como era o caso da autora, perceberam a revolução a partir de sua percepção de classe. Para uma criança que tinha determinadas preferências, a revolução acabou atacando símbolos culturais como o rock, identificados com o imperialismo, que manteve a população do país durante décadas jogada na mais amarga pobreza e sob o chicote de uma ditadura cruel.
Enquanto a pequena burguesia enxerga “consolidação da teocracia reacionária de Khomeini, que baseou seu poder na perseguição à vanguarda operária, aos setores críticos e aos partidos de esquerda”, o povo iraniano hoje lota as ruas em defesa da revolução e em apoio cada vez maior ao governo.
O uso do véu, tão questionado em Persépolis, e pelo mundo “democrático” que financia o assassinato de crianças e mulheres na Faixa de Gaza, deixou há tempos de ser um problema, muitas mulheres não utilizam e nem por isso são perseguidas, o que é resultado da Revolução Islâmica.
A perseguição aos partidos de esquerda no Irã obedeceu a uma lógica simples, muitos deles se alinharam ao Iraque durante a guerra, ou seja, eram contrarrevolucionários.
Apoio ao imperialismo
A crítica à “teocracia” iraniana é, na verdade, a defesa da “democracia”. A democracia aqui, bem entendida, é a democracia burguesa, que supostamente estaria em oposição ao fascismo.
Essa “democracia”, no entanto, é a mesma que está impondo a censura no mundo todo, que tem prendido pessoas por criticaram o genocídio em Gaza. Na Alemanha, por exemplo, se alguém disser a frase “Palestina livre do rio ao mar”, vai para a prisão.
No Reino Unido, mais de 20 mil pessoas foram detidas por se oporem ao massacre de palestinos.
Diante desse quadro, a maioria da esquerda, em vez de apoiar quem está combatendo essas “democracias”, ou seja, o imperialismo, ataca, diz que são fundamentalistas. O que nada mais é que um apoio à burguesia, a inimiga natural da classe trabalhadora.





