O secretário-geral do Hesbolá, xeique Naim Qassem, denunciou nesta quinta-feira (4) a declaração sobre o Líbano patrocinada pelos Estados Unidos como uma tentativa de impor a submissão do país aos interesses de “Israel”. A fala ocorreu após o anúncio de um suposto cessar-fogo entre o Líbano e “Israel”, firmado depois de uma reunião trilateral de alto nível realizada nos EUA.
Segundo Qassem, o documento estabelece “os princípios fundamentais por meio dos quais os Estados Unidos e ‘Israel’ buscam a submissão do Líbano ao projeto da ‘Grande Israel’”. Ele afirmou que a declaração pretende “semear a discórdia entre os libaneses” e permitir que “Israel” obtenha pela política o que não conseguiu pela guerra.
O dirigente do Hesbolá afirmou que fazer do desarmamento da Resistência o ponto de partida de qualquer acordo significa retirar do Líbano sua principal força diante da ocupação. Para ele, essa exigência representa uma ameaça existencial contra o povo libanês que resiste à agressão israelense.
“A declaração tem como objetivo enfraquecer o Líbano, desestabilizar o país e semear a discórdia entre o povo libanês”, afirmou Qassem, acrescentando que se trata de “um roteiro para o extermínio de uma parte do povo libanês e a submissão do restante”.
O acordo patrocinado pelos EUA prevê que a implementação do cessar-fogo fique condicionada à interrupção completa dos ataques do Hesbolá e à retirada de seus combatentes das áreas ao sul do rio Litani. O texto também prevê a criação de “zonas-piloto”, nas quais as Forças Armadas Libanesas assumiriam o controle exclusivo, sem a presença de organizações como o Hesbolá.
“Israel”, por sua vez, afirmou que sua segurança depende do desarmamento do Hesbolá e do desmantelamento de sua estrutura no Líbano. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, declarou que o acordo permite a permanência das tropas israelenses na chamada “área de segurança” e garante a “liberdade de ação” para atacar Beirute caso haja ações contra comunidades israelenses.
Qassem rejeitou as negociações diretas, classificando-as como “inúteis, humilhantes e vergonhosas”. O secretário-geral pediu às autoridades libanesas que encerrem “essa farsa e humilhação conhecida como negociações diretas” e afirmou que o chamado eixo de segurança significa, na prática, rendição diante da agressão israelense.
O dirigente afirmou que a Resistência está interessada apenas em encerrar a agressão de maneira completa, com um cessar-fogo real e a retirada de “Israel” do território libanês. “O cessar-fogo deve ser abrangente”, declarou, acrescentando que não pode haver distinção entre o sul do Líbano e o restante do país.
Qassem também afirmou que “o inimigo não pode receber liberdade para assassinar no Líbano”. Segundo ele, as condições centrais para qualquer acordo são a retirada das forças israelenses do território libanês, o envio do Exército Libanês para o sul do rio Litani e a libertação dos prisioneiros.
“Enquanto a ocupação permanecer, a Resistência continuará”, afirmou. “Não assumimos nenhum compromisso com ninguém de não resistir à agressão ou de não responder a ela.”
O secretário-geral do Hesbolá acrescentou que, enquanto as aldeias libanesas não estiverem seguras, forem bombardeadas e destruídas, e enquanto o povo libanês estiver sendo assassinado, os assentamentos israelenses também não estarão seguros. “Eles verão nossa força e nossa determinação”, afirmou.
A denúncia do Hesbolá ocorre no momento em que “Israel” mantém ataques no sul do Líbano mesmo após o anúncio do cessar-fogo. A agência estatal libanesa NNA informou que quatro estrangeiros, dois sírios e dois bangladeshianos, foram feridos em um ataque aéreo israelense na região de Nabatieh. A agência também informou bombardeios contra as localidades de Jebchit e Arnoun.
A Defesa Civil libanesa orientou a população a não retornar ao sul do país apesar do anúncio de trégua. Segundo relato feito a partir de Tiro, houve ataques aéreos em Kafra e Mansouri, voos de aviões e VANTs israelenses em baixa altitude e disparos de artilharia, especialmente na região de Naqoura.
O Exército libanês informou que reabriu a estrada Marjeyoun-Debbine-Ibl al-Saqi, após a retirada israelense da área de Debbine. A instituição afirmou que unidades especializadas realizavam uma varredura de engenharia para retirar artefatos explosivos não detonados e orientou os civis a não se aproximarem da região.
O Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) também se pronunciou sobre o Líbano e afirmou que não haverá paz na região sem a retirada de “Israel” do território libanês. Em nota divulgada pela agência iraniana Tasnim, o CGRI afirmou que sua condição inicial para aceitar um cessar-fogo na guerra regional era uma paralisação das hostilidades em todas as frentes, incluindo o Líbano.
“O inimigo deve interromper urgentemente seus ataques contra o povo libanês e retirar-se imediatamente para trás das fronteiras internacionais, evacuando os territórios ocupados do Líbano e reconhecendo a integridade territorial do Líbano”, afirmou a Guarda Revolucionária.
Mesmo diante do anúncio de trégua, o Hesbolá informou novas ações contra forças israelenses no sul do Líbano. O partido afirmou que seus combatentes atacaram com VANTs uma concentração de soldados israelenses nas proximidades de Yohmor al-Xaqif e na localidade de Raxaf. Também informou um ataque contra veículos e soldados israelenses em al-Qantara.
A emissora israelense Kan informou que um VANT do Hesbolá atingiu o veículo do chefe do Comando Norte de “Israel”, major-general Rafi Milo, no sul do Líbano, pouco depois de ele deixar o automóvel. Segundo a emissora, não houve mortos ou feridos no ataque.
O presidente libanês Joseph Aoun afirmou que o processo de negociação produziu pontos favoráveis ao Líbano e disse que os EUA definirão o momento e o mecanismo de implementação do cessar-fogo. Segundo ele, Donald Trump atuará como garantidor direto do acordo. Aoun também agradeceu ao Catar por sua atuação nas conversas.
O ministro da Defesa de “Israel”, Israel Katz, comemorou o entendimento como “uma grande conquista” no terreno e na diplomacia. Já o ministro israelense da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, criticou o acordo, chamando-o de “erro grave” e afirmando que o Hesbolá não foi derrotado.
Qassem, por sua vez, afirmou que a unidade nacional libanesa diante da agressão continua sendo uma fonte de força e defendeu que as divisões internas sejam tratadas após o enfrentamento da agressão israelense. Segundo o dirigente, “a prioridade é que o povo do país chegue a um entendimento para enfrentar a agressão”.
O secretário-geral do Hesbolá também agradeceu ao Irã por seus esforços para obter uma paralisação abrangente da agressão contra o Líbano, como parte da interrupção mais ampla da agressão contra o próprio Irã. Ele afirmou que a Revolução Iraniana avançou em diversas frentes e apoiou organizações de libertação, apesar das dificuldades enfrentadas.
Qassem disse ainda que o imperialismo e os Estados Unidos não aceitam o Irã como um modelo de independência e justiça, mas querem submetê-lo aos seus interesses e à sua dominação. Segundo ele, a Resistência no Líbano se inspirou no pensamento do imame Khomeini, mas luta “por nossa terra e nosso povo”.





