Síria

Inspetor admite: OPAQ falsificou relatório sobre uso de armas químicas

A entidade confirmou, diante do tribunal, que provas críticas foram retidas e inspetores discordantes foram ignorados

O ex-inspetor Brendan Whelan afirmou, em artigo publicado no domingo (24), que a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) ocultou divergências internas sobre a investigação do suposto ataque químico em Douma, na Síria, em 2018. A declaração foi feita após decisão do Tribunal Administrativo da Organização Internacional do Trabalho determinar que a OPAQ revertesse uma sanção aplicada a Whelan e pagasse indenização por violações relacionadas ao caso.

Whelan, químico orgânico e ex-inspetor da OPAQ, integrou a equipe enviada à Síria para investigar a alegação de ataque químico em Douma. Segundo ele, sua função incluiu o planejamento científico e a coordenação da missão. O ex-inspetor também afirmou ter sido o principal autor do relatório produzido pela equipe de investigação.

A principal acusação de Whelan é que a OPAQ ignorou e afastou inspetores que discordaram das conclusões finais. Segundo ele, a própria entidade confirmou, diante do tribunal, pontos levantados pelos dissidentes: provas consideradas importantes foram retidas, inspetores que divergiram da versão final foram acusados de quebra de confidencialidade e a direção se recusou a discutir as preocupações apresentadas por eles.

Entre os elementos citados por Whelan está uma avaliação de toxicologistas alemães, que, segundo ele, descartou gás cloro como causa da morte de mais de 40 vítimas. O ex-inspetor também mencionou a retirada de informações sobre níveis de compostos clorados em amostras ambientais. De acordo com Whelan, esses níveis não se diferenciavam do esperado em um ambiente natural.

O relatório final da OPAQ, publicado em 1º de março de 2019, concluiu haver fundamentos razoáveis para acreditar que houve ataque com gás cloro em Douma. A acusação de uso de armas químicas pelo governo sírio foi usada por Estados Unidos, França e Reino Unido para justificar ataques militares contra a Síria.

Whelan relatou que tentou alertar o diretor-geral da OPAQ, Fernando Arias, sobre problemas no relatório, mas não recebeu resposta. Segundo o ex-inspetor, uma mensagem interna apresentada ao tribunal mostrou que auxiliares teriam sido orientados a não se envolver com suas contestações.

Posteriormente, Whelan foi acusado de envolvimento no vazamento de uma avaliação de engenharia que contrariava conclusões oficiais sobre cilindros de gás. Ele foi sancionado e impedido de voltar a trabalhar na organização. A decisão do tribunal determinou a reversão da punição e o pagamento de indenização.

No artigo, Whelan afirmou que a OPAQ possui profissionais qualificados e uma missão importante, mas disse que um setor da direção comprometeu a investigação sobre Douma. Para ele, o problema estava na condução de uma apuração específica, e não na necessidade de controle internacional de armas químicas.

A decisão do tribunal não encerra a disputa sobre Douma, mas reconhece irregularidades na punição aplicada ao ex-inspetor. O processo também trouxe a público documentos sobre a recusa da direção da OPAQ em discutir divergências internas levantadas por membros da equipe que participou da investigação.

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