Ásia

Redes sociais na Índia têm grande movimentação crítica ao regime

A iniciativa cresceu rapidamente entre jovens indianos após o magistrado Surya Kant comparar jovens sem emprego e ativistas a baratas durante uma audiência pública

Abhijeet Dipke, cidadão indiano formado em relações públicas em Boston, nos EUA, lançou o “Partido Popular das Baratas” na internet no sábado (16), como sátira a uma fala do presidente da Suprema Corte da Índia. A iniciativa cresceu rapidamente entre jovens indianos após o magistrado Surya Kant comparar jovens sem emprego e ativistas a baratas durante uma audiência pública na sexta-feira (15), provocando indignação, adesões em massa e a criação de páginas e formulário de filiação.

O protesto começou com uma piada publicada por Dipke, de 30 anos. Depois da frase do magistrado, escreveu nas redes sociais uma pergunta provocativa: o que aconteceria se todas as baratas se unissem. A resposta veio em forma de paródia política: um partido fictício, com site, contas em redes sociais e manifesto próprio, usando o nome Cockroach Janta Party, expressão que pode ser traduzida como Partido Popular das Baratas. A palavra “janta” significa “povo” em hindi, e a sigla CJP foi construída como trocadilho com o Partido do Povo Indiano (BJP), legenda do primeiro-ministro Narendra Modi. 

A fala de Surya Kant ocorreu em meio a um debate público marcado pelo desemprego entre jovens, pelo encarecimento da vida e por protestos estudantis contra vazamentos de provas. O magistrado afirmou que “parasitas” estariam atacando o sistema e associou jovens sem emprego ou sem espaço profissional a baratas. Ele citou pessoas que se tornam integrantes da imprensa, usuários de redes sociais, ativistas pelo direito à informação e outros ativistas, acusando-os de atacar todos ao redor. Depois, Kant afirmou que se referia a pessoas com diplomas fraudulentos e não à juventude indiana, que chamou de pilar de uma Índia desenvolvida.

A explicação não conteve a reação. Em três dias, a conta do CJP no Instagram ultrapassou 11,1 milhões de seguidores, segundo os dados citados no material, enquanto mais de 350 mil pessoas preencheram um formulário de adesão. Entre os inscritos apareceram nomes conhecidos da política, como Mahua Moitra, parlamentar de oposição do estado de Bengala Ocidental, e Kirti Azad, ex-parlamentar do estado de Bihar.

O partido fictício se apresenta como uma união de “baratas preguiçosas e desempregadas” e afirma ter como critérios de participação ser desempregado, preguiçoso, viver conectado e reclamar profissionalmente. Seu lema se define como uma frente política da juventude, pela juventude e para a juventude, “secular, socialista, democrática e preguiçosa”. O tom de deboche, porém, convive com críticas diretas a temas sensíveis da política indiana, como denúncias de manipulação eleitoral, atuação de grandes grupos de comunicação privados e nomeações de magistrados para cargos públicos após a aposentadoria.

Dipke afirmou ter montado a estrutura digital do partido em 24 horas, com auxílio de ferramentas de inteligência artificial como Claude e ChatGPT para desenhar a aparência da página e organizar o manifesto. A velocidade da adesão o levou a passar noites sem dormir, respondendo mensagens e tentando manter a mobilização. Para ele, a sátira não deve ser tratada apenas como brincadeira, pois expressa a frustração de pessoas que ficaram caladas por muito tempo.

A repercussão também expôs a insatisfação de uma geração que enfrenta dificuldades para entrar no mercado de trabalho. A Índia forma mais de oito milhões de graduados por ano, mas o desemprego entre formados chega a 29,1%, taxa nove vezes maior do que a registrada entre pessoas que nunca frequentaram a escola. 

Para apoiadores, o Partido Popular das Baratas funciona como um alívio cômico diante de um ambiente político de medo. Ashish Joshi, servidor aposentado do governo federal, disse ter aderido cedo à iniciativa por enxergar nela uma espécie de “ar fresco” em um país onde muitas pessoas temem se manifestar. O advogado Prashant Bhushan, conhecido por atuar na Suprema Corte e em causas de direitos, avaliou que a fala do presidente do tribunal revelou preconceito contra ativistas e jovens. Já o criador de conteúdo Meghnad S, que entrevistou Dipke, disse que a piada tomou vida própria porque muitas pessoas procuram experiências políticas que escapem das formas tradicionais.

O resultado é uma mobilização sem registro formal como partido real, mas com impacto público imediato. A piada das baratas virou um protesto contra o desprezo dirigido a jovens desempregados e ativistas, usando humor para devolver ao poder uma imagem incômoda: se as baratas nascem onde há podridão, a metáfora escolhida pelo juiz acabou sendo apropriada pelos próprios jovens como denúncia do estado da política indiana.

O fato de o movimento estar majoritariamente restrito às redes sociais, seguir o modelo de “revolta da geração Z”, sem conexão histórica com nenhum tipo de organização de luta dos trabalhadores, similar ao que ocorreu no Nepal, quando a organização do movimento partiu de ONGs financiadas pelo NED e ter reivindicações vagas levanta fortes suspeitas de haver um impulsionamento ou consentimento do imperialismo para o movimento. É de se destacar que organizações combativas ou revolucionárias têm seu alcance limitado nas redes sociais, como acontece com a Causa Operária TV, por exemplo. 

Além disso, o movimento operário não costuma dar repentina repercussão para personalidades desconectadas de sua história. Geralmente, quando isso acontece, trata-se de uma operação da burguesia. Outro ponto suspeito é o movimento partir de um indiano formado em uma universidade nos EUA. Apesar dos indícios, ainda é necessário observar se o movimento é orgânico ou pode estar sendo capitalizado por agências de inteligência do imperialismo para ampliar a ingerência no regime político indiano.

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