Viaturas da Polícia Rodoviária Federal foram perseguidas por pindios armados com arcos e flechas durante uma operação contra o garimpo na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. A ação ocorreu na segunda-feira, 11, na comunidade Napoleão, no município de Normandia, região conhecida pela atividade garimpeira.
A operação foi realizada pela PRF em conjunto com o Ibama. Segundo a versão oficial, os agentes teriam desarticulado uma estrutura de mineração considerada ilegal, que utilizaria substâncias como cianeto e mercúrio. Uma pessoa foi presa em flagrante. Ainda de acordo com a polícia, foram apreendidas duas armas de fogo, cerca de 1 kg de mercúrio, cabos de detonação, dois motores, três geradores e quatro motocicletas.
Os vídeos que circularam nas redes sociais, no entanto, mostram outro aspecto da operação: a reação dos próprios índios contra a presença da polícia. Em uma das gravações, homens em motocicletas perseguem uma viatura da PRF em uma estrada de terra. Um deles chega a disparar uma flecha contra o veículo. Em outro vídeo, ao menos cinco viaturas aparecem deixando o local, enquanto são ouvidos estampidos semelhantes a tiros.
“Os indígenas colocaram os caras para correr”, diz um morador da região que registrou uma das imagens.
A cena é reveladora. A campanha contra o garimpo, apresentada pelo Estado e pela imprensa burguesa como uma política de proteção ambiental e de defesa dos índios, aparece concretamente como uma operação policial contra os próprios moradores da região. Em vez de uma política voltada a garantir condições de vida, trabalho e desenvolvimento para a população local, o que chega às comunidades são viaturas, agentes armados, prisões e apreensões.
A PRF afirmou, em nota, que durante o deslocamento para Boa Vista o comboio policial identificou uma tentativa de bloqueio da via. Segundo a corporação, os agentes teriam agido seguindo “protocolos de segurança” para preservar a integridade da equipe, do preso e dos civis no local. A ocorrência foi levada à Polícia Federal em Boa Vista.
O episódio expõe a contradição central da política de combate ao garimpo. A atividade é tratada pelo Estado como caso de polícia quando realizada por pequenos garimpeiros, índios, trabalhadores pobres e moradores de áreas isoladas. Ao mesmo tempo, as grandes riquezas minerais do País permanecem sob controle ou sob ameaça permanente de controle dos grandes monopólios privados, muitos deles ligados ao capital estrangeiro.
A repressão ao garimpo nas terras indígenas não ocorre em um vazio político. Ela faz parte de uma campanha mais ampla, impulsionada por organismos internacionais, ONGs, governos imperialistas e pela imprensa capitalista, que utiliza a pauta ambiental para ampliar o controle sobre regiões ricas em minérios, água, floresta e biodiversidade. Sob o discurso da preservação, busca-se impedir que a população pobre local explore as riquezas de seu próprio território.
Esse mecanismo não atinge apenas os índios. A mesma política aparece contra trabalhadores sem terra, camponeses pobres e pequenos produtores, frequentemente tratados como criminosos quando ocupam, produzem ou exploram áreas disputadas por grandes proprietários, empresas ou pelo Estado. A polícia, nesses casos, atua como força de contenção social, protegendo a propriedade e os interesses dos setores dominantes contra a população trabalhadora.
No caso de Raposa Serra do Sol, a operação da PRF e do Ibama mostra que a chamada defesa das terras indígenas pode se transformar em repressão direta aos índios que vivem nessas terras. A política oficial não apresenta uma alternativa econômica real para essas comunidades. Apenas proíbe, reprime e criminaliza.
A questão do mercúrio, da contaminação e da destruição ambiental existe e afeta diretamente os trabalhadores e os índios. Mas a resposta do Estado não é organizar a produção em benefício da população, oferecer tecnologia, controle público, assistência técnica e condições seguras de exploração. A resposta é a presença policial. Com isso, o problema ambiental serve de justificativa para retirar das comunidades qualquer controle sobre as riquezas locais.
A reação dos índios em Normandia indica que há uma oposição concreta à política repressiva. Os vídeos mostram que parte dos moradores não vê a PRF como uma força de proteção, mas como uma força hostil. Essa percepção não surge por acaso. Para as populações pobres do campo, a polícia aparece, em geral, como o braço armado de decisões tomadas longe da realidade local, em Brasília, nos tribunais, nos ministérios e nos escritórios das grandes empresas.
A operação em Raposa Serra do Sol, portanto, não é apenas uma ação contra o garimpo. Ela revela uma política de fundo: impedir que os índios, camponeses e trabalhadores pobres tenham acesso às riquezas do território nacional, enquanto se mantém aberta a possibilidade de entrega dessas mesmas riquezas aos grandes monopólios.
Por trás da campanha “ambiental” contra o garimpo, está a disputa pelo controle dos recursos brasileiros. A repressão recai sobre o pequeno garimpeiro, sobre o índio e sobre o trabalhador pobre. Já os grandes interesses econômicos seguem preservados.





