Paulo Marçaioli

Formado em direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP e dono do blog Esperando Paulo

Coluna

A Vida de Heitor Villa-Lobos

Villa-Lobos acreditava na importância decisiva da arte e da música em particular

“Villa-Lobos empunha a batuta da ‘música brasileira’ inspirada nas canções e no folclore e suas obras têm, todas, um calor tropical bem decidido e um ritmo requintado e típico que se rebela a qualquer fórmula, lei ou regra, demonstrando ao vivo caráter do brasileiro legítimo, não filho de uma civilização estrangeira e importada, mas descendente da mistura de sangue dos índios, dos pretos e dos portugueses”. Carlos Torres Pastorino

O Brasil tem uma grande dívida para com Heitor Villa-Lobos. Ele que foi o maior compositor, maestro e instrumentista da história nacional até hoje tem maior reconhecimento no estrangeiro do que no seu próprio país. O que não deixa de ser curioso já que sua arte tem um conteúdo fortemente nacionalista, pautado na pesquisa de campo que realizou sobre a cultura e o folclore do Brasil.

Mário de Andrade num artigo publicado na imprensa em 1930 evidencia essa dívida que os brasileiros têm com o artista carioca:

“Que Villa-Lobos tenha enfim no Brasil uma consagração digna dele, é o que desejo. Nós ainda não presenciamos com clareza o que ele representa para o Brasil. (…) Ele tornou o Brasil uma coisa humana de permanência viva na consciência de milhares de estrangeiros”.

Heitor Villa-Lobos nasceu em 05 de Março de 1887 na cidade do Rio de Janeiro. Seu pai era compositor e o introduziu na música logo aos seis anos, quando o menino começou a estudar violoncelo. O pai morreu quando ainda era criança e consta que sua mãe não queria que se tornasse músico – estudava piano escondido e foi se desenvolvendo de forma independente.

Essa é uma caraterística do músico que teria influência na sua concepção da arte: o autodidatismo e a aversão completa ao academicismo.

Em 1907 chegou a se matricular no Instituto Nacional de Música no Rio de Janeiro, mas abandonaria o curso após poucos meses para viajar pelo país: passou por Goiás, Mato Grosso e pela Amazônia. Ainda jovem, fez uma excursão com um amigo boêmio pelo interior dos Estados do Norte e do Nordeste, coletando material do folclore e da cultura popular. Ganhavam dinheiro fazendo pequenas apresentações musicais.

Atravessando o Rio São Francisco, sua canoa virou, fazendo com que perdessem os instrumentos musicais, fonte do ganha pão. No Acre, pegou malária e conheceu um grupo de bolivianos, para quem pagou cachaça e em troca recebeu material folclórico.

Essa peregrinação pelos rincões brasileiros criaria as bases da sua música. O próprio nome dessas obras já sugere a dimensão popular da sua criação artística: “O Papagaio do Moleque (1932)”, “Saci Pererê” (1917), “Amazonas” (1917)”, “Lenda do Caboclo” (1920) e o conhecido “Trenzinho Caipira” das Bachianas Brasileiras.

A sua música explora expressões musicais dissonantes, não como forma de experimentalismo – orientação contra a qual o autor se opõe – mas como melhor meio de captar a realidade do povo e da natureza brasileira.

O autor cita o exemplo da música do nordeste:

“Penetrando no nordeste, vamos encontrar uma população extremamente miserável, mas que encara a vida com muita filosofia. Muito magro, esses homens parece que se confundem com a natureza que os rodeia. Estamos no Ceará. Lá se canta de uma maneira diferente, utilizando uma espécie de quarto tom especial. O canto parece sempre desafinado. Se fizemos ouvir a um cantador um acorde perfeito, ele não perceberá a “perfeição”. E não gostará do acorde. Mas se afrouxarmos um pouco a afinação, ele ficará contente. O que quer dizer que essa gente está muito mais próxima do mundo físico, do que das convenções musicais. Tudo isso, todas estas observações, me inspiram reflexões profundas. E é por este motivo que eu escrevo música dissonante. Não escrevo dissonante para parecer moderno. De maneira nenhuma. O que escrevo é consequência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil”.

O próprio “Trenzinho Caipira” revela essa conexão entre os sons e a realidade: as batidas dos trilhos, o apito do trem, o movimento dos passageiros, a marcha do repercutindo através dos instrumentos de percussão e os apitos através dos instrumentos de sopro, todos esses aspectos mesclados na música clássica. (https://www.youtube.com/watch?v=wIG4h7lvj4Y)

Villa-Lobos teve ainda importância no país como propagandista do ensino musical nas escolas. Na condição de apoiador da Revolução de 1930, iniciou naquele ano um movimento em prol do ensino popular de música no Brasil. São preocupação não era formar instrumentistas, ensinar crianças e adolescentes a lerem partituras. O objetivo era habituar o povo à música de alta qualidade, formar um público atento àquilo que é uma expressão artística genuína e verdadeira em detrimento da “música-papel”, que não tem alma e naturalidade.

Villa-Lobos acreditava na importância decisiva da arte e da música em particular. Tinha razão ao dizer que a música jamais irá desaparecer, sendo tão útil ao homem como o pão e a água. A música, neste caso, é o alimento da alma.

Bibliografia

“O Pensamento Vivo de Heitor Villa-Lobos” – João Carlos Ribeiro (Org). Ed. Martim Claret.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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