Depois de meses tentando mostrar boa vontade a Donald Trump, oferecendo cooperação na área mais criminosa do imperialismo — a repressão —, Lula foi surpreendido com o anúncio de que os Estados Unidos irão classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. Ou seja: o presidente brasileiro aceitou entrar no jogo norte-americano do “combate ao crime organizado”, abriu caminho para “parcerias” com o aparato de repressão dos Estados Unidos e, no fim, não conseguiu sequer impedir aquilo que dizia querer evitar.
A decisão foi anunciada por Marco Rubio, secretário de Estado de Trump, e passa a valer em 5 de junho. A classificação como “terrorista” é justamente o instrumento que o imperialismo utiliza para aplicar sanções, bloquear operações financeiras, perseguir empresas, espionar a população e, quando lhe convém, justificar operações militares.
O governo brasileiro sabia disso. Sabia tanto que tentou evitar a designação. Já havia rejeitado, em 2025, pedido norte-americano para que PCC e CV fossem tratados como organizações terroristas. Mesmo assim, em vez de denunciar frontalmente a chantagem, Lula preferiu negociar. O governo apresentou aos norte-americanos a proposta de uma cooperação contra lavagem de dinheiro, tráfico de armas e crime transnacional. Fernando Haddad chegou a dizer que os Estados Unidos encaminhariam uma proposta de parceria com o Brasil após uma ligação entre Lula e Trump, tratando da integração entre Polícia Federal, Receita Federal, Coaf e órgãos norte-americanos.
O governo Lula tentou salvar a soberania nacional cedendo soberania nacional. Tentou impedir que o imperialismo avançasse sobre o Brasil convidando o imperialismo a entrar pela porta da frente. O resultado está aí. Trump não aceitou a negociação. Fez exatamente o que queria fazer. E pior: fez depois de receber o provável adversário do petista nas eleições, Flávio Bolsonaro, que foi pedir justamente essa medida e agora tenta apresentá-la como trunfo.
A política de colaboração com o imperialismo produziu, portanto, dois efeitos desastrosos. De um lado, fortaleceu o aparato repressivo norte-americano dentro da política brasileira. De outro, entregou à extrema direita bolsonarista uma bandeira para as eleições de 2026, desmoralizando profundamente o governo.
A desculpa do “combate ao crime organizado” é velha. Foi com a “guerra às drogas” que os Estados Unidos militarizaram a Colômbia, intervieram no México, reforçaram sua presença no Caribe e criaram pretextos para esmagar governos e povos inteiros na América Latina.
O crime organizado é produto da decomposição social, da miséria, do desemprego, da destruição das condições de vida do povo e do próprio funcionamento do Estado burguês. Transformar esse problema em questão de “terrorismo” é submeter o País aos serviços de informação do imperialista. A política correta seria a oposta: rejeitar publicamente a classificação norte-americana, denunciar sua natureza intervencionista, proibir qualquer ingerência estrangeira sobre as forças de segurança brasileiras e responsabilizar os próprios Estados Unidos pelo papel que cumprem no tráfico de armas, na lavagem de dinheiro e na circulação internacional de capitais criminosos.
O governo Lula tentou agradar Trump e recebeu como resposta uma ofensiva direta contra a soberania brasileira. Prostituiu o país em vão.





