O artigo Banco Master expõe as entranhas do sistema bolsonarista, de Florestan Fernandes Jr., publicado no Brasil 247 nesta terça-feira (26), mostra que boa parte da esquerda brasileira acredita que o problema do Brasil é a corrupção. O escândalo do Banco Master, no entanto, não pode ser atribuído apenas ao bolsonarismo. Isso não faz o menor sentido. Esquemas desse tipo existem no País desde os tempos do Império.
Fernandes Jr. inicia dizendo que “a 8ª fase da Operação Compliance Zero, realizada hoje (26/05) pela Polícia Federal, com mandados de busca e apreensão na suntuosa cobertura do ex-governador Cláudio Castro, revela onde a chamada ‘Ponte para o Futuro’, do governo golpista de Michel Temer, levou o país. A verdadeira gangue que operava havia décadas nos governos e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro atravessou a ponte, contaminando boa parte do Estado brasileiro”.
O jornalista deveria se perguntar quem esteve atuando ativamente no golpe que colocou Michel Temer no poder, aquele “com Supremo, com tudo”. E deveria se perguntar também quem foram os primeiros implicados no caso envolvendo Daniel Vorcaro. Os nomes que aparecem são do Supremo Tribunal Federal (STF). Ainda que não sejam os únicos, é evidente a tentativa de passar a responsabilidade para outro setor da direita.
Após fazer alusão aos milicianos amigos dos Bolsonaro, às rachadinhas e a outros casos, Florestan Fernandes Jr. escreve que “a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência levou para o coração do poder não apenas uma estrutura política voltada ao desvio de recursos públicos, mas também lideranças forjadas em décadas de atuação no submundo político do Rio de Janeiro”.
Mas quando foi diferente? Por acaso o desvio de recursos públicos praticado pelo chamado submundo é pior do que aquele praticado pelos engravatados?
O “príncipe dos sociólogos” promoveu uma entrega sem precedentes do patrimônio nacional ao privatizar a telefonia e a Vale do Rio Doce, para ficarmos em apenas dois exemplos. Sem falar na desindustrialização do País. Para se ter uma ideia do estrago provocado, durante a pandemia o Brasil sequer conseguia produzir máscaras de pano em quantidade suficiente; era necessário importar ou improvisar em casa.
Corrupção é a norma
Quando o jornalista escreve que “o vírus da corrupção bolsonarista espalhou-se por parte da Esplanada dos Ministérios e pelo próprio Congresso Nacional, onde emendas orçamentárias distribuídas sem transparência passaram a servir ao desvio de dinheiro público, por meio de operações superfaturadas e fraudes escancaradas em licitações”, o leitor é levado a se perguntar em que país ele vivia antes de Jair Bolsonaro ser eleito.
Há ainda outra questão: a ideia de que “formou-se uma verdadeira máquina de saque aos cofres públicos, bilhões de reais que só começaram a ser rastreados e desmontados pelas investigações da Polícia Federal, determinadas pelo STF, sob relatoria do ministro Flávio Dino”.
É preciso ser muito ingênuo para acreditar que o Supremo está aí para desmontar esquemas. A Polícia Federal conta com uma grande presença de bolsonaristas em seus quadros e foi fundamental para o golpe contra Dilma Rousseff.
Além disso, o Estado serve às classes dominantes, à burguesia. Não é simplesmente um cofre tomado de assalto por um grupo de espertos. A corrupção é tolerada desde que não ultrapasse determinados limites, como o caso do Banco Master demonstra.
Quando o esquema começou a prejudicar interesses verdadeiramente poderosos, o escândalo veio à tona. O saque que os bancos fazem dos recursos públicos é gigantesco e faz o escândalo do Master parecer coisa de amador.
Aquilo que Daniel Vorcaro conseguiu produzir de prejuízo em 10 anos, os grandes bancos realizam em poucos dias.
Eleições
Embora o jornalista não confesse, o esforço para implicar o bolsonarismo no caso do Banco Master está voltado para as eleições presidenciais. É bem provável que bolsonaristas estejam envolvidos, mas é ridículo tentar apresentar uma coisa como sinônimo da outra.
Um efeito secundário dessa tentativa é livrar a cara de membros do STF, instituição que tem servido de suporte ao governo Lula, sem força no Congresso e sem apoio em sua base social, da qual se afastou.
Segundo o jornalista, “no escândalo do Banco Master, a cada dia surgem novas revelações sobre essa engrenagem de corrupção, assustando o país pelos valores envolvidos nas falcatruas. A operação que levou, nesta terça-feira, a Polícia Federal à casa de Cláudio Castro revelou o aporte de nada menos que R$3,7 bilhões do Rioprevidência em fundos do banco de Daniel Vorcaro. Dinheiro retirado de aposentados que sequer contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos”.
Alguns valores assustam, como o contrato com a esposa de Alexandre de Moraes.
O dinheiro do Rioprevidência equivale a um dia de juros pagos pelo governo sobre a dívida pública. O que assusta mais?
Campanha eleitoral
O artigo segue tratando de esquemas, propinas, dinheiro para filme, empresário com dívida de R$52 bilhões e tentativa de golpe, até chegar ao último parágrafo:
“Nestes três anos e meio do governo do presidente Lula, mais do que os avanços econômicos e sociais, o combate à corrupção teve um papel fundamental ao expor ao país a verdadeira face do bolsonarismo: as entranhas de um Estado corroído por esquemas de enriquecimento ilícito e por grupos especializados em transformar a máquina pública em instrumento permanente de saque aos cofres públicos. Um esquema que só será definitivamente extirpado com a reeleição de Lula”.
A velha campanha eleitoral. Que avanços econômicos são esses em um país submetido a juros altíssimos, que alimentam os maiores ladrões do dinheiro público?
Não existe combate à corrupção. O governo não controla o Judiciário e muito menos a Polícia Federal.
Enquanto o brasileiro acreditar em “combate à corrupção” e em pequenas reformas, o trabalhador continuará submetido à pobreza e à miséria.
A única maneira de acabar com a corrupção é derrubar a burguesia. Fora isso, o resto é cortina de fumaça e promessa.





