O governo norte-americano está insatisfeito com a neutralidade de Omã no conflito de agressão contra o Irã, segundo reportagem do Wall Street Journal divulgada nesta terça-feira (2). A pressão ocorre em meio à disputa pelo Estreito de Ormuz e após avaliações da inteligência dos EUA apontarem que Omã discutiu um possível entendimento com o Irã para cobrar taxas de navios que atravessam a passagem marítima.
A ofensiva norte-americana marca uma mudança dura contra um aliado histórico dos EUA no Golfo Pérsico. Omã, que há décadas mantém uma política externa de neutralidade e atua como mediador entre os EUA e o Irã, passou a ser tratado pelo governo Trump como obstáculo aos interesses norte-americanos na região. Autoridades dos EUA afirmam estar cada vez mais contrariadas com a posição de Omã, especialmente diante da recusa do sultanato em condenar abertamente ações iranianas no estreito.
O presidente Donald Trump respondeu aos relatos com ameaças de sanções econômicas e uso de força militar. Durante uma reunião de gabinete, Trump afirmou que Omã teria de agir “como todo mundo” ou os EUA teriam de “explodi-los”. A declaração foi interpretada como ameaça direta de bombardeio contra o sultanato, apesar de Omã ser tradicionalmente tratado como parceiro estratégico dos norte-americanos.
A pressão também veio do Departamento do Tesouro. O secretário Scott Bessent ameaçou impor sanções caso Omã avance em qualquer plano de cobrança de taxas sobre embarcações que passam pelo Estreito de Ormuz. Segundo Bessent, o embaixador de Omã nos EUA, Talal Alrahbi, deu garantias de que o país não pretende implementar pedágios na via marítima. Ainda assim, os EUA passaram a afastar Omã de discussões diplomáticas, alegando perda de confiança.
O governo de Omã nega ter a intenção de restringir a livre navegação ou cobrar taxas de forma unilateral. O ministro da Informação, Abdulla al-Harrasi, afirmou que o sultanato continua “pronto para trabalhar com os Estados Unidos e todos os parceiros responsáveis” para promover a estabilidade regional e proteger interesses comuns. Omã sustenta que manter canais abertos com o Irã é essencial para evitar uma escalada militar ainda maior no Golfo Pérsico.
Após as ameaças de Trump, o Irã declarou “solidariedade total” a Omã. O governo iraniano interpreta a pressão norte-americana como tentativa de isolar ainda mais a República Islâmica e impedir qualquer mediação regional que não esteja subordinada aos interesses dos EUA. A relação entre Irã e Omã sempre foi um dos principais canais diplomáticos usados em momentos de crise, inclusive nas negociações que levaram ao acordo nuclear de 2015.
A crise ganhou força depois que o Irã anunciou a criação da Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, conhecida pela sigla em inglês PGSA. O órgão foi apresentado como responsável por regular o trânsito marítimo e arrecadar taxas de embarcações comerciais que atravessam o Estreito de Ormuz. A medida transformou uma antiga ameaça iraniana em uma estrutura administrativa concreta, ampliando a pressão sobre uma das rotas comerciais mais estratégicas do mundo.
Como parte da campanha de “pressão máxima”, chamada de “Fúria Econômica”, o Departamento do Tesouro dos EUA incluiu a PGSA em sua lista de sanções no fim de maio. A medida foi tomada pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, o OFAC, congela eventuais ativos da entidade e proíbe negócios globais com o órgão ligado ao Irã. Os EUA buscam impedir que o Irã converta sua posição geográfica e militar no estreito em fonte formal de receita e influência política.
A posição de Omã é central porque a península de Musandam se projeta sobre o Estreito de Ormuz, colocando o sultanato em papel decisivo na passagem. As principais rotas de águas profundas usadas por petroleiros internacionais atravessam águas territoriais de Omã, o que dá ao país autoridade técnica sobre esquemas de separação de tráfego, segurança marítima e circulação de navios.
Essa geografia torna Omã peça indispensável em qualquer tentativa de regular o estreito. Para os EUA, porém, a neutralidade de Omã passou a ser tratada como tolerância em relação ao Irã. Para o sultanato, romper canais com a República Islâmica significaria abandonar seu papel histórico de mediador e aumentar o risco de uma guerra regional.




