Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Coluna

Os contratos de Vorcaro

Os agrados de Vorcaro, como mesadas, diárias de hotel de luxo, transporte em jatinhos privativos, jantares e festas, eram oferecidos tanto aos “democratas” como aos “fascistas”

A nova revelação do escândalo do Banco Master deixou a esquerda pequeno-burguesa em êxtase. Afinal, foram divulgados áudios de tratativas muito amistosas do presidenciável Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro, que aparentemente estava atrasando as parcelas de certo contrato milionário para a produção de um filme sobre a vida de Jair Bolsonaro, a ser lançado no próximo dia 7 de setembro. Finalmente, o caso Master estaria sendo atrelado à direita bolsonarista e, consequentemente, Lula estaria prestes a correr o páreo com uma parelha de pangarés, Zema e Caiado.

De acordo com as informações vazadas pelo Intercept e veiculadas pelo restante da imprensa burguesa, Vorcaro chegou a repassar a Flávio R$ 61 milhões de um contrato de R$ 134 milhões, um pouco superior ao da mulher do ministro Alexandre de Moraes, a qual, no entanto, conseguiu receber R$ 80 milhões dos R$ 129 milhões contratados para a elaboração de um suposto Manual de Boas Práticas do Banco Master.

Uma das mensagens de Vorcaro, divulgada por ocasião da revelação do contrato com a mulher do Xandão, enfatizava que aquelas parcelas não poderiam atrasar de jeito nenhum. Flávio Bolsonaro e seu filme não eram tão importantes quanto o poderoso ministro do STF, de quem o próprio Vorcaro disse que queria se aproximar, sendo essa a razão de contratar o escritório Barci de Moraes. Aliás, ao declarar isso, Vorcaro eliminou quaisquer dúvidas que ainda pairassem entre os defensores incondicionais do ministro, mormente aqueles que nem mesmo conseguiam acreditar na existência do contrato.

Estamos diante de dois contratos vultosos, de dinheiro que pouca gente vê na vida. Vorcaro, sabedor de que estava gerenciando uma enorme falcatrua, cercou-se de poderosos, entre políticos no Congresso, a exemplo de Ciro Nogueira, incumbido de elaborar leis de seu interesse e atuar por sua aprovação, juízes do STF, para garantir decisões favoráveis e a simpatia do Judiciário aos pleitos de seu interesse, e o presidenciável Flávio Bolsonaro, que, caso ganhasse a eleição, tudo faria para encobrir as negociatas, favorecendo, é claro, os seus interesses. Como costuma acontecer nesse tipo de escândalo, as informações chegam em conta-gotas. Assim, temos de lidar com o que já sabemos.

Uma coisa é certa: Vorcaro pouco se importa com a suposta polarização política entre democracia e fascismo. Seus milhões e seus agrados, como mesadas, diárias de hotel de luxo, transporte em jatinhos privativos, presentes, jantares, festas, eram oferecidos tanto aos “democratas” como aos “fascistas”, que se refestelaram igualmente no banquete.

Mais interessante é que, nas altas esferas, onde circula o dinheiro grosso, a polarização não se exprime pela disputa entre Bolsonaro e Lula, mas pelo embate entre Bolsonaro e o STF. Pelo menos, é isso o que os altos contratos parecem fazer supor. A esquerda pequeno-burguesa que se aglutina no site 247 comemorou a notícia do envolvimento do filho de Bolsonaro no caso Master – e não faltou o Alex Solnik a lembrar que o dinheiro dado por Vorcaro ao Flávio é “sujo”. Se o dinheiro dado ao Flávio é sujo, por que não o seria o dinheiro pago ao escritório Barci de Moraes? Não vale dizer que os milhões tinham carimbo de “democracia” ou “fascismo” – ou vale?

O fato é que Flávio tentou justificar a bufunfa alegando se tratar de dinheiro privado de um banqueiro simpatizante de seu pai, que pretendia financiar um filme “sem Lei Rouanet”, ou seja, sem abatimento de impostos, sem recursos públicos. É claro que a desculpa se revelou esfarrapada, como, de resto, têm sido as explicações dos envolvidos no caso Master. No caso de Flávio, logo apareceram conexões com um fundo que estaria financiando a estada de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e, daí em diante, novas ramificações devem aparecer. Fatos novos tendem a ajudar a esquecer os anteriores, mas, sem querer encarnar o espírito de porco, se vamos engolir que o contrato da doutora Viviane era legal, ainda que, parafraseando o Lula, fosse imoral, o que nos impediria de aceitar o patrocínio do filme pelo empresário? O Itaú investiu no “Ainda estou aqui”, que ganhou o Oscar; Vorcaro pretendia investir no “Dark horse”.

É claro que a cifra é demasiado alta para um projeto, digamos, modesto, sem o aparato das superproduções hollywoodianas Os comentaristas do Bom Dia 247 calcularam o orçamento do filme-biografia de Bolsonaro em, no máximo, com boa vontade, uns R$ 2 milhões. Sem entrar no mérito dos custos reais da produção,  temos de admitir que, se um Manual de Compliance de fachada foi orçado em R$ 129 milhões e está tudo bem, então não temos muito de que reclamar. O óbvio é que Vorcaro estava pagando favores, influência, “amizade”, o que é muito pior quando envolve um juiz da mais alta corte – um funcionário público vitalício, que ganhou o cargo por indicação política no âmbito de um golpe de estado. Um senador e candidato à presidência, que depende de votos do eleitorado, pode ver sua carreira política encerrada e, com menos sorte ainda, ser condenado por suas ilicitudes, enquanto os monarcas da corte suprema não têm de se preocupar com esse tipo de dissabor.

A simples possibilidade de que um juiz – sobretudo do STF – profira decisões a soldo deveria ser objeto de rigorosa investigação. O contrato com o Master veio a público porque o banco quebrou. Quantos outros empresários influenciam a corte mediante contratos similares com parentes de magistrados, auferindo, em troca, simpatia por seus pleitos na Justiça? Se o paladino da moralidade, o sr. Moraes, investido de poder para acabar com a vida de pessoas do povo, condenadas por bagatela a 15, 16 ou 17 anos de prisão, está no “esquema”, que pensar dessa instituição? É difícil convencer as pessoas de que é normal um sujeito tão rigoroso com gente do povo ser consigo próprio tão indulgente. Quanto aos políticos fisiológicos, deles já não se espera grande coisa.

 P.S. Na semana passada…

Há males que vêm para o bem. A crise desencadeada pela rejeição de Jorge Messias ao STF, depois de oito horas de sabatina, pôs às claras que o diálogo com os inimigos, opção recorrente de Lula, não é boa política. No frigir dos ovos, Alexandre de Moraes, o juiz paladino da democracia, uniu-se ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para impor-lhe uma constrangedora derrota a poucos meses da eleição.

Articulistas do campo progressista, que vinham esgrimindo argumentos em defesa do juiz e endossando a suposta lisura do contrato de R$ 129 milhões do escritório Barci de Moraes com o Banco Master, ficaram com a batata quente nas mãos. Entre a “democracia” e a própria pele, Moraes optou por salvar os milhões que, por intermédio da esposa, amealhou do dinheiro oriundo das falcatruas de Vorcaro. Há os que ainda defendem que Lula não deveria ter soltado a mão do ministro, que, afinal, o teria ajudado a conquistar seu mandato, fazendo frente aos extremistas de direita.

E, pasmemos todos, há vozes na esquerda regurgitando a tese da “mulher negra no STF”. Um articulista do Brasil 247 defende que Lula conserte o seu erro, indicando uma pessoa com essas características, que, a seu ver, mobilizaria a opinião pública, forçando Alcolumbre a aceitá-la. Na opinião dele, Lula não deveria indicar alguém de sua confiança, mas alguém que conheça a Constituição – e blá-blá-blá.

Esquece-se o articulista de que conhecer a Constituição é o que menos importa nesse tribunal, hoje eminentemente político. Além disso, escolher alguém por ser mulher e por ser negra para forçar a aceitação sob pena de “cancelamento” é o pior dos caminhos. Nada contra mulheres negras, mas uma candidata escolhida pelo critério identitário seria, necessariamente, alguém que pactua com esse tipo de política, portanto mais do mesmo no glorioso STF.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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