O artigo Do Iluminismo ao algoritmo, de Marcio Pochmann, publicado no sítio A Terra é Redonda nesta terça-feira (28), levanta algumas questões sobre a tecnologia que precisam ser debatidas. Ultimamente, há uma ofensiva generalizada contra o uso da Internet e das redes sociais. Algo semelhante ao que aconteceu com a popularização da televisão.
Pochmann inicia seu texto dizendo que “a transição da expansão da consciência iluminista para a fragmentação digital revela como o monopólio da atenção sequestra a capacidade humana de abstração e reflexão profunda”. Durante o Iluminismo, que porcentagem da população tinha condições de fazer abstrações e reflexões profundas? O acesso a livros e a informações era escasso. Hoje, com o advento da Internet e das IAs, o acesso ficou muito mais democratizado.
“Se Karl Jaspers”, argumenta Pochmann, “identificou na chamada ‘era axial’ um momento de ruptura, em que diferentes civilizações produziram formas superiores de pensamento abstrato, reflexivo e universal, o século XXI parece apontar para um movimento inverso, com a reconfiguração regressiva das capacidades cognitivas sob a hegemonia das grandes plataformas digitais. Guardadas as devidas proporções históricas, trata-se de um processo que poderia sugerir uma espécie de nova forma de obscurecimento”.
Primeiro, é preciso pensar quais foram as condições materiais que propiciaram a produção de formas superiores de pensamento abstrato e reflexivo. Na Grécia Antiga, por exemplo, além de ser uma sociedade mercantil e que tinha contato com diversas culturas, apenas uma parcela de homens livres teve tempo para se dedicar ao pensamento. E isso foi possibilitado pela escravização de outros povos.
Atualmente, a classe trabalhadora praticamente não tem tempo ocioso. As classes dominantes, por sua vez, estão às voltas com a crise do capitalismo, que acaba refletindo na produção intelectual.
Circulação
Segundo o autor, “com a Idade Média eurasiana, o retrocesso obscurantista que se manifestou concentrado no saber nas instituições religiosas por dez séculos, coube ao Iluminismo colocar a razão, a crítica e a autonomia intelectual no centro da vida social. Ao defender o conhecimento científico, a liberdade de pensamento e a secularização do saber, o Iluminismo ampliou as bases da reflexão racional e da contestação das verdades impostas pela autoridade religiosa e política”.
Na Idade Média, o grande impedimento foi a dificuldade de circulação de pessoas e mercadorias. As instituições religiosas, felizmente, possuíam pessoas com tempo ocioso e podiam se dedicar a estudos. A notação musical, por exemplo, nasceu nos mosteiros.
E não foi exatamente o Iluminismo que ampliou as bases de reflexão racional, foi o desenvolvimento econômico, o surgimento e o fortalecimento da burguesia que criaram as condições para o surgimento do Iluminismo. O trabalho, portanto, caminha na direção oposta, vai das bases materiais para as ideias, e não das ideias para as bases materiais.
Existe, na intelectualidade, uma grande tendência para o idealismo. Tanto na Grécia quanto no final do Medievo foi o desenvolvimento econômico que permitiu o florescimento do pensamento. A Renascença, por exemplo, não foi um milagre. Os grandes pintores foram possíveis porque havia encomendas da Igreja, da aristocracia, bem como da burguesia, que se fortalecia dando seus primeiros passos.
O Iluminismo, por sua vez, é o auge, coincide com a Revolução Burguesa. E a revolução nada mais foi que o desfecho de toda a transformação econômica e social que colocava abaixo o Antigo Regime.
Segundo Pochmann, “hoje, sob o domínio quase monopolista das big techs, consolida-se uma nova infraestrutura do pensamento, baseada menos na expansão da consciência do que em sua captura e fragmentação. O que está em jogo não é apenas o conteúdo da informação, mas a própria forma de pensar”. Mas isso não é fato. O grande problema não está nas big techs, assim como não estava na televisão, mas em como funciona a sociedade sob domínio da burguesia, que foi revolucionária ao derrubar a aristocracia, mas que se tornou reacionária e impede o desenvolvimento social e cultural da humanidade.
Pochmann sustenta que “se, no passado, o obscurecimento esteve ligado ao monopólio religioso do saber, o presente digital revela um novo tipo de concentração, não mais a da verdade teológica, mas a da atenção e da mediação cognitiva”. A Igreja, a um tempo, cultivou o conhecimento e ajudou as ciências; porém, em outro momento, foi um fator reacionário, especialmente durante a Santa Inquisição.
Outro dado que traz o autor, é que “os algoritmos não apenas distribuem informação, pois eles hierarquizam o que merece visibilidade, privilegiando conteúdos de alta circulação e baixa complexidade. Com isso, contribuem para formar um ambiente em que o vocabulário se simplifica, a escrita se torna mais funcional e imediata, e a abstração cede lugar à reação”.
Quando dizem que “a era digital não inaugura uma nova Idade das trevas no sentido clássico. Ela produz algo mais sofisticado, como uma forma de obscurecimento que opera não pela falta de informação, mas, sobretudo, por seu excesso desestruturado. Não se trata da proibição do pensamento, mas de a sua dispersão”, é preciso rebater dizendo que estão procurando o problema no lugar errado.
As novas tecnologias, como foram a imprensa, o rádio, a televisão e a Internet, são extremamente úteis. O que tem que ser superado é o capitalismo, que tira das pessoas as possibilidades reais de conhecimento e desenvolvimento. Lutar contra a democratização das informações apenas dará mais fôlego para a burguesia, a responsável direta pelo estado geral de degradação da vida.





