Se dependêssemos de “previsões” do fim do mundo, inclusive as “científicas”, o planeta Terra já teria sucumbido uma dezena de vezes. O artigo O fim do mundo sem redenção, algo como “agora é pra valer”, De Liszt Vieira, publicado no Brasil 247 neste sábado (23), não foge à regra.
O texto inicia com a seguinte citação: “A humanidade vem se aproximando perigosamente das “fronteiras planetárias”, ou seja, os limites físicos além dos quais pode haver colapso total da capacidade de o planeta suportar as atividades humanas” – J. R. McNeill, Something New Under the Sun.
Para quem não se lembra, já foi dito que o planeta resfriaria, entraria em um mini era glacial. Não demorou muito, no final dos anos 1980, o resfriamento deu um cavalo de pau e se transformou em aquecimento.
“Estudos” da Nasa davam conta de que no máximo em 20 anos, com o famigerado buraco na Camada de Ozônio, haveria o derretimento das geleiras e todas as cidades costeiras seriam inundadas. Talvez inspirado pela iminente catástrofe, Chicho Buarque escreve em uma de suas músicas (Futuros Amantes) “E quem sabe então o Rio será alguma cidade submersa”. O tempo passou e a cidade do Rio de Janeiro continua onde sempre esteve.
As pesquisas da Nasa, turbinadas com uma infindável onde de fotografias por satélite, filmes prometendo o fim do mundo, documentários na TV, tudo isso deu base a protocolos firmados pelos países imperialistas, “preocupadíssimos” com o fim dos tempos que tinham como intuito a economia de recursos, pois a humanidade os estava utilizando demasiadamente.
Nesses novos protocolos, os países industrializados não fariam nada, além de, supostamente, indenizar os países atrasados para que não poluíssem e continuassem mergulhados no atraso.
O aquecimento global não deu as caras, então, foi preciso rebatizar a catástrofe para “mundas climáticas”. Nada mais justo, afinal, o clima vive mudando.
A escatologia
Liszt Vieira passa boa parte de seu texto dando conta de como a humanidade, desde tempos imemoriais, trata a questão do fim do mundo. Diz que “as teorias milenaristas religiosas — presentes no cristianismo, judaísmo, islamismo e outras tradições — enxergam o ‘fim do mundo’ como parte de um plano divino. Em geral, anunciam um período de caos, guerras, fome ou decadência moral seguido de julgamento, salvação e renovação do mundo. O Apocalipse bíblico é o exemplo mais conhecido. Muitas correntes acreditam que os sofrimentos históricos seriam “sinais dos tempos”.
Após dizer que “o milenarismo é a crença de que a história humana passará por uma transformação radical que culminará no fim do mundo e no estabelecimento de uma era de paz ou de julgamento. Essas narrativas, que moldam a visão da humanidade sobre o fim dos tempos, surgem ou ganham força historicamente em momentos de crises profundas, opressão social ou transições de eras”, o texto exemplifica essa crença atravessando diferentes culturas e épocas:
- Escatologia Judaico-Cristã: Baseia-se em estudos bíblicos sobre o destino final humano. Destaca-se a “Teoria do Dia do Milênio”, que prevê 6 mil anos de história seguidos por um período de mil anos (o Milênio) de paz e Reino de Deus na Terra.
- Cosmologia Hindu: Enxerga o tempo de forma cíclica, onde o fim de um grande ciclo (Pralaya) dissolve o universo por meio de fogo e dilúvios antes de uma nova recriação.
- Mitologia Nórdica (Ragnarök): Descreve a batalha final dos deuses, marcada por catástrofes naturais e pela destruição do mundo, resultando no posterior surgimento de uma nova terra.
- Cosmovisão Guarani: Prevê que a Terra sofrerá destruições sucessivas por cataclismos e que a humanidade será aniquilada pelos deuses (ou pelo “Jaguar Azul”), restando aos justos encontrar a mítica “Terra Sem Males”.
- Milenarismo Medieval: Impulsionado por crises como a fome, a peste e a opressão feudal na Idade Média, dando origem a profecias apocalípticas e movimentos como os Hussitas.
- Era Moderna (Testemunhas de Jeová): Movimento do século XIX que crê que a história está nos “últimos dias”. Acreditam que, após a batalha do Armagedom — onde Deus destruirá os governos humanos —, a Terra virará um paraíso sob o reinado de mil anos de Cristo.
- Exemplo no Brasil (Guerra de Canudos): Conflito ocorrido no sertão baiano (1896-1897), liderado por Antônio Conselheiro, que misturava catolicismo popular, messianismo, oposição à República e milenarismo.
A ciência
Finalmente, o autor chega à ciência, para dizer que “as previsões atuais ligadas à guerra nuclear ou à crise climática não se baseiam em revelação religiosa, mas em análises científicas, geopolíticas e tecnológicas”.
O texto fala sobre as bombas atômicas sobre o Japão. Diz também que “é verdade que os cientistas usam, às vezes, uma linguagem apocalíptica. Hoje, termos como ‘apocalipse climático’ ou ‘colapso’ são utilizados, mas se diferenciam do antigo imaginário religioso do fim dos tempos. A principal diferença está no horizonte final: no milenarismo religioso, o fim geralmente conduz à redenção, juízo ou novo reino; nas projeções científicas, não há promessa de salvação transcendental, mas cenários probabilísticos que podem ser evitados ou mitigados por ação humana”.
Fica então nas mãos da humanidade se o fim dos tempos será evitado.
É dado o alerta de que a “pegada ecológica, já acendeu o sinal vermelho”. “O indicador mais importante é o Dia da Sobrecarga da Terra, Earth Overshoot Day, que marca a data em que a demanda da humanidade por recursos e serviços ecológicos em um determinado ano excede o que a Terra pode regenerar nesse mesmo ano. Estima-se que, para 2026, o Dia da Sobrecarga Global ocorra por volta de 24 de julho. Isso significa que, a partir desta data, a humanidade passa a operar em “déficit ecológico”, liquidando estoques de recursos e acumulando resíduos, como o CO₂, na atmosfera. Atualmente, a humanidade utiliza o equivalente a 1,7 a 1,8 Terras para sustentar seu estilo de vida”.
Falácia
O que nenhum desses profetas do fim dos tempos fala é que o problema só pode ser resolvido com o fim do capitalismo, a planificação da economia e os recursos dos sociais direcionados para a educação, a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico.
Ficar simplesmente “alertando” é inútil. Um exemplo simples é agricultura: se produz mais alimentos do que a humanidade pode consumir, mas uma pessoa morre de fome no mundo a cada 4 segundos.
O problema está na distribuição, não na produção. Se os alimentos chegassem a todos, não seria necessário o uso tão extensivo de terras para a agricultura. E isso se aplica a todos outros aspectos da vida.
Além de inúteis, esses alertas sobre o clima carregam o defeito de não darem voz a cientistas que negam as tais teorias “climáticas”, que são monopólio do imperialismo, interessado em chantagear e manter sob controle os países pobres.





