A esquerda pequeno-burguesa não gosta de futebol. Por isso, vive procurando alguma justificativa para sua aversão ao esporte mais popular do mundo. É o que faz o artigo A Copa do Mundo de Trump?, publicado no sítio Revista Movimento, do MES-PSOL.
O pequeno-burguês não entende que o brasileiro, o negro pobre, o operário, o menino de pés descalços, a parcela mais explorada da população, pegou um esporte sem graça trazido pelos ingleses e o transformou no esporte mais popular do planeta.
Essa esquerda identitária, que gosta de falar em opressão racial de maneira abstrata, não enxerga que o futebol produziu o maior atleta de todos os tempos: Pelé, o nome mais conhecido da Terra. Em vez disso, prefere atacá-lo porque, supostamente, ele nunca teria feito nada pelos negros.
O pretexto antifascista
O artigo do Revista Movimento afirma que estamos a menos de um mês do início da Copa do Mundo, sediada no Canadá, no México e, principalmente, nos Estados Unidos, que concentrarão 78 dos 104 jogos. Lembra que a aprovação dos países-sede ocorreu em 2018, durante o primeiro mandato de Donald Trump, e que, quase oito anos depois, a Copa e a FIFA reencontram-se com o presidente norte-americano em seu segundo mandato.
A partir daí, o texto desenvolve sua tese central: a Copa seria a “Copa de Trump”, o “fascista da vez”. Trata-se do mesmo expediente de sempre. Em vez de denunciar o imperialismo como sistema, o MES isola a figura de Trump e a transforma no inimigo absoluto, enquanto a Copa serve apenas como mais um pretexto para mobilizar o antifascismo abstrato.
A FIFA, segundo o artigo, sempre negociou o futebol “como uma ferramenta de propaganda para os governos e regimes políticos de plantão”. É verdade que o futebol é um grande negócio. Movimenta bilhões de dólares, é o esporte mais assistido do mundo e, por isso, todos os governos procuram se aproveitar dele de alguma maneira. Toda Copa é política, porque o futebol é político. Isso não é novidade, nem prerrogativa de governos fascistas.
Copa de 34, Copa de 78
O artigo cita as Copas de 1934, na Itália de Mussolini, e de 1978, na Argentina de Videla. Aqui, ao menos, o MES toca em fatos verdadeiros. A Copa de 78 foi marcada pela escandalosa goleada da Argentina sobre o Peru por 6 a 0, quando os argentinos precisavam de pelo menos quatro gols de vantagem para chegar à final. O time peruano entregou o jogo e impediu o Brasil de disputar mais uma final de Copa.
Existe, há muito tempo, uma política deliberada para impedir que os brasileiros vençam. Em 1966, o Rei Pelé foi retirado da competição depois de ser caçado em campo pelo jogo violento dos “civilizados” europeus. Em 2018, na Rússia, no jogo contra a Suíça, Neymar recebeu 10 faltas em uma partida que teve 19 no total. A imprensa capitalista e a esquerda pequeno-burguesa, no entanto, não gostam do jogador e, por isso, fingem não enxergar o óbvio. Neymar já havia sido caçado em campo em 2014, quando sofreu uma fratura no processo transverso da terceira vértebra lombar após uma joelhada criminosa do colombiano Zúñiga. Ainda assim, a pequena burguesia prefere comemorar o 7 a 1 contra a Alemanha. Aquela Copa, aliás, foi preparada para a vitória alemã, e a Argentina também foi prejudicada quando Di María ficou fora da final.
Que a Copa seja política, portanto, não é descoberta do MES. O que esses senhores escondem é que a politização do futebol nem sempre serve ao imperialismo. A Copa do Catar, em 2022, foi um grande palco de demonstração de apoio à Palestina, e exatamente por isso foi tão atacada pela imprensa imperialista e pela mesma esquerda pequeno-burguesa que hoje fala em “Copa de Trump”.
O verdadeiro alvo é o futebol
A grande preocupação do texto é Donald Trump. O artigo quer saber por que o presidente norte-americano se interessa pelo futebol, já que o esporte não seria popular nos Estados Unidos. Especula sobre Trump como “presidente de uma comissão organizadora criada por ele mesmo” e sobre a disputa pela “hegemonia cultural” de um esporte em crescimento no país.
Para o povo, no entanto, essas conjecturas têm pouca importância. A maioria dos trabalhadores quer assistir aos jogos. Não é uma coisa difícil de entender. E daí se Trump pretende usar a Copa para ganhar popularidade? Todos os governos tentam fazer o mesmo. O que está em jogo, para os oprimidos do planeta, é outra coisa: torcer pela Seleção Brasileira, que continua sendo a Seleção que representa os povos oprimidos contra os países imperialistas.
O MES, contudo, não consegue ver isso. O que esses senhores querem, no fundo, é atacar o futebol e a Copa do Mundo, usando Trump como justificativa. É o mesmo expediente que utilizam para se omitir diante das questões decisivas do momento.
O silêncio sobre o Irã
Enquanto se ocupam em denunciar a “Copa de Trump”, esses setores não denunciam, por exemplo, a agressão imperialista contra o Irã. Adotam posições intermediárias, do tipo “fora Trump e fora ditadura dos aiatolás”, que servem apenas para neutralizar a luta anti-imperialista e jogar areia na resistência iraniana.
Ficar “lutando contra o fascismo” enquanto os democratas continuam censurando, dando golpes em outros países e auxiliando genocídios serve apenas para ocultar a luta real: a luta contra o imperialismo. Nesse sentido, essa esquerda acaba se transformando em linha auxiliar do verdadeiro fascismo, apresentado ao público com a máscara da democracia.





