Guerra no Oriente Próximo

Chanceler do Irã: ‘entendimento com EUA nunca esteve tão perto’

Memorando prevê fim da guerra, retirada de “Israel” do sul do Líbano, suspensão do bloqueio naval e novo regime para o Estreito de Ormuz

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou, nesta sexta-feira (12), que Teerã e os Estados Unidos nunca estiveram tão próximos de concluir um memorando de entendimento. A declaração foi feita em uma publicação na rede X e reforçada em entrevista à televisão estatal iraniana, na qual o chanceler explicou os principais pontos da negociação.

“O Memorando de Entendimento de Islamabad nunca esteve tão próximo”, declarou Araghchi. O ministro, no entanto, destacou que nenhum acordo foi assinado até o momento e que mudanças ainda podem ocorrer antes da conclusão do texto.

Segundo Araghchi, o documento tem menos de duas páginas e cada palavra foi examinada repetidamente pelas autoridades iranianas. O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã acompanha diretamente as negociações, que ainda passam por avaliação interna.

“O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã tem supervisão total sobre as negociações”, disse o chanceler. “Há apoiadores e opositores do texto dentro do Conselho, mas, ao final, a decisão será tomada coletivamente”.

O memorando está dividido em duas etapas. A primeira trata do fim da guerra e de medidas imediatas, como o levantamento do bloqueio naval norte-americano e a liberação dos ativos iranianos congelados. A segunda, com duração prevista de 60 dias, trata de temas como o programa nuclear iraniano e a suspensão das sanções impostas pelos Estados Unidos.

Araghchi deixou claro que as exigências nucleares apresentadas pelos EUA nesta fase foram recusadas por Teerã. “As exigências nucleares dos Estados Unidos nesta etapa foram inteiramente inaceitáveis para nós”, afirmou. Segundo ele, caso os pontos da primeira fase não sejam cumpridos, o Irã não avança para a segunda.

Líbano entra no acordo

Um dos pontos centrais da declaração do chanceler é a inclusão do Líbano no entendimento. Araghchi afirmou que o Irã não aceita um acordo que ignore a agressão de “Israel” contra o território libanês.

“O memorando declarará o fim da guerra, inclusive no Líbano, e nós nunca deixaremos o Líbano enfrentar seus desafios sozinho”, afirmou.

O chanceler disse ainda que o fim da guerra inclui a retirada de “Israel” das áreas ocupadas no sul do Líbano. Segundo ele, Teerã comunicou esse ponto de maneira direta à outra parte.

A inclusão do Líbano no acordo mostra que a negociação não é apenas um acerto bilateral entre Irã e EUA. Trata-se de uma tentativa de consolidar, no terreno diplomático, a derrota sofrida pelo imperialismo norte-americano e pelo sionismo no conflito.

Araghchi afirmou que o Irã saiu vitorioso da guerra, mesmo enfrentando inimigos dotados de armamentos avançados. “O Irã foi o vencedor desta guerra, e o povo iraniano é o verdadeiro vencedor desta arena”, declarou.

O chanceler acrescentou que a diplomacia deve consolidar as conquistas obtidas no campo militar. “Naturalmente, depois de uma vitória como essa, é necessário consolidá-la por meio de um acordo ou entendimento”.

Ormuz sob soberania de Irã e Omã

Outro ponto decisivo do memorando é o Estreito de Ormuz. Araghchi declarou que o estreito está sob soberania do Irã e de Omã, rejeitando a pretensão dos EUA de impor sua presença militar na região.

“Não há dúvida de que o Estreito de Ormuz está sob a soberania do Irã e de Omã, e não é uma via internacional”, disse o chanceler. “A futura gestão do Estreito de Ormuz não será como foi no passado, e ninguém terá permissão para violar a soberania do Irã e de Omã sobre o estreito”.

O ministro afirmou que haverá cobrança por serviços prestados no estreito. “Taxas serão cobradas pelos serviços no Estreito de Ormuz, e esses serviços não serão mais gratuitos”, declarou.

Segundo Araghchi, o levantamento do bloqueio naval imposto pelos EUA foi o primeiro ponto tratado nas negociações. O Irã também trabalha com Omã para definir um novo mecanismo jurídico e operacional para o trânsito no estreito, a ser anunciado no prazo de 60 dias.

As declarações ocorreram no mesmo dia em que novas tensões foram registradas na região. A televisão estatal iraniana informou que uma explosão no sul do país foi um disparo de advertência em direção ao Estreito de Ormuz. O motivo não foi detalhado, mas a medida está relacionada à fiscalização da passagem de embarcações.

Sanções e ativos congelados

Araghchi afirmou que os ativos iranianos congelados serão liberados caso o memorando seja assinado. “Nenhum de nossos ativos pode permanecer congelado”, declarou.

O chanceler também disse que o acordo inclui um plano de reconstrução e desenvolvimento econômico para compensar os danos sofridos pelo Irã durante a agressão norte-americana e sionista. Os mecanismos desse plano serão definidos nas próximas negociações.

A suspensão das sanções, porém, ficou para a segunda etapa, junto com os pontos nucleares. Araghchi explicou que a decisão sobre enriquecimento de urânio e estoque de material enriquecido será tomada no acordo final. Sobre o material enriquecido a 60%, ele reafirmou que a única solução aceita por Teerã é sua diluição dentro do próprio Irã.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, confirmou que grande parte dos pontos já foi acertada. “No momento, alcançamos entendimento sobre uma parte importante dos assuntos e estamos na fase final de conclusão interna”, afirmou.

Baghaei também denunciou o comportamento contraditório dos EUA. Segundo ele, os norte-americanos tentam apresentar o Irã como parte pouco confiável, enquanto recorrem a ameaças militares e medidas ilegais.

EUA recuam após ameaças

As negociações avançam após novas ameaças do presidente norte-americano, Donald Trump, que chegou a anunciar ataques contra o Irã e a tomada da ilha de Kharg, ponto estratégico da infraestrutura petrolífera iraniana. Horas depois, Trump declarou que havia cancelado os bombardeios.

Autoridades iranianas rejeitaram a ideia de que o recuo dos EUA tenha sido resultado de qualquer concessão por parte de Teerã. Mohammad Mokhber, assessor do líder da Revolução Islâmica, afirmou à CNN que a guerra continua enquanto os EUA não respeitarem os interesses do Irã.

“Se eles respeitarem os interesses do Irã e agirem de acordo com isso, a guerra terminará; caso contrário, continuará”, declarou Mokhber.

Baghaei reforçou a mesma posição. “O Irã provou na prática que suas linhas vermelhas são os interesses e o bem-estar da nação iraniana, e não haverá absolutamente nenhum compromisso nesse sentido”, afirmou.

O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, país que atua como mediador, afirmou que um texto final foi alcançado e que Islamabade trabalha com os dois lados para definir os próximos passos. O próprio Trump republicou a mensagem de Araghchi na rede X. Araghchi, por sua vez, pediu que especulações sejam evitadas até a conclusão formal do processo.

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