Europa

Alemanha classifica melancia como símbolo extremista e antissemita

Relatório da inteligência interna alemã trata emblemas de solidariedade à Palestina como indício de “extremismo”

A agência de inteligência interna da Alemanha incluiu a melancia, o personagem Handala e palavras de ordem em defesa da Palestina em um relatório sobre o que chamou de “extremismo pró-palestino secular”. O documento, publicado pelo Escritório Federal para a Proteção da Constituição (BfV), provocou críticas nas redes sociais e entre defensores da liberdade de expressão por associar manifestações contra o genocídio em Gaza a extremismo e antissemitismo.

No relatório, o BfV afirma que determinados grupos, redes, organizações e indivíduos ligados à causa palestina estariam unidos por sua “hostilidade contra Israel”. A agência também acusa esses setores de negarem o “direito de existir” de “Israel”, formulação usada de maneira recorrente pelos defensores do Estado sionista para enquadrar a oposição política ao genocídio e à ocupação da Palestina como antissemitismo.

Ao tratar da melancia, usada há décadas como símbolo da solidariedade ao povo palestino por reunir as cores da bandeira palestina, o órgão alemão escreveu: “a melancia, aludindo às cores da bandeira palestina, é um símbolo de solidariedade com a Palestina. Aqui, a representação de todo o Estado de Israel é retratada nas cores da bandeira palestina (como uma melancia cortada), negando assim o direito de existência de Israel”.

A acusação revela o grau de perseguição política contra manifestações de apoio à Palestina na Alemanha. Um desenho com as cores da bandeira palestina passa a ser apresentado pelo Estado alemão como prova de uma ameaça extremista. O mesmo ocorre com Handala, personagem criado em 1969 pelo cartunista palestino Naji Al-Ali. O menino refugiado, de 10 anos, desenhado de costas, tornou-se uma das imagens mais conhecidas da causa palestina.

O BfV descreveu Handala como vinculado à “resistência palestina” e o colocou entre os “símbolos e marcas de identificação” do setor investigado. Também citou a palavra de ordem “Yalla Yalla Intifada”, afirmando que ela “pode ser interpretada” como simpatia à violência ou como chamado à resistência violenta.

O relatório possui seções sobre “antissemitismo no extremismo pró-palestino secular”, “símbolos e marcas de identificação” e “articulação entre extremistas pró-palestinos, extremistas de esquerda e islamistas”.

A agência alemã afirma que, nos protestos contra “Israel”, principalmente em Berlim, declarações e imagens “anti-Israel e às vezes antissemitas” aparecem com frequência. O documento também diz que, “por trás de uma aparente crítica ao Estado israelense”, haveria, em muitos casos, “agitação antissemita”.

Segundo o BfV, “nenhuma distinção é feita entre as ações do Estado israelense e aquelas da comunidade religiosa judaica, e estereótipos antijudeus são projetados sobre Israel”.

O relatório também inclui o lema “do rio ao mar, a Palestina será livre” e o slogan “se Gaza queimar, Berlim queima” como exemplos citados pela inteligência alemã. A agência classificou esta última frase como ameaça.

O documento menciona ainda organizações e setores que a agência considera “atores relevantes” no chamado “extremismo pró-palestino secular”, entre eles a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS).

Sobre setores ligados ao BDS, o BfV afirma que eles “ostensivamente exigem a implementação da solução de dois Estados”, mas apoiariam, direta ou indiretamente, o “terrorismo” do Hamas, da Jiade Islâmica Palestina e da FPLP. A agência também afirma que indivíduos palestinos “contribuem significativamente para o aumento da radicalização e da disposição ao uso da violência”.

A publicação do relatório ocorre em meio ao aumento da repressão alemã contra manifestações pró-Palestina desde a intensificação da ofensiva de “Israel” contra Gaza, em outubro de 2023. Protestos foram proibidos em várias ocasiões, e a polícia alemã realizou prisões em atos realizados em Berlim.

No mês passado, a polícia prendeu manifestantes, incluindo menores. Imagens feitas durante os protestos mostraram agentes derrubando participantes no chão, arrastando pessoas e imobilizando manifestantes. Segundo os registros mostram, as manifestações estavam pacíficas antes da intervenção policial.

“Eles estão nos prendendo há três anos até agora”, disse uma manifestante palestina. “Só porque somos palestinos, e eles estão comprometidos com um genocídio. Eles são fascismo”.

Em março, familiares e advogados de ativistas contra o comércio de armas presos após entrarem em uma instalação da maior fabricante de armas de “Israel” na Alemanha afirmaram que os detidos estavam submetidos a “isolamento extremo” na prisão, sob condições restritivas.

A Alemanha mantém o apoio a “Israel” como parte de sua política oficial de Estado. O princípio é chamado no país de Staatsräson, expressão usada para indicar que a defesa de “Israel” integra a razão de Estado alemã.

Pouco depois do início da ofensiva israelense contra Gaza, Robert Habeck, então vice-chanceler da Alemanha, publicou uma mensagem em vídeo dirigida aos israelenses. “Estamos ao seu lado, e não esquecemos nada”, afirmou, em referência ao papel da Alemanha no Holocausto.

A Alemanha é o segundo maior fornecedor de armas a “Israel”, atrás apenas dos Estados Unidos. O governo alemão suspendeu brevemente alguns envios em outubro de 2025, após “Israel” aprovar uma ofensiva terrestre para tomar a cidade de Gaza, mas as transferências foram retomadas em novembro.

Em 21 de abril, a Alemanha e a Itália bloquearam uma proposta de Espanha, Irlanda e Eslovênia para suspender o acordo comercial entre a União Europeia e “Israel”. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, classificou a medida como “imprópria”.

“Temos que conversar com Israel sobre as questões críticas […] isso deve ser feito em um diálogo crítico e construtivo com Israel”, disse Wadephul.

No relatório do BfV, a palavra “genocídio” aparece uma vez, para se referir às acusações feitas contra “Israel”. A destruição de Gaza e o assassinato de mais de 73 mil palestinos são tratados no documento como “situação” humanitária na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.

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