Leste europeu

Ucranianas viram barriga de aluguel para cobrir custo de vida

A prática ainda expõe crianças a abandono. Um menino nascido prematuro em 2021, com graves danos cerebrais, vive hoje em instituição estatal após os pais biológicos o abandonarem

Mulheres voltam a recorrer à barriga de aluguel remunerada na Ucrânia durante a guerra, diante da inflação, da perda de empregos e da alta do custo de vida. O caso de Karina Tarasenko, de 22 anos, mostra como a falta de renda empurrou jovens pobres para contratos de gestação em favor de casais estrangeiros. A ucraniana está grávida de seis meses de um embrião formado por material genético de um casal chinês e afirma que não teria aceitado a prática se a guerra não tivesse destruído sua vida anterior.

A guerra transformou a barriga de aluguel em alternativa de sobrevivência para mulheres que perderam moradia, emprego e renda. Karina viu sua casa ser destruída quando Bakhmut virou um dos principais campos de batalha. Depois, mudou-se com o companheiro para a capital ucraniana, mas não conseguiu trabalho estável. Em uma loja, com dinheiro insuficiente até para comprar pão e fraldas para a filha pequena, decidiu aceitar a gestação remunerada.

O contrato previa pagamento de 15,5 mil libras, cerca de R$ 118 mil, mas o valor foi reduzido para 12,5 mil libras, cerca de R$ 95 mil, depois que um dos gêmeos morreu durante a gravidez. Mesmo com a maior parte do dinheiro prevista apenas para depois do parto, a quantia representa aproximadamente o dobro do salário anual médio no país. A decisão de Karina, portanto, não aparece como escolha isolada, mas como resultado da devastação social que atinge milhões de ucranianos desde a intensificação da guerra.

Antes do conflito, a Ucrânia já era um dos maiores centros mundiais de barriga de aluguel comercial, atrás apenas dos Estados Unidos. A guerra reduziu a atividade por um período, mas o número de gestações por esse meio quase retornou ao patamar anterior. O setor depende fortemente de estrangeiros, que hoje representariam 95% dos futuros pais.

A situação abriu debate no Parlamento ucraniano sobre uma lei que, na prática, impediria estrangeiros de contratar barrigas de aluguel no país. Defensores da proposta dizem que clínicas se aproveitam do desespero das mulheres empobrecidas pela guerra.

A prática ainda expõe crianças a abandono. Um menino nascido prematuro em 2021, com graves danos cerebrais, vive hoje em instituição estatal após os pais biológicos deixarem de buscá-lo. Autoridades ucranianas afirmam que há outros casos semelhantes, embora o governo não tenha números exatos. Pela lei, os pais contratantes são responsáveis pela criança, mas a cobrança internacional se torna difícil quando eles desaparecem ou deixam o país.

Karina rejeita a ideia de exploração e diz que ninguém a obrigou a aceitar o contrato. Ainda assim, sua própria história mostra a pressão material que pesa sobre a decisão: sem casa, sem emprego seguro e com uma filha pequena, ela passou a ver o próprio corpo como meio de juntar dinheiro para comprar moradia. A guerra não criou sozinha a indústria de barriga de aluguel na Ucrânia, mas tornou mais duro o terreno em que ela se expande: pobreza, deslocamento, inflação e perda de perspectivas para mulheres jovens.

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