O artigo Estratégia de um derrotado, de Oliveiros Marques, publicado no Brasil 247 nesta quarta-feira (27), mostra aquilo que a maioria da esquerda insiste em não ver: a candidatura de Bolsonaro não está no plano preferencial da burguesia, que dá sinais de que tentará viabilizar um candidato de terceira via. Essa, no entanto, não é necessariamente uma boa notícia para Lula.
Segundo Marques, “há algo de profundamente revelador na notícia de que os estrategistas de Flávio Bolsonaro decidiram apostar novamente no ‘bolsonarismo raiz’. Não revelador sobre o país. Revelador sobre a sua campanha”. Caso exista mesmo essa decisão, significa que os bolsonaristas entenderam que precisam buscar apoio em sua base social, pois com a burguesia está difícil chegar a um acordo.
Como diz o articulista, “ninguém volta para a trincheira mais estreita quando acredita que pode conquistar terreno novo. Ninguém troca a ampliação pela radicalização quando está vencendo. E ninguém abraça apenas os 30% mais fiéis quando acredita ser capaz de falar para a maioria do Brasil”.
Como este Diário já expôs mais de uma vez, o julgamento-farsa que levou Jair Bolsonaro à prisão tinha como objetivo conseguir um acordo: sua liberdade em troca de apoio a um terceiro candidato. A decisão de lançar Flávio Bolsonaro à Presidência da República foi uma aposta ousada que embaralhou as cartas. Tarcísio de Freitas recuou e Flávio Bolsonaro começou a aparecer bem nas pesquisas de intenção de voto. Até que veio a público sua conversa com Daniel Vorcaro.
A conversa, em si, não revela nada de excepcional. Isso, no entanto, pouco importa. O caso pode ser explorado pela imprensa e o desgaste tende a acontecer. Nada impede, ainda, que outros assuntos voltem às manchetes, como o caso das rachadinhas e a compra da mansão em Brasília.
30% do eleitorado não é pouca coisa, ao contrário do que tenta fazer crer Oliveiros Marques. Trata-se de uma base considerável, ainda que esteja dito no texto que “a movimentação descrita pela coluna de Daniela Lima é menos uma estratégia de vitória e mais uma operação de contenção de danos. O objetivo já não parece ser ganhar a eleição. Parece ser sobreviver politicamente ao naufrágio”.
Recuo tático?
Na opinião de Marques, “quando uma campanha decide ‘voltar às raízes’, muitas vezes o que ela está dizendo é: perdemos a capacidade de crescer. O bolsonarismo raiz funciona como bunker emocional de um eleitorado fiel, mas insuficiente. Serve para manter patrimônio político, preservar influência, garantir bancada, proteger o sobrenome e impedir deserções. Serve para administrar o espólio”.
Supondo que seja verdade e que os bolsonaristas tenham perdido a capacidade de crescer, o que acontece se Flávio Bolsonaro conseguir, mesmo assim, ir ao segundo turno?
Outra possibilidade, também preocupante, é a de que Flávio Bolsonaro, percebendo que não poderá vencer, se junte com a oposição contra Lula e leve consigo sua base fiel.
Mesmo que não vença, o bolsonarismo terá capital político importante para negociar cargos e participação em um futuro governo que derrote Lula. Portanto, não basta dizer que se trata de “uma estratégia defensiva. E, no fundo, covarde”.
Segundo Oliveiros Marques, a covardia estaria no fato de que o bolsonarismo “apenas cava uma trincheira ideológica para resistir ao avanço da realidade”. Mas a movimentação pode ser também uma reação ao avanço da própria burguesia, que sempre tem muitas cartas na manga.
Polarização
Para o articulista, “o bolsonarismo raiz sempre funcionou melhor como identidade emocional do que como projeto de país. Em momentos de força, ele se expandia graças ao antipetismo, ao colapso da velha direita e à crise econômica. Mas, isolado em si mesmo, tende ao encolhimento”.
Faltou dizer que a esquerda também não tem se apresentado como alternativa para os trabalhadores. O próprio governo Lula deixou de lado sua base social e privilegiou os acordos por cima.
Houve ainda o vergonhoso apoio ao Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente a Alexandre de Moraes, o censor-mor da República, que votou pela prisão de Lula e agora tem seu nome envolvido no caso do Banco Master.
Se Oliveiros Marques considera Flávio Bolsonaro “covarde porque não busca convencer quem pensa diferente”, toda a esquerda faz o mesmo ao chamar quem pensa diferente de “gado”, em vez de debater politicamente e tentar trazer essas pessoas para suas posições.
A polarização política no Brasil é real. O bolsonarismo formou uma base social e precisa ser entendido a partir desse fato.
Muito cedo para comemorar
A candidatura de Flávio Bolsonaro ainda não pode ser dada como morta, mas o articulista considera que talvez “Flávio e seus próprios estrategistas já entenderam que a vaca foi para o brejo. Resta, então, garantir que o sobrenome sobreviva forte o suficiente para continuar comandando uma parcela barulhenta da direita brasileira — mesmo que já não consiga liderar o país”.
Se a burguesia entender o mesmo que Marques, então é possível esperar uma ofensiva mais dura contra Lula.
Os editoriais dos grandes jornais criticam o governo há tempos. Algumas manchetes sobre o escândalo do INSS também já fizeram uma breve aparição nos jornais e nos noticiários.
Lula tem feito acenos à direita, como a tentativa de salvar o governo direitista na Bolívia; e também à esquerda, como a campanha pelo fim da escala 6×1, que tem se demonstrado um verdadeiro fiasco.
Se a campanha de Flávio Bolsonaro não vai bem, a de Lula não parece estar muito melhor.



