Polêmica

O papel da esquerda não é correr atrás de corrupto

Em vez de defender um programa e disputar politcamente a consciência da classe trabalhadora, ‘esquerdista’ pede que se explore um suposto caso de corrupção para conseguir votos

Flávio Bolsonaro

A esquerda, de modo geral, entrou de cabeça na “luta contra a corrupção e ao crime organizado”. Valério Arcary, em seu artigo Inflexão na conjuntura?, publicado no sítio A Terra é redonda nesta quinta-feira (14), dedica toda uma parte sobre o assunto.

Já no primeiro parágrafo, o autor diz que “explodiu uma ‘bomba de fragmentação’ de repercussão incontível e consequências imprevisíveis. As mensagens em áudio entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro são a confirmação irrefutável das relações do bolsonarismo com o escândalo do Banco Master – que manteve relações com fundos que faziam lavagem de dinheiro para o PCC – a maior ‘orgia’ financeira da história do capitalismo brasileiro”.

O rombo financeiro produzido pelo Banco Master é da ordem de R$ 52 bilhões. Considerando os juros da dívida pública na casa de R$ 1 trilhão, o Brasil paga ao sistema financeiro algo em torno de R$ 2,7 bilhões diariamente, e em 19 dias os grandes tubarões acabam abocanhando a quantia que o Master levou 6 anos para morder. Portanto, nem de longe Daniel Vorcaro teria conseguido produzir “a maior orgia financeira da história do capitalismo brasileiro”, não que não tivesse vontade.

Perto dos grandes bancos, o Master não é nada, e se este consegue colocar tanta gente no bolso, o que não farão os verdadeiros donos do mercado?

Arcary demonstra uma verdadeira indignação em seu texto, diz que “a conversa explicita, também, que havia estreita intimidade e confiança entre os dois. Os áudios revelam o que já se suspeitava. Mas agora ninguém pode duvidar que o banqueiro mais corrupto da história do capitalismo brasileiro, um ladrão exibicionista e ostentatório é amigo íntimo dos Bolsonaros”. – grifo nosso.

O banqueiro “mais corrupto da história do capitalismo brasileiro produziu um rombo de pouco mais de R$ 50 bilhões, então o Brasil está realmente bem, é um verdadeiro alívio saber disso. Essa afirmação de “mais corrupto” tem base em quê?

Arcary escreve ainda que “Daniel Vorcaro é o rosto de uma fração burguesa degenerada e apodrecida: um aventureiro lúmpen que se dedicou à pilhagem de fundos de previdência de funcionários públicos com a cumplicidade do governador condenado Cláudio Castro do Rio de Janeiro, entre outros”. Claro, os demais banqueiros não fazem isso. Então, o que dizer dos juros a 15%, ou o empréstimo consignado?

Os juros do empréstimo consignado, que assola os servidores públicos, está na média de 2,20%, apesar do pagamento ser garantido. Não bastasse isso, a margem consignável estava em 45% e caiu para 40%. A margem é o montante que pode ser descontado do salário para o pagamento da dívida. Isso que é pilhagem.

Existe ainda a questão da dívida pública, um assalto permanente aos cofres públicos que tira dinheiro da educação, do SUS. E a vantagem dos banqueiros é que controlam o Banco Central e ditam os juros, o mesmo que as raposas tomando conta das ovelhas.

Tomado de indignação, Arcary afirma que “Daniel Vorcaro é peçonhento, venenoso e tóxico”. Diz que “não é a primeira vez que a resiliência da influência do bolsonarismo foi posta à prova”, contudo, diz que é hora da esquerda deve “aproveitar a oportunidade denunciando, impiedosamente, a cumplicidade do bolsonarismo com o bilionário corrupto preso”, e que “agora a bandeira de denúncia da corrupção está nas nossas mãos. Ela não pode tremer.”

Essa proposta é um rebaixamento político. A esquerda não tem que ficar fazendo papel de polícia ou apostando na corrupção para derrotar a burguesia. Daniel Vorcaro não está sendo punido por ser corrupto, mas por prejudicar interesses de corruptos mais poderosos.

Eleições

Outro ponto negativo da proposta de Valerio Arcary é que ela é fruto de um cálculo eleitoral, a “denúncia” visa os resultados das urnas, quando a esquerda deveria lutar por um programa e com ele conquistar a consciência das massas.

Para o articulista, “é previsível que haverá uma inflexão na conjuntura, porque a candidatura de Flávio Bolsonaro foi duramente atingida, e não está descartado que até possa ter que ser substituído, se as próximas pesquisas indicarem um desgaste muito forte”.

O que Arcary não consegue vislumbrar, é que tirar Flávio Bolsonaro da corrida eleitoral talvez seja uma jogada do grande capital, que esperava de Jair Bolsonaro apoio a um candidato de terceira via, e não que lançasse seu filho à presidência.

Com o bolsonarismo fora da disputa, a burguesia teria apenas que tratar da questão Lula da Silva, que também precisa tirar da frente, e pode muito bem utilizar a questão do INSS para sangrar a popularidade do presidente.

O pensamento eleitoreiro de Arcary fica explícito no parágrafo que afirma que “a avaliação é central para definir a melhor linha para a reeleição de Lula. O desafio é organizar os variados graus de pressão de cada fator. Uma luta eleitoral não é somente uma luta de argumentos. A disputa da consciência das massas precisa responder às inquietações que mexem com a subjetividade das pessoas, em especial, os afetos mais poderosos que expressam os interesses de classe. Entre eles o mais visceral: o medo. É o medo que incendeia a raiva, o ressentimento e o ódio”.

É completamente falso afirmar que isso seja disputar a consciência das massas. Antes o contrário, ao trabalhar com medo, ódio e raiva, está se apelando para a irracionalidade, o exato oposto da consciência.

Este é o ponto ao qual chegou a esquerda que se diz revolucionária, mas que reproduz em tudo o que faz a burguesia. Não é por menos que parte da classe trabalhadora se sente atraída pelo discurso da extrema direita.

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