Toda greve tem aquele operário que atravessa o piquete. Aquele que, enquanto os companheiros enfrentam a polícia, a fome e o frio nas portas das fábricas, decide entrar pela porta dos fundos e bater o cartão. Aquele que aceita o trabalho que os outros recusam, que carrega a mercadoria que os outros se negam a transportar, que ocupa o posto que os outros abandonaram para cobrar do patrão. O fura-greve é a figura mais desprezada da história do movimento operário, e por boa razão: sem ele, a greve venceria; com ele, o patrão respira. Pois Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-sindicalista, o ex-metalúrgico, o ex-operário, acaba de se transformar em um deles.
Na tarde da segunda-feira (25), depois de um telefonema com o presidente boliviano Rodrigo Paz, Lula anunciou em sua rede social a decisão. Disse ter conversado “sobre a situação humanitária enfrentada pela Bolívia em decorrência de protestos e bloqueios de estradas, que vêm provocando o desabastecimento de algumas regiões do país”. Disse ter reiterado sua “solidariedade ao governo e ao povo bolivianos” e ressaltado “a importância do pleno respeito às instituições democráticas e ao Estado de Direito”. Defendeu que “governo e movimentos sociais evitem o recurso à violência e privilegiem o diálogo como caminho para a superação das divergências e para a preservação da paz social”. E concluiu: “a pedido do presidente Rodrigo Paz, determinei envio de ajuda humanitária à Bolívia”.
Cada palavra dessa nota merece ser lida duas vezes, porque cada palavra é uma falsificação da situação. Não há crise humanitária na Bolívia provocada pelos protestos. Há um levante popular contra um governo de extrema direita, neoliberal, que chegou ao poder em uma eleição fraudulenta e que começou imediatamente a atacar os trabalhadores. O governo Rodrigo Paz aplica a velha política de destruição social do neoliberalismo, a mesma que a Bolívia já enfrentou e respondeu, no começo deste século, com uma verdadeira insurreição contra outro preposto do imperialismo.
Os trabalhadores bloquearam as estradas justamente para paralisar a atividade econômica e forçar o governo a ceder, o que é o sentido de toda greve. Os camponeses se levantaram contra a mudança na lei de terras. O Altiplano se mobilizou contra as privatizações, contra o ataque aos combustíveis e contra o conjunto das medidas do governo. A Central Obrera Boliviana, a COB, foi levada pela própria situação à palavra de ordem do “fora Paz” — e seu secretário-executivo está preso. Um grevista foi assassinado pela polícia. Há vários feridos e muitos presos. O ministro do Trabalho do governo Paz propôs uma pena de 15 anos de prisão para quem bloquear ruas.
Diante disso, o que faz Lula? Manda alimentos. Não para os trabalhadores, mas para o governo encurralado pelos trabalhadores. Não para furar o bloqueio imperialista contra Cuba, que sofre um desabastecimento colossal de petróleo e recebeu socorro da China e da Rússia, do outro lado do mundo, enquanto o Brasil, aqui ao lado, não mandou uma única gota. Não para a Palestina, que, após todas as promessas, nunca recebeu a ajuda anunciada. Não para a Venezuela, que tampouco encontra solidariedade no atual governo brasileiro. Mas para Rodrigo Paz, presidente de extrema direita, contra o movimento operário e camponês boliviano.
Os russos mandaram um navio petroleiro para Cuba. O Brasil manda comida para furar a greve na Bolívia. O gesto mostra com nitidez o que se tornou a política externa do governo Lula.
A nota fala em “respeito às instituições democráticas” e em “Estado de Direito”. Que instituições? As do governo que tenta militarizar o país, que prende sindicalistas, que assassina grevistas, que propõe 15 anos de cadeia para quem se manifesta? A fala sobre o diálogo “entre governo e movimentos sociais” inverte a realidade. Não há divergência a ser superada pelo diálogo entre quem aplica uma política de ataque às massas e quem resiste a ela. Há um enfrentamento entre classes em curso, e quem manda alimentos para o lado do governo neoliberal escolhe um lado. Está se colocando contra o povo boliviano.
A operação de Lula precisa ser nomeada com todas as letras: é uma operação fura-greve. É uma operação de salvação de um governo impopular e antipovo. É uma cobertura externa para aquilo que Marco Rubio, secretário de Estado de Donald Trump, ameaçou fazer por meio de intervenção militar. Rubio oferece a versão dura do combate aos grevistas; Lula oferece a versão branda, “humanitária”. As duas têm o mesmo objetivo: derrotar o movimento operário boliviano.
A única política humanitária na Bolívia, neste momento, é apoiar os trabalhadores, exigir a libertação dos presos e exigir o fim do governo. Tudo o que sustenta o governo Paz é antipopular, porque é esse governo que, neste instante, ataca o povo.
Para se ter noção do significado dessa decisão, é preciso compará-la com tudo o que o governo Lula já fez de ruim em sua terceira gestão. A taxação das chamadas “blusinhas”, o ataque ao Bolsa Família via recadastramento, o aumento de impostos, a entrega do funcionalismo, a recusa em romper com o teto de gastos, a política generalizada de censura na Internet — tudo isso são ataques contra as massas. Mas são ataques indiretos, mediados pelo aparato do Estado. O que se faz agora contra os trabalhadores bolivianos é diferente em natureza, não apenas em grau. É um ataque direto contra um movimento de luta.
E o ataque a um movimento de luta tem caráter contrarrevolucionário, mesmo quando vem disfarçado de doação de mantimentos. Quando os trabalhadores estão em luta, qualquer ação contra eles é mais grave do que uma medida de governo contra trabalhadores desorganizados. Nesse sentido, essa pode ser, sim, considerada a pior medida do governo até agora.
Não bastasse a vergonha em si, o gesto é gratuito. Não há contrapartida, não há ganho diplomático, não há sequer um cálculo eleitoral. A única explicação plausível é que Lula está prestando um serviço a Trump. Está oferecendo ao imperialismo norte-americano, que ameaça intervir militarmente na Bolívia, uma colaboração à brasileira, mais discreta e mais aceitável para o consumo interno. Está se oferecendo como a face branda do ataque ao movimento boliviano. Está agindo, em uma palavra, como agente do imperialismo. Não como presidente de um país soberano que defende a soberania de outros países da região, mas como fantoche da política do imperialismo norte-americano.
A base do PT precisa se manifestar. A CUT precisa se manifestar. Os movimentos sociais que ainda se reivindicam da tradição operária precisam se manifestar. Calar diante disso é se tornar cúmplice. Não há aqui margem para a ambiguidade habitual, para o “vamos esperar mais informações”. Há um governo de extrema direita atacando os trabalhadores, e o presidente brasileiro mandou comida para ajudar esse governo a derrotar os trabalhadores. Quem se cala concorda.
A palavra de ordem é clara: todo apoio ao movimento boliviano, nenhum apoio ao governo Paz, fora Paz. E ao ex-sindicalista que ocupa o Palácio do Planalto, fica registrado o que ele se tornou na noite de 25 de maio de 2026. Lula entrou para a galeria dos que atravessam o piquete. A história do movimento operário tem nome para isso, e o nome é fura-greve.





