Universidade Marxista

1963: o ano em que o Xá assassinou mil manifestantes em Teerã

A repressão às mobilizações de junho de 1963 marcou a passagem da ditadura para uma nova fase de violência, que esmagaria a oposição política nas décadas seguintes

O ano de 1963 foi um divisor de águas na ditadura do Xá Mohamed Reza Pahlavi. As mobilizações que eclodiram pelo Irã em junho daquele ano foram reprimidas com extrema brutalidade pelas forças armadas, com uma estimativa de 1.000 mortos apenas em Teerã. Foi a maior chacina realizada pelo regime até aquele momento e funcionou como anúncio de um novo patamar de violência, que se manteria até a queda do Xá em 1979.

A Universidade Marxista realizará entre os dias 27 de junho e 5 de julho o curso A história do Irã e da República Islâmica, parte da Universidade de Férias de inverno da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR). A repressão de 1963 e suas consequências políticas para o conjunto da oposição iraniana serão discutidas pelo ministrante do curso, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República.

A onda repressiva já vinha se intensificando desde 1962. Naquele ano, os estudantes saíram às ruas exigindo eleições livres e a renúncia do primeiro-ministro. A resposta do regime foi enviar soldados para invadir a Universidade de Teerã. Um estudante foi assassinado, centenas ficaram feridos e 300 foram presos. A operação contra a universidade serviu de aviso ao conjunto da oposição. O regime estava disposto a entrar de armas em punho em qualquer espaço onde a resistência à ditadura começasse a se organizar.

A destruição da Frente Nacional

A repressão se voltou em seguida contra a Frente Nacional, a organização política herdeira do governo Mossadeq. A atividade da Frente havia se intensificado na oposição, e o regime decidiu liquidar essa estrutura. Com o emprego conjunto das forças armadas e da SAVAK, o Xá prendeu praticamente toda a direção do partido. Com isso, toda a atividade política organizada foi efetivamente suprimida do Irã.

A destruição da Frente Nacional teve um efeito político muito grande. A principal organização nacionalista do País, aquela que havia conduzido a nacionalização do petróleo e que era herdeira do governo derrubado em 1953, foi reduzida a um núcleo clandestino sem capacidade de mobilização imediata. Os quadros que permaneceram livres viviam sob vigilância constante. Os que estavam presos enfrentavam tortura. As novas gerações de militantes encontravam uma estrutura partidária desorganizada e dispersa.

Junho de 1963

Foi nesse quadro que estouraram as manifestações de junho de 1963. O estopim foi a prisão do aiatolá Ruholá Khomeini, que vinha denunciando publicamente o programa de reformas do Xá. A mobilização, no entanto, não se limitou às bases religiosas. Reuniu setores diversos da oposição que vinham se acumulando contra a ditadura e contra a perda de soberania do Irã.

As manifestações eclodiram em várias cidades do País. Em Teerã, milhares foram às ruas. A resposta do regime foi disparar contra a multidão. Mil mortos foi a estimativa apenas na capital. O número de feridos e presos é desconhecido até hoje. As manifestações foram esmagadas em poucos dias. Khomeini foi mantido preso e, em novembro de 1964, exilado, primeiro para a Turquia, depois para o Iraque.

A perseguição aos pequenos grupos

A repressão não se limitava às grandes organizações. Atingia qualquer pequeno núcleo de discussão política, por menor que fosse. Naquele mesmo ano de 1963, foram presos 11 membros do movimento Libertação do Irã, formado em 1961. Entre suas reivindicações, destacava-se o constitucionalismo, ou seja, a defesa de que o regime respeitasse a Constituição que ele próprio formalmente reconhecia. O julgamento coletivo, ocorrido um ano depois das prisões, tinha como acusação a organização de uma conspiração para “minar a monarquia constitucional”. Os presos denunciaram tortura. Meses depois, quatro advogados de defesa foram levados a julgamento por disseminarem propaganda a favor de um grupo com ideologia oposta à monarquia constitucional do Irã.

Os advogados que defendiam os acusados foram, eles próprios, transformados em réus. O recado do regime era o de que qualquer pessoa que se aproximasse profissionalmente de um caso político era automaticamente suspeita. A própria defesa jurídica dos perseguidos passou a ser tratada como crime.

O caso da Sociedade Socialista do Irã

Em 1965, foram presos quatro membros do grupo Sociedade Socialista do Irã, que defendia o socialismo e o constitucionalismo. Fundado em 1960, o grupo se resumia a grupos de discussão e tradução de obras para o persa. Não tinha estrutura paramilitar, não pregava insurreição armada. Foram acusados de “pôr em perigo a segurança do Estado e advogar uma ideologia detrimental à monarquia constitucional do Irã”.

Segundo relatório do observador internacional Giancarlo Lannutti, enviado pelo Comitê Italiano para a Defesa de Prisioneiros Políticos: “as sentenças relativamente leves devem-se ao fato de que o tribunal não conseguiu reconhecer os quatro culpados de qualquer crime específico, mas, apesar disso, quis ‘punir’ suas ‘ideias antimonárquicas’. A impossibilidade de fazer acusações específicas não impediu, no entanto, que a Savak submetesse os acusados, com exceção de Maleki, cuja saúde precária fazia temer que ele não resistisse à provação, a repetidos e severos maus-tratos. Shansi, em particular, foi continuamente torturado para forçá-lo a confessar os crimes dos quais era acusado e que, na verdade, nunca havia cometido. As agressões e maus-tratos continuaram até o ponto em que ele foi levado a tentar o suicídio na prisão”.

O presidente do Tribunal Militar anunciou a Maleki que ele estava absolvido de todas as acusações específicas, mas que continuava a ser condenado a três anos de prisão por ter divulgado ideias contrárias ao regime.

O efeito político da repressão

Após a repressão de 1963, a oposição legal foi praticamente eliminada do país. Os partidos foram fragmentados, suas direções presas ou exiladas. Os pequenos grupos de discussão política foram perseguidos com a mesma violência aplicada às grandes organizações.

O resultado, no entanto, não foi o desejado pelo regime. Em vez de destruir a oposição, a repressão a empurrou para a clandestinidade. As mesquitas, que o regime não conseguia fechar sem provocar uma reação ainda maior, tornaram-se o único espaço de organização política possível. Foi nesse terreno que os clérigos xiitas, sob a direção do aiatolá Khomeini exilado, construiriam o movimento que derrubaria o Xá em 1979.

O curso A história do Irã e da República Islâmica será ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO. As inscrições podem ser feitas pelo sítio unimarxista.org.br ou pelo telefone (11) 99741-0436.

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