Editorial

Até agora, crise não é suficiente para tirar Flávio da eleição

Base bolsonarista não se comporta como o eleitorado comum e pode se radicalizar com cerco do grande capital ao seu candidato

O vazamento dos áudios e mensagens de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, abriu uma crise real na candidatura do senador. Segundo o Intercept Brasil, Flávio teria negociado R$134 milhões, cerca de US$24 milhões, para financiar Dark Horse, filme biográfico sobre seu pai e ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A reportagem também afirma que parte do dinheiro teria sido transferida para um fundo no Texas ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro, seu irmão.

O episódio é um problema para Flávio. Ele aparece pedindo dinheiro a um banqueiro que se tornou símbolo de uma crise financeira e política. Mas é preciso medir o problema corretamente. Uma coisa é dizer que o vazamento desgasta a candidatura. Outra, bem diferente, é concluir que ela acabou. Esta segunda conclusão é precipitada.

A direita tradicional e o grande capital veem no escândalo uma oportunidade para reduzir o peso do bolsonarismo e abrir espaço para um candidato mais controlável. Romeu Zema e Ronaldo Caiado apareceram cobrando explicações, cada um tentando se colocar como alternativa para o eleitorado de direita.

Flávio Bolsonaro pode se tornar um candidato enfraquecido, mas ainda parece forte o bastante para impedir a entrada de uma direita “civilizada”, mais obediente ao grande capital. Afinal, mesmo bastante comprometido com a política neoliberal, o senador é visto como herdeiro político do pai, que, por sua vez, é líder de um movimento de massas.

Ao contrário de Zema e Caiado, Flávio Bolsonaro não depende apenas da boa vontade da imprensa, dos bancos ou dos comentaristas da direita tradicional. Ela se apoia em um fenômeno político real: o bolsonarismo. Esse setor não reage aos escândalos como reage o eleitorado liberal comum. Para grande parte da base bolsonarista, denúncias contra a família Bolsonaro não aparecem como prova de corrupção, mas como prova de perseguição. Quanto mais a imprensa, o STF e os adversários atacam, mais uma parte da base se fecha em defesa do grupo.

Até agora, não é possível afirmar que o vazamento tenha sido suficiente para fazer o eleitor bolsonarista migrar em massa para Zema, Caiado ou outro nome da direita tradicional. A pesquisa mais recente da AtlasIntel antes da crise mostrava Lula e Flávio em empate técnico no segundo turno: 47,5% para Lula e 47,8% para Flávio, com margem de erro de um ponto percentual.

A esquerda pode se entusiasmar com o escândalo. Mas a candidatura de Flávio Bolsonaro só estará liquidada se perder sua base social, sua capacidade de polarizar e sua utilidade para setores importantes da direita. Isso ainda não aconteceu.

Há outro erro nesta política: imaginar que a substituição de Flávio por Zema, Caiado ou outro nome do mesmo campo seria uma melhora. A chamada direita “civilizada” é a representante direta do capital financeiro, das privatizações, do arrocho e da submissão ao imperialismo. Foi essa direita que destruiu setores inteiros da economia nacional nos anos 1990, vendeu patrimônio público, atacou direitos sociais e entregou empresas estratégicas.

O bolsonarismo é reacionário, privatista e inimigo dos trabalhadores. Mas tem contradições internas, base popular mobilizada e uma retórica nacionalista que cria atritos com parte do regime. A direita tradicional quer eliminar essas contradições.

Por isso, a operação “nem Lula nem Bolsonaro” deve ser vista com cuidado. O ataque a Flávio Bolsonaro pode servir, no fim, não para fortalecer uma saída popular, mas para preparar uma candidatura ainda mais direta dos bancos e da grande imprensa.

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