Brasil

Marcola é um santo comparado aos banqueiros

Para que se combata de fato o crime seria necessário que se diminuísse o abismo social no País; seria preciso investir em gastos sociais, gerar empregos

Carandiru

O editorial do Estadão desta segunda-feira (18), O Brasil à mercê das máfias, não está falando dos bancos, naturalmente, mas do “crime organizado”. O texto informa que “passados 20 anos dos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) contra as forças de segurança de São Paulo, que deixaram 564 mortos e aterrorizaram os paulistanos, não restam dúvidas de que o Brasil fracassou até agora no enfrentamento do crime organizado”.

Sem dúvida o número é alto, ainda mais considerando que o Brasil não esteja em uma guerra. No entanto, no Rio de Janeiro, em uma única chacina, a polícia matou, oficialmente, 117 pessoas. Qual foi a reação da imprensa? A de sempre, acobertar.

Para o Estadão, “em vez de reconhecer a força do PCC e enfrentá-lo conforme essa realidade, o poder público entrou em estado de negação. Autoridades paulistas chegaram a se jactar de que o bando havia sido desmantelado. Depois da ofensiva do grupo criminoso, ficou cada vez mais claro que a violência em São Paulo passou a depender dos humores do PCC”.

O problema é que esse jornal da direita não quer se combata de fato o crime, pois para isso seria necessário que se diminuísse o abismo social no País; seria preciso investir em gastos sociais, gerar empregos. Mas nada disso é possível se existe um teto de gastos, apoiado pela grande imprensa, que exige que se gaste o máximo possível com o pagamento de juros criminosos para os bancos.

A grande imprensa também é a favor de os banqueiros controlarem o banco central, o que resulta em juros elevadíssimos e menos dinheiro para saúde, educação, e mais se aprofundam as desigualdades.

O Estadão também é a favor da política de privatizações, de modo que o Brasil é assaltado, e o resultado é um país riquíssimo com sua população na pobreza e dependendo de programas como o Bolsa Família que, se não existisse, condenaria pelos 25% da população a passar fome.

A “solução” de sempre

Como o próprio jornal é obrigado a reconhecer, “os políticos e as autoridades empenharam-se em endurecer as penas para os integrantes de facções criminosas, como se a letra da lei bastasse para desestimular o crime organizado. Exigir punições draconianas para os bandidos pode render votos”, e termina como era de se esperar, dizendo que isso “não altera essencialmente o ecossistema que transformou bandos criminosos em empreendimentos prósperos”.

Os empreendimentos verdadeiramente prósperos estão nas mãos da burguesia. Como a aquisição de empresas, como da água e eletricidade, construídos  às duras penas com o dinheiro do povo.

O editorial diz que “o PCC, que nasceu no sistema prisional paulista, ganhou as ruas, dominou territórios, cruzou fronteiras, traçou novas rotas para o tráfico internacional de drogas e diversificou seus negócios, transformando-se numa holding do crime”. Apenas não explica que os presos começaram a se organizar nas prisões para obrigar o governo a cumprir a lei e julgar os casos dos presos que podem ficar esquecidos em um ambiente completamente insalubre que fere todas os sentidos os direitos e dignidade humanos.

O ‘monstro’

Para o jornal burguês, “o crescimento do grupo impressiona. Há pouco mais de dez anos, o PCC era formado por 7,6 mil integrantes, estava presente em 22 Estados e 3 países e faturava R$ 120 milhões anuais. Hoje, são 40 mil bandidos, em 28 países, movimentando nada menos que R$ 10 bilhões anualmente”. Não deveria impressionar, uma vez que é alimentado pelo sistema prisional que permite que pessoas fiquem presas provisoriamente por anos. E são milhares, pelo menos 293 mil presos nessas condições. Alguma palavra do Estadão?

Uma pergunta que o jornal deveria fazer, diz respeito a esses R$10 bilhões que precisam ser legalizados e isso é obra do sistema financeiro, que muito raramente vê um dos seus atrás das grades.

O que o jornal faz é tentar aumentar o medo nas pessoas sobre o crime organizado. Diz que a coisa só piora, pois “um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública identificou mais de 80 organizações criminosas nos presídios brasileiros”.

“Policiais, promotores, juízes, advogados e estudiosos da segurança pública fizeram um prognóstico perturbador ao Estadão: o Brasil está numa encruzilhada. Ou o País adota novos instrumentos legais para isolar e controlar as facções criminosas, como fez a Itália contra as máfias, ou sucumbe à infiltração da criminalidade no Estado e na economia, como ocorre no México”.

Quais instrumentos legais, a propósito? Mais aprisionamentos, aumento de penas?

Curiosamente, o editorial diz que “é preciso reconhecer que há facções no País que já são máfias. E, como ensina a tradição italiana, a máfia é um parasita que faz da sociedade seu hospedeiro, intimidando os cidadãos, impondo a lei do silêncio, controlando atividades econômicas e contratos públicos e criando barreiras nas eleições, numa relação simbiótica que ameaça a democracia”. Será que tomou coragem para denunciar os bancos?

Todo o alarde de que o Brasil vai ser capturado pelo crime, que vai se transformar em um ‘narcoestado’, pode muito bem ser solucionado com a legalização das drogas. Em vez disso, dizer que se trata de um problema internacional, abre espaço para a ingerência dos Estados Unidos que, a pretexto de combater o tráfico, acaba controlando as polícias e abrindo bases militares em solo estrangeiro.

No final das contas, a única que o Estadão consegue propor é o de sempre, diz que “ solução requer coragem e inteligência: coragem, para retomar territórios capturados pelo crime organizado nas principais metrópoles brasileiras; e inteligência, para asfixiar a lavagem de dinheiro que oxigena as máfias”, etc.

A burguesia e seus jornais não podem tocar de fato no problema, pois isso implicaria em perda de dinheiro para o burguês, que é quem atira a população na pobreza e no crime.

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