Guerra no Oriente Próximo

Ex-diretor da CIA: ‘Irã está com uma arma em nossas cabeças’

Leon Panetta afirmou ao The Times que o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz dá grande vantagem a Teerã contra os EUA

O ex-diretor da CIA e ex-secretário de Defesa dos EUA Leon Panetta afirmou que o Irã possui grande poder de pressão contra os Estados Unidos por causa do Estreito de Ormuz. Em entrevista ao jornal britânico The Times, publicada na quinta-feira (14), Panetta declarou que Teerã está, neste momento, “com uma arma em nossas cabeças” enquanto o conflito regional continua e as negociações permanecem sem acordo.

A declaração foi feita após o presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping, tratarem em Pequim da necessidade de reabertura da passagem marítima para garantir o fluxo de energia no comércio mundial. O Estreito de Ormuz liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e é uma das rotas mais importantes para o transporte de petróleo e gás natural liquefeito.

“Minha impressão é que é muito provável que esta guerra, que deveria acabar depois de seis a oito semanas, provavelmente continue por vários meses”, disse Panetta ao The Times.

“Isso ocorre porque não encontramos a chave para conseguir não apenas um cessar-fogo contínuo, mas uma resolução para algumas das questões cruciais, o que permitiria acabar com a guerra. O presidente, francamente, tem pouquíssimas opções”, acrescentou.

Panetta também questionou a utilidade de novas ações militares norte-americanas contra o Irã. A observação foi feita depois de Trump ameaçar novos ataques diante da falta de avanços nas conversas entre os EUA e Teerã.

“Eu questiono se uma ação militar adicional vai produzir alguma mudança real no regime”, disse o ex-chefe da CIA. Segundo ele, o Irã demonstrou capacidade de “resistir a muita coisa” e os próprios serviços de inteligência norte-americanos indicam que o país pode continuar resistindo a esse tipo de pressão.

“Então não tenho certeza de que a ação militar forneça uma chave para tentar aplicar pressão neste momento”, afirmou.

Para Panetta, Trump precisa decidir se buscará uma solução rápida por meio de negociações. Segundo ele, isso exigiria tratar tanto da crise em Ormuz quanto do programa nuclear iraniano.

“O presidente vai ter que decidir: ele continua buscando algum tipo de fim rápido para a guerra? Se sim, isso significa que ele precisa lidar com o Estreito de Ormuz e, no mínimo, precisa fornecer um mecanismo de negociação para a questão nuclear. Mas esse processo não existe neste momento”, afirmou.

O ex-diretor da CIA também afastou a possibilidade de uma invasão terrestre norte-americana ao Irã, salvo em uma operação voltada à tomada de controle do Estreito de Ormuz. Ele afirmou que, quando esteve à frente do Pentágono, a avaliação era de que uma operação desse tipo exigiria tropas suficientes para cobrir 50 milhas de cada lado do estreito e mais 100 milhas para dentro da região.

“Haverá baixas como resultado desse tipo de esforço”, disse Panetta.

Segundo o ex-secretário de Defesa, a única solução de longo prazo para os EUA passa por algum arranjo internacional que garanta o tráfego marítimo pela passagem. “Neste momento, o Irã está com uma arma em nossas cabeças com o fechamento do Estreito. De alguma forma, temos que encontrar um meio de garantir que essa arma não esteja lá”, afirmou.

Panetta declarou ainda que as agências de inteligência dos EUA sempre previram que o Irã responderia a um ataque fechando Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo transportado no mundo. Ele criticou o governo Trump por não ter se preparado adequadamente para esse cenário.

“Enquanto o Estreito permanecer fechado, enquanto eles continuarem colocando enorme pressão sobre os EUA e a economia mundial, não vamos chegar a lugar nenhum porque eles têm a vantagem”, afirmou.

O ex-diretor da CIA criticou ainda os negociadores de Trump. Panetta citou Steve Witkoff e Jared Kushner, classificando-os como “apenas dois homens de negócios de Nova Iorque”, sem experiência diplomática.

Segundo ele, a principal pressão norte-americana sobre o Irã continua sendo a oposição ao programa nuclear iraniano. Panetta afirmou que os dois lados aguardam que o outro recue primeiro. “Em muitos sentidos, ambos consideram o outro lado um tigre de papel”, declarou.

O ex-chefe da CIA também apontou a falta de confiança entre as partes. Segundo ele, os EUA desconfiam da direção iraniana, enquanto Teerã questiona se Donald Trump cumprirá qualquer acordo futuro.

As declarações de Panetta foram divulgadas no momento em que autoridades iranianas anunciaram novas medidas sobre Ormuz. Ebrahim Azizi, presidente da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento iraniano, afirmou em publicação no X, neste sábado (16), que o Irã preparou um mecanismo profissional para administrar o tráfego no Estreito de Ormuz.

Segundo Azizi, a medida será apresentada em breve e foi elaborada “no marco da soberania nacional e da garantia da segurança do comércio internacional”. O mecanismo prevê uma rota designada para a passagem de embarcações comerciais e a cobrança de taxas por “serviços especializados”.

“Nesse processo, apenas embarcações comerciais e partes que cooperam com o Irã se beneficiarão dele”, afirmou o parlamentar.

Azizi declarou ainda que a rota não estará aberta aos operadores do chamado “Projeto Liberdade”, operação naval anunciada por Trump e suspensa 48 horas depois de sua apresentação, em 4 de maio. O parlamentar afirmou que Teerã não aceita controle externo sobre Ormuz e que a administração do estreito e do Golfo Pérsico não será determinada por publicações de Trump.

Ali Nikzad, vice-presidente do Parlamento iraniano, também havia afirmado que o Irã não recuará de seus direitos sobre o Estreito de Ormuz. Segundo ele, o Parlamento deve aprovar uma nova lei para estabelecer um novo regime jurídico para a passagem, levando em conta as condições da República Islâmica, as normas do direito internacional e os direitos dos países vizinhos.

Pelo projeto, embarcações ligadas ao regime israelense não poderão passar pelo estreito em nenhuma circunstância. A autorização também será negada a países hostis, especialmente os Estados Unidos.

A imprensa iraniana também noticiou novas advertências militares contra os EUA. Um oficial citado pela agência Nour News afirmou que alvos antes considerados “seguros” pelos norte-americanos passaram a estar ao alcance operacional das forças iranianas.

A declaração foi feita após Trump afirmar, a bordo do Air Force One, que os EUA “apagaram as Forças Armadas” do Irã e que talvez precisem fazer “um pequeno trabalho de limpeza” no país. O oficial iraniano declarou que as Forças Armadas notificaram todas as unidades operacionais sobre um “plano abrangente de resposta imediata”.

Segundo a Nour News, qualquer “erro de cálculo ou ação hostil” será respondido com “fogo pesado e simultâneo” contra interesses e infraestrutura dos EUA na região. O oficial afirmou ainda que alvos não atacados durante a guerra de 40 dias, por decisão política e militar iraniana, agora receberam prioridade operacional.

De acordo com a reportagem, a nova orientação militar iraniana leva em conta pressões energéticas, dificuldades logísticas das forças norte-americanas e vulnerabilidades regionais. A imprensa iraniana informou que a estratégia indica uma ampliação da capacidade de resposta de Teerã diante de novas ameaças dos EUA.

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