A recente divulgação do conteúdo das mensagens de Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, ao ministro Alexandre de Moraes não deixa muitas dúvidas (a quem ainda as tivesse) sobre as relações nada republicanas entre os dois. A Folha de S. Paulo e o Estadão, em seus editoriais, pediram diretamente a renúncia de Moraes em nome da preservação do STF, chegando ambos a apoiar o seu impeachment. No Globo, é Merval Pereira quem manda o mesmo recado, lembrando que, caso as afirmações fossem falsas, bastaria a Moraes apresentar o seu celular para ser analisado, o que, neste momento, todavia, será impossível, pois o ministro tomou o cuidado de trocar de operadora e de número. Supõe-se que tenha destruído o celular antigo, impedindo a confirmação da conversa.
O próprio Merval Pereira lembra que, “por muito menos, o relator do inquérito das fake news mandou muita gente para a cadeia” e cita a mais emblemática das condenações do 8 de janeiro, a da “Débora do batom”, em cujo processo Moraes afirmou que “apagar deliberadamente os dados do celular representa forte indício de tentativa de obstrução da Justiça, haja vista que, em investigações criminais, dispositivos eletrônicos frequentemente contêm provas essenciais, como mensagens, registros de chamadas, localização e interações em redes sociais”.
Moraes, o paladino da democracia, como sabemos, usou um estratagema “seguro” para se comunicar com Vorcaro, escrevendo as mensagens no aplicativo “bloco de notas” e as enviando como foto de visualização única pelo WhatsApp. Vorcaro fazia o mesmo, mas a perícia do aparelho resgatou as mensagens no próprio bloco de notas. Para obter as respostas de Moraes, seria necessário periciar o seu telefone, agora destruído.
Nas hostes da esquerda pequeno-burguesa, no entanto, a suspensão do sigilo do WhatsApp de Vorcaro pelo ministro André Mendonça, do STF, é analisada unicamente do ponto de vista eleitoral, o que leva boa parte dos apoiadores de Lula a fazer vista grossa para as escandalosas revelações, afinal fruto de uma estratégia bolsonarista, eivada de ilegalidades técnicas. Lula, por sua vez, opta pelo silêncio, o que não parece melhorar as coisas. O ICL descobriu que o próprio ministro André Mendonça andou conversando com Vorcaro e teria recebido de presente um terno sob medida feito na alfaiataria Vasco, endereço de alto luxo frequentado pela elite política de São Paulo. A peça de roupa, segundo a revista Veja custa de R$ 14 mil a R$ 20 mil, a depender do tecido escolhido.
O terno de André Mendonça não passa de dinheiro de pinga para Vorcaro, acostumado a desembolsar quantias bem mais expressivas. O passe do ministro Alexandre de Moraes, como todos ficamos sabendo, é muito mais alto – e é possível supor que a contrapartida seja proporcional, afinal banqueiros costumam entender de investimentos. São palavras do próprio Vorcaro, extraídas de seu celular, que o pagamento do Barci de Moraes (escritório da mulher do ministro) não podia atrasar porque era o mais importante de todos – e, se atrasasse, ia “dar problema”. Fabio Farias, o ex-ministro de Bolsonaro que atuava como intermediário da conversa, resume em registro informal: “o careca não pode atrasar”, isto é, não pode atrasar o pagamento do “careca”, a ser feito por intermédio do escritório de sua mulher.
O tal pagamento se refere ao célebre contrato do escritório de Viviane Barci de Moraes e filhos com o Banco Master para assessoria na área de compliance (boas práticas) da instituição. Os que chegaram a duvidar da existência desse documento, pois tinha sido denunciado por uma jornalista do Globo, agora podem lê-lo, pois está divulgado na internet. Cai por terra a versão cor de rosa de que uma empoderada doutora Viviane Barci de Moraes cobraria R$ 130 milhões por serviços prestados ao Banco Master, recebendo mensalmente R$ 3 milhões livres de impostos durante três anos, enquanto seu marido idealista defenderia a democracia por míseros R$ 46 mil mensais e quiçá um ou outro penduricalho.
A nota emitida pelo escritório após a divulgação do contrato e a revelação de que Moraes tinha feito a edição do documento confirma as investigações da polícia: “o setor de compliance […], como faz em outros casos semelhantes, solicitou informações ao Ministro Alexandre de Moraes na condição de marido da sócia-diretora”. Segundo a nota, há outros casos semelhantes, o que nos deixa particularmente curiosos, e o Xandão atua “na condição de marido”, seja lá o que isso for no organograma do Barci de Moraes.
Para completar o contrato, Vorcaro teria oferecido aos dois filhos do casal Vivi-Xandão cartões de crédito com limite mensal de R$ 300 mil. Como se viu na imprensa, a coisa ainda foi além disso, havendo outro contrato de 36 meses com a empresa Viking, do mesmo Vorcaro, para assessoria jurídica, no valor de R$ 50 milhões igualmente livres de impostos. Nesse, como no outro, os impostos são pagos pela empresa contratante, que os inclui no pix.
O que fica cada vez mais claro é que o todo-poderoso ministro Alexandre de Moraes, a quem foi concedido o poder de interpretar livremente a Constituição para contemplar os interesses de ocasião da burguesia, tem consciência de seu valor de mercado e atua, em linha paralela, para amealhar fortuna sem fazer esforço, vendendo caro sua influência. Diante das revelações, suas decisões draconianas, aplaudidas pela esquerda, perdem a já questionável credibilidade.
Falta um mínimo de autoridade moral ao juiz para determinar penas duras a pessoas do povo que fizeram manifestação política no fatídico 8 de janeiro, condenadas a 15 ou até a 17 anos de prisão por estarem presentes no ato que evoluiu para um quebra-quebra em prédios do governo. Moraes acusou o grupo todo de praticar uma insurreição armada sem que fosse encontrada uma arma sequer. E sabemos que as coisas não pararam por aí. O ministro se tornou uma espécie de censor das redes sociais, com poder para suspender canais de internet de adversários políticos. É claro que não está sozinho em sua batalha pelo controle da circulação de informação, um dos maiores desafios de uma democracia que só cabe nos estritos limites dos interesses da burguesia, defendidos pela grande imprensa. Não está sozinho, mas encarnou essa “luta”, vista pela esquerda como uma ajudinha para o campo progressista, cada vez mais ameaçado pelo anseio de mudança do sistema.
O chamado campo “progressista” deveria liderar o movimento pela mudança, mas acomodou-se, condenando a revolta popular em vez de condenar o sistema, numa atitude, a bem dizer, conservadora. Terceirizou a luta política para o STF, liderado por um xerife autoritário que atropelou a Constituição para, supostamente, impedir o crescimento da extrema direita. Que esse seja o método dos partidos da burguesia não é de espantar, mas a esquerda tem outra tarefa. Moraes liderou a pantomima que tirou Jair Bolsonaro da eleição e o confinou por 27 anos à prisão, mas uma coisa é certa: tirou Jair, mas não tirou Bolsonaro. Seu filho Flávio deve chegar ao segundo turno em disputa acirrada com Lula.
O momento das revelações que atingem Moraes é, de fato, delicado: coincide com o início de uma brevíssima campanha eleitoral, na qual não há tempo para o verdadeiro debate de ideias. Nessa situação, qualquer passo em falso de um candidato pode afetar o seu desempenho eleitoral. Não por outra razão, o marqueteiro de Lula o aconselhou a manter o silêncio sobre o escândalo protagonizado por Alexandre de Moraes. Mesmo assim, a “companheira” Simone Tebet gravou vídeo bastante crítico a Moraes, mostrando que, na eleição, é cada um por si e Deus para todos. O silêncio, por sua vez, pode soar como cumplicidade, a menos que o STF Futebol Clube resolva proteger Moraes em nome da “democracia” e do “perigo fascista”, determinando nulidade da ação de Mendonça por erro técnico. Pode ser que tudo seja abafado, mas a tampa do bueiro estourou.
A burguesia vem governando o país por meio do STF, daí seu interesse em proteger essa instituição. As sabatinas eleitorais do Jornal Nacional, da Rede Globo, deixaram bem clara a agenda da classe dominante, que contempla ajuste fiscal, reforma da previdência e endosso das ações do STF. Os nomes escolhidos para as entrevistas – Zema, Caiado, Renan Santos, Lula, Flávio e Augusto Cury – foram submetidos ao teste da emissora, cujo interesse é encontrar aquele que possa ganhar de Lula com as suas propostas.
Os candidatos da direita, à exceção de um improvável Augusto Cury, defenderam a anistia a Bolsonaro e aos manifestantes de 8 de janeiro. Zema foi o mais contundente nesse quesito, a repetir que era um democrata e que o STF (cujos membros tem chamado de “intocáveis”) agiu incorretamente. Ato contínuo, caiu para 1% nas pesquisas, enquanto Cury, que se isentou de tocar no assunto, deu uma guinada de quase nada para 10% após uma sabatina, no geral, claudicante.
A entrevista mostrou que suas propostas para o país – telemedicina na saúde e escola de empreendedorismo na rede pública – estão diretamente ligadas aos seus negócios privados, mas ele explicou que não vê conflitos de interesses até porque, sendo um homem de posses, ele “não precisa disso” e está apenas “se doando para o país”. No melhor estilo falacioso de seus livros de autoajuda, encerrou a participação dizendo ser de direita na cabeça e de esquerda no coração – em vez de dizer que não é nem uma coisa nem outra, como têm feito os candidatos à terceira via, ele jurou ser as duas ao mesmo tempo, resolvendo, a seu modo, a polarização. (Vale notar que a pesquisa Quaest passou a nomeá-lo com o epíteto “escritor” antes de seu nome, diferentemente do que faz com os demais, apenas descritos por seus nomes. Para um incauto, votar no “escritor” pode ser uma boa opção.)
Cury, o “escritor”, aparentemente, não tem condições de se tornar competitivo, mas pode ser útil, enquanto a burguesia calcula os dividendos de sacrificar Moraes, limpando a barra do STF e atingindo a candidatura de Lula. Moraes, no entanto, não é exatamente uma exceção. Só tomamos conhecimento desse caso porque o Banco Master foi liquidado e deixou muitas pontas soltas. O próprio escritório Barci de Moraes revelou haver “outros casos semelhantes”, o que nos leva a indagar o que exatamente levou os ministros da mais alta corte a serem, salvo engano, milionários. O preço de mercado dos magistrados é diretamente proporcional ao seu poder de interpretar as leis do país segundo a conveniência da burguesia. Um país que se pretenda democrático deveria repensar o modelo de uma instituição como o STF, se é que não pode prescindir dela.





