Guerra no Oriente Próximo

Irã impõe uma derrota não apenas a Trump, mas ao imperialismo

A derrota de Trump contra o Irã é, na verdade, a derrota do imperialismo, que atuou na guerra de agressão, e só criticou após a derrota

Manifestação em Teerã

O sítio Esquerda Diário publicou nesta terça-feira (12) um artigo denominado A resposta iraniana aprofunda o dilema estratégico de Trump, assinado por Juan Chingo, no qual busca fazer uma análise da guerra de agressão contra o Irã, mas não toca em questões fundamentais.

Logo no início está escrito que “a resposta iraniana à última proposta estadunidense não só representa um rechaço parcial às exigências de Washington. Expõe também, sobretudo, o fracasso da estratégia coercitiva impulsionada por Donald Trump, deixando a Casa Branca presa entre duas opções cada vez mais problemáticas: escalar até uma guerra muito mais perigosa ou aceitar uma negociação muito distante dos objetivos proclamados ao início do conflito”.

Essa guerra, no entanto, não é apenas a derrota de Donald Trump, mas do imperialismo. No início do ataque, os principais países da União Europeia apoiaram e também participaram da agressão. Pode-se dizer que a guerra atrapalha, e muito, o presidente americano, que se elegeu prometendo acabar com as guerras eternas e os diminuir os exorbitantes gastos militares.

Atualmente, nos Estados Unidos, a infraestrutura do país está se deteriorando a olhos vistos, enquanto se gasta diariamente US$ 2,5 bilhões com despesas militares.

Segundo o artigo, no âmbito das negociações de paz, “a República Islâmica deixou claro estar disposta a discutir limites, supervisão e inclusive suspensões temporárias vinculadas a seu programa nuclear, mas não aceitará o desmantelamento irreversível de suas capacidades estratégicas”.

A vitória do Irã obrigou à mudança de tratamento que a esquerda pequeno burguesa vinha fazendo. De “regime dos aiatolás”, passa agora a ser chamado pelo que de fato é: uma República Islâmica.

Embora os iranianos estejam dispostos a fazer determinadas “concessões”, como inspeções, etc., estão conscientes de que não importa o que digam, as agressões continuarão, pois o país é um problema para a dominação do imperialismo no Oriente Médio.

As inspeções que já vinham sendo feitas, bem como os serviços de inteligência dos países imperialistas, sabiam que não havia risco de um programa nuclear voltado para a produção de bombas. Havia ainda duas fátuas emitidas pelo aiatolá Khamenei  que proibiam a fabricação e utilização de artefatos nucleares.

A ameça nuclear, por sinal, foi o primeiro pretexto que o imperialismo utilizou contra o Iraque. E não adiantou Saddam Hussein concordar com todo tipo de inspeções, o ataque veio do mesmo jeito.

Os iranianos exigem “garantias concretas sobre o fim definitivo da guerra” como forma de pressão política, pois sabe que o imperialismo não cumpre acordos.

A derrota é do imperialismo

O artigo aponta que o Irã resistiu com êxito “a pressão combinada entre Estados Unidos e Israel”. “Israel”, porém, teve uma papel utra secundário no conflito, reforçando aquilo que já tinha sido dito na Guerra dos Doze dias: O Estado sionista não é páreo para o Irã.

Embora os norte-americanos tenham sido a força principal, países da OTAN também participaram da operação, assim como estiveram na Guerra dos Doze dias e no genocídio na Faixa de Gaza.

O imperialismo é que está sendo derrotada, o Estado de “Israel”, por sua vez, está se transformando em um peso morto que não conseguiu derrotar a Resistência Palestina em Gaza, e que sofre agora perdas terríveis no sul do Líbano com os ataques avassaladores do Hesbolá,

Seguramente o status do Estado sionista foi alterado, e há quem diga, dentro do próprio país, que “Israel” está em dissolução, tamanha a crise que se abriu.

A segunda revolução

A análise da vitória iraniana no texto do carece de outro elemento fundamental: o povo. Uma quantidade gigantesca de iranianos nas ruas apoiando o governo foi um dos pontos altos, e pode ser considerada uma segunda revolução.

Milhões de populares tomaram as ruas e as praças. É verdade que já tinham feito isso no início do ano, quando o governo derrotou os mercenários contratados pela CIA e pelo Mossad para tentar criar o caos no Irã; desta vez, além de saírem aos milhões, a população não temia nem mesmo os bombardeios, e as demonstrações eram diárias.

Toda a campanha de que o “regime dos aiatolás” era uma ditadura que esmagava o povo se esfacelou. A esquerda pequeno-burguesa recuou, está agora mais cautelosa em suas críticas que, sobretudo, eram infundadas.

O artigo traz a opinião de Robert Kagan, “norte-americano e defensor de múltiplas guerras estadunidenses nas últimas décadas – reconhece agora que o conflito com o Irã poderia marcar um ponto de inflexão estratégico para a hegemonia estadunidense”.

A questão é muito mais profunda. Isso pode se facilmente verificado se for feito um paralelo com a derrota da OTAN no Afeganistão. Após a retirada atabalhoada de Cabul, com o avança irresistível do Talibã até a capital afegã, a imprensa imperialista tirou a conclusão, correta, de que se iniciaria uma rebelião por toda parte, pois outros países se sentiriam inspirados a lutar contra a dominação imperialista.

Não demorou muito, e a Rússia iniciou sua operação militar na Ucrânia, bem como vários países da África Ocidental, como Mali, Níger e Burquina Fasso, entraram em confronto com o imperialismo.

No Oriente Próximo, os sionistas foram confrontados pela Resistência Palestina e demonstrou que, ao contrário do que dizia a propaganda, “Israel” estava longe de ser invencível. O país perdeu pelo menos mil blindados em Gaza, bem como mais de 25 mil baixas nas forças armadas, abrindo uma crise que vem se agravando com as derrotas sucessivas contra o Hesbolá.

A análise materialista sobre a guerra no Irã precisa ultrapassar os Estados Unidos, pois sua crise é a crise de todo imperialismo.

Essa vitória coloca uma questão crucial para o grande capital: como enfrentar Rússia e China se não conseguiram êxito contra o Irã? A resposta tem sido aumento de gastos militares, mas isso tem corroído os programas sociais na Europa, o que tem aumentado a repressão dos Estados e a radicalização das massas.

A intervenção das massas, e isso o Irã acabou de demonstrar, será o fator decisivo para a derrota do imperialismo.

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