Quênia

Povo reage a tentativa dos EUA de exportar contaminados com Ebola

Mobilização ocorreu dias depois de o Tribunal Superior do Quênia suspender o plano, que previa abrigar cidadãos norte-americanos possivelmente expostos ao vírus

Centenas de quenianos bloquearam estradas e queimaram pneus em Nanyuki, no Quênia, na segunda-feira (1º), contra a proposta dos EUA de instalar um centro de quarentena para ebola na Base Aérea de Laikipia. A mobilização ocorreu dias depois de o Tribunal Superior do Quênia suspender o plano, que previa abrigar cidadãos norte-americanos possivelmente expostos ao vírus.

A revolta popular tomou as ruas de Nanyuki, cidade próxima à Base Aérea de Laikipia, após a divulgação do plano apoiado pelos EUA. Manifestantes marcharam em direção à entrada da base, gritaram palavras de ordem contra a presença de pessoas possivelmente expostas ao ebola e incendiaram pneus para bloquear vias. Durante os protestos, duas pessoas foram mortas a tiros, segundo a BBC.

A instalação proposta pelos EUA tinha como objetivo receber cidadãos norte-americanos que pudessem ter sido expostos ao vírus ebola. A medida fazia parte de uma iniciativa do governo Trump para manter a doença fora dos EUA, transferindo parte do risco sanitário para o território queniano. A proposta gerou forte reação porque o Quênia não registrou infecções por ebola, enquanto o surto continuava a se espalhar na República Democrática do Congo (RDC).

O Instituto Katiba apresentou uma ação judicial contra o plano, alegando que a instalação representaria risco à saúde pública. O argumento central foi que o Quênia poderia ser transformado em ponto de recepção de pessoas expostas a uma doença grave sem que houvesse surto no país. O Tribunal Superior do Quênia aceitou a preocupação e ordenou a suspensão do projeto.

Os EUA anunciaram, em paralelo, um plano de ajuda de US$13,5 milhões para fortalecer a preparação queniana diante de um possível surto. O anúncio não acalmou a população. Para os manifestantes, a promessa de recursos era um insulto, já que o plano poderia provocar uma crise sanitária de grandes proporções.

O ministro da Saúde do Quênia, Aden Duale, afirmou no domingo que o centro planejado atenderia “todos” e não seria reservado apenas a cidadãos norte-americanos. A explicação, porém, não conteve a indignação. A acusação de que os EUA buscavam transferir o risco sanitário para um país africano alimentou a mobilização popular e ampliou a pressão contra o governo queniano.

Nos EUA, especialistas em saúde, incluindo ex-integrantes dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), também pediram ao Congresso que derrubasse a iniciativa. Em carta a parlamentares, eles alertaram para problemas clínicos, éticos, operacionais e legais. O grupo afirmou que criar instalações temporárias de quarentena e tratamento no exterior, enquanto as respostas sanitárias já estão pressionadas, poderia abrir um precedente perigoso.

A suspensão judicial do plano foi recebida como uma vitória parcial pelos manifestantes, embora a mobilização tenha deixado dois mortos e elevado a tensão na região.

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